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JBr Saúde #002​ – As sequelas pós Covid-19

Para um considerável grupo de pessoas que contraíram a covid-19, a doença que hoje assola o mundo infelizmente não termina no momento em que o organismo se livra do novo coronavírus.

A medicina vem verificando em muitas dessas pessoas a presença de sequelas que não se sabe por quanto tempo ainda vão gerar problemas. Sequelas graves. Boa parte delas relacionadas ao desenvolvimento de dor crônica. Muitas delas com potencial incapacitante, o que gera uma importante discussão sobre saúde pública e sobre o impacto disso para outros aspectos da vida, até mesmo para a economia.

No segundo episódio do programa JBr Saúde, iniciativa do Jornal de Brasília em parceria com o grupo Imagem & Credibilidade, o tema discutido são essas sequelas. Que os médicos já batizaram de Síndrome Pós-Covid ou covid longa. Para a discussão, o apresentador do JBr Saúde, Estevão Damázio, ouviu os especialistas Carlos Gropen, presidente da Sociedade para Estudos da Dor do Distrito Federal e coordenador do Grupo da Dor do Hospital Universitário de Brasília, e Rodrigo Aires, reumatologista do Hospital de Base, professor da Escola Superior de Ciências da Saúde e responsável técnico de Reumatologia da Secretaria de Saúde do Distrito Federal.

A Síndrome Pós-Covid é um conjunto de sequelas e efeitos colaterais que tem sido observado com frequência em pacientes que contraem a doença. Hoje, há uma divergência na literatura médica quanto ao momento em que tais sequelas devem ser consideradas. Para alguns, a partir de quatro semanas após a cura da doença. Para outros, a partir de 12 semanas.

O primeiro dado que impressiona é que se forem consideradas quatro semanas após a covid, a síndrome se manifestaria em 86% dos pacientes. A partir de 12 semanas, em 10%. “Lista-se quase 50 sintomas diferentes relacionados ao estado posterior à covid”, afirma Carlos Gropen. Muitos deles, ressalta o médico, incapacitantes.
Alguns desses sintomas são fadiga crônica, dores musculares, dores nas articulações, um fenômeno conhecido como brain fog, que é a incapacidade de raciocínio rápido, dificuldade de atenção e de concentração.

Para Rodrigo Aires, dado o percentual alto dos que desenvolvem tais sequelas, estamos diante de um problema de saúde pública que precisa ser considerado. Ainda se estuda o quanto dessa situação é gerada pelo vírus propriamente dito e o quanto é gerado pela situação de estresse que a doença provoca no paciente. Em muitos casos, o tratamento dos casos mais graves da covid são invasivos, o que gera trauma no paciente. A necessidade de movimentação do paciente para obter ventilação pode gerar trauma também. E há o próprio fator psicológico. Gera-se no paciente um quadro de estresse pós-traumático semelhante ao que se vê em pessoas que viveram situações de guerra ou acidentes graves. “É um ambiente de muita tensão”, explica Aires. “A pessoa já tem um medo imenso de contrair a doença. Quando contrai, esse medo se multiplica. E tudo isso amplifica a percepção de dor”.

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“A parte emocional é um modulador da dor”, completa Gropen. “O estresse que a gente vive, o medo da contaminação, estresse pós-traumático após um tempo na UTI. Isso tudo piora a dor. Modula a dor”.
Carlos Gropen observa ainda que não são somente os pacientes graves de covid que adquirem tais sequelas. Elas também estão sendo observadas até mesmo em pacientes assintomáticos. Eles nada sentem da covid-19 propriamente dita mas depois desenvolvem situações de dor crônica.

Para além do fator psicológico, há também a possibilidade de tais quadros estarem de fato diretamente relacionados ao novo coronavírus. O vírus que provoca a covid-19 é semelhante ao vírus que entre 2002 e 2004 gerou a Síndrome Aguda Respiratória Grave (Sars). No caso da Sars, esse fator foi estudado e comprovado. O vírus entrava pela cavidade nasal e ali afetava nervos do nariz que tinham conexão com o cérebro. Nessa ascensão ao cérebro, as inflamações percebidas atuavam na limpeza dos tecidos cerebrais pelos nervos linfáticos. “Parece que o vírus pode ter um mecanismo semelhante ao que acontece com o Mal de Alzheimer”, compara Carlos Gropen. No caso, tal situação poderia ser o fator gerador da Síndrome de Fadiga Crônica.

Gropen afirma que, diante desse quadro, no mundo inteiro já se estudam programas de reabilitação relacionadas à Síndrome Pós-Covid. “Devemos pensar em uma equipe multidisciplinar na rede de saúde para atender a essas pessoas”, prega ele.

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O JBr Saúde vai ao ar hoje no site do Jornal de Brasília. E todas as quintas-feiras. Com a apresentação de Estevão Damázio.






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