Com mais de 42 mil votos, o convidado desta edição do JBr Entrevista é o deputado distrital eleito, músico, e servidor de carreira da própria Câmara Legislativa Múcio Botelho. Defensor de bandeiras como a cultura e a fiscalização de políticas públicas, Múcio falou ao Jornal de Brasília sobre suas expectativas para seu primeiro mandato e sobre as disputas de espaço que ocorrem, neste momento, na Câmara Legislativa.
Você esteve aqui, antes da eleição, ainda como candidato.
Vocês nos deram sorte, viu? A gente veio fazer a entrevista aqui logo antes da campanha e rendeu bons frutos. Rendeu, inclusive, um mandato bem votado, né?
Fala um pouco sobre como foi essa campanha com vídeos que bombaram e te levaram à vitória.
O primeiro vídeo nosso que pegou foi o fizemos sobre o transporte noturno, falando com o Antônio, que é um amigo nosso, pizzaiolo, que trabalha lá na 406 Sul e mora no Itapoã. E aí a gente quis mostrar um lado da cidade que ninguém vê. O pessoal reclama muito que a cidade morre muito cedo aqui em Brasília e ninguém lembra de quem faz essa noite acontecer. Pegamos esse nosso amigo e acompanhamos o trajeto dele, após o expediente, até chegar em casa. Basicamente, o homem sai do turno dele à meia-noite e espera até 1h30 da manhã o ônibus do corujão passar, que passa de hora em hora e meia, e quando o ônibus vem, descamba lá para o Itapoã. No meio do caminho entra em Sobradinho, gastando uma hora, sem que ninguém entre ou saia do ônibus. Chega no Itapoã, que é onde todo mundo mora, e o ônibus não entra. Às 4h da manhã, as pessoas são deixadas na entrada da cidade e a galera inteira tem que caminhar mais meia hora ou 40 minutos até chegar em casa. Resultado: um homem que sai do trabalho à meia-noite está chegando em casa às 4h40 da manhã.
Qual foi o mote da campanha?
Nossa campanha inteira foi fazer esse trabalho, que era enxergar na cidade problemas estruturais que todo mundo sabe que existem, mas parece que a gente está tão acostumado, tão anestesiado, que ninguém identifica. Então, o nosso trabalho não foi ficar correndo atrás da denúncia do momento, do escândalo do momento — que é um jeito muito fácil de fazer campanha, mas você acaba sempre sendo pautado. A gente fez o caminho contrário: nós pautamos a cidade. Cada uma das nossas denúncias pautou a cidade; a imprensa começou a falar do assunto, o Ministério Público e o Tribunal de Contas começaram a ir atrás das coisas que estávamos falando. Eu acho que fui a única pessoa da oposição que não tomou processo da gestão da governadora Celina Leão (PP), porque em nenhum momento eu a ataco pessoalmente; eu ataco a gestão, ataco problemas estruturantes.
O que te levou de primeiro suplente a puxador de votos do PSB?
Acho que a primeira campanha que fizemos foi no limite de onde as minhas perninhas conseguiam alcançar. Era um trabalho de sair de casa às 6h da manhã, voltar à 1h da manhã, falando com todo mundo de um em um, baseado em algo que agora foi diferente. Na primeira eleição, ninguém me conhecia. Agora, tínhamos que mostrar a cara e dizer: “A gente tem chance”. Foi muito difícil. Mesmo assim, conseguimos 9.956 votos, faltando apenas mil votinhos para entrarmos. Nessa eleição, aconteceu algo muito importante: durante esses quatro anos, nós não paramos. Todo mundo que escolheu acreditar na gente naquela eleição agora acreditava porque via de fato o que eu vinha fazendo. Nós fomos a página política que mais cresceu no DF e a vigésima do país. Você consegue atravessar o DF inteiro num dia — e quantas vezes eu não fiz isso ao longo dessa campanha? Isso é muito importante, porque senti que, nesta eleição, os candidatos não estavam na rua. Encontrei pouquíssimos deles, e não há nada mais importante do que essa troca olho no olho com as pessoas.
Você acredita que esta foi a eleição da rede social, apesar de ter optado por ir para a rua?
Toda eleição todo mundo fala que é “a eleição da rede social”. Toda vez vai ser, e toda vez não vai ser. A rede social é uma porta de entrada para todo mundo e funciona como um chamariz. Porém, sozinha, ela não resolve absolutamente nada; ela apenas chama a atenção. Se você não tem um trabalho consolidado de verdade — principalmente em um cargo como o de deputado distrital, que acumula muita carga ética de confiança, proximidade e relacionamento —, se você não tromba com as pessoas, perde a chance de consolidar esse laço. Acredito que alcançamos muitas pessoas na rede social e, quando as encontrávamos na rua, elas viravam supermultiplicadoras. Famílias inteiras votaram em mim, grupos votavam em mim. Não era só o Múcio sozinho na rua, era o Múcio, a família deles, a galera do jiu-jítsu, a galera das bandas.
O Múcio ficou famoso primeiramente pela banda Lupa. Como vai ser o futuro do Múcio artista somado ao deputado a partir de janeiro?
Vai ser do mesmo jeito. A gente vai continuar tocando, vou continuar compondo, vamos continuar lançando música. As pessoas me elegeram sabendo quem eu sou; eu não consigo ter uma máscara, não consigo fingir. E um dos grandes motivos de as pessoas acreditarem em mim é também por conta do meu envolvimento com a cultura. Nesta eleição, tivemos muito apoio do setor cultural, e acho que sou o primeiro candidato que veio verdadeiramente do ambiente da indústria criativa. Essa será uma das pautas prioritárias do nosso mandato. E não há jeito melhor de saber o que o setor precisa de fato do que vivendo nele.
Vamos dar aquela informação lá sobre o futuro da Banda Lupa?
Vamos, atenção! Tem três meses que estou devendo entregar uma música para lançarmos o terceiro disco. Eu não consigo porque estou rouco (risos). Estou há três meses sem parar na rua, dormindo uma hora e meia por dia, coitado. Aquela situação: dormindo pouco e falando com todo mundo. Se Deus permitir, vou dar uma baixada no ritmo para ficar uma semaninha mais calado — literalmente calado —, para poder gravar essa última música. A gente tem que entregar esse vinil. Para quem é fã da Lupa, o deputado eleito Múcio vai lançar com a banda o próximo disco, inclusive em formato de vinil. Isso é o mais legal: o terceiro disco, voltando no tempo para entregar um trabalho novo em mídia física.
Quais são as bandeiras que você pretende levantar para a cultura do DF?
Aprimeira coisa que temos que organizar são as formas de estruturação do financiamento da cultura. Hoje, o financiamento cultural foi reduzido à emenda parlamentar. E o que acontece? A emenda parlamentar funciona para financiar basicamente um tipo de evento: o evento temporário. Você sobe palco, desce palco, o artista recebe pouco ou nada, e nada fica para a cidade. É isso que acontece. Quem fica feliz com isso? Donos de tenda, donos de equipamentos de som e luz, e os parceiros dos deputados que estão executando emendas — que a gente sabe que têm lá seus favorecimentos —, e todo mundo sai feliz. A cidade não recebe nada. Quero trabalhar muito para estruturarmos as formas de financiamento da cultura, para que paremos de depender de pedir esmolas para deputado. Isso é um absurdo. A Secretaria de Cultura tem que ser um órgão imponente, com liberdade e orçamento próprio que não possa ser contingenciado, como vem acontecendo.
Para além das emendas, qual o caminho?
Precisamos melhorar a captação junto às empresas. Hoje existem inúmeras dificuldades que afastam essa possibilidade, e o teto de arrecadação dela precisa ser elevado. Temos que redescutir isso. Além disso, precisamos de equipamentos públicos permanentes. Olhe o tanto de espaço legal que temos na cidade, e a maioria deles não tem sequer tratamento acústico ou programação continuada ano a ano, enquanto gastamos grana com emenda parlamentar para eventos temporários. Vamos direcionar recursos para fortalecer esses equipamentos permanentes da cidade, fazer uma programação de qualidade para que as pessoas tenham acesso e construir novos espaços onde ainda é preciso. Esse é o grande foco.
Para além disso, quero muito fazer a expansão do Amplifica. Sou apaixonado por esse projeto porque é algo que eu sonhava que alguém tivesse inventado dez anos atrás, quando eu estava começando. Teria me economizado uns quatro anos e uns 40 mil reais. Para quem está à frente de uma banda, qualquer mil reais é um desespero; perder mil reais às vezes é o que define se um projeto continua ou não. Quantas bandas de amigos nossos já não morreram por falta de sustentabilidade financeira? Brasília é um grande cemitério de projetos incríveis, e isso acontece porque falta algo essencial que nenhuma política cultural de Brasília trabalha: formação de audiência. A gente sempre pensa nos grandes eventos (estádio, Esplanada, grandes festas), mas a identidade da cidade acontece no dia a dia, nas pequenas e médias casas — que, por sinal, são perseguidas, porque parece que Brasília vê a noite como um problema e não como uma superpotencialidade.
Sendo, você, servidor da CLDF qual será sua pauta para as carreiras públicas e da Casa?
Eu sou um grande defensor do serviço público, porque sei o potencial que ele tem de transformar a realidade da cidade e das pessoas que o integram. Tenho um orgulho gigante de ser um servidor de carreira daquela casa. Como um servidor de carreira, a maior entrega que posso fazer — e que nenhum deputado entende — é organizar a Casa administrativamente para que, independentemente de quem estiver eleito, ela consiga entregar resultados positivos para a sociedade. Quero fortalecer um setor de fiscalização permanente das políticas públicas, que é o grande papel da Câmara Legislativa — e onde ela mais falha e deixa de entregar. Não podemos deixar que pastas tão importantes fiquem na mão de deputados que não têm interesse pelo tema. Por exemplo, a Comissão de Transportes era muito irrelevante até um grande parceiro nosso, o Max Maciel (PSOL), entrar lá e fazer uma grande virada de chave, transformando-a em uma comissão que começou a tracionar por fazer acompanhamento de políticas públicas. O mesmo aconteceu com o Fábio Felix (PSOL) na Comissão de Direitos Humanos, na Comissão de Saúde, na Comissão de Educação. Não podemos depender da sorte de um deputado interessado no assunto cair em determinada comissão para ela funcionar. Eu quero que nós, servidores de carreira — que vamos ficar lá depois que os deputados forem embora —, integremos e construamos esse sistema de fiscalização permanente em contato direto com o Executivo, o mercado, a academia e os órgãos de pesquisa. A Câmara tem que ser um grande polo de pensamento e melhoria das políticas públicas, e infelizmente ainda não faz isso plenamente.
Vamos falar agora de Mesa Diretora. Como pretende contribuir?
Faltam dois meses ainda para isso, muita coisa vai acontecer, e qualquer um que apontar o dedo agora dizendo o que vai rolar está mentindo. O meu papel será o mesmo que venho cumprindo ao longo desta trajetória: vou sentar e conversar com todo mundo. Como eu disse, sou o único candidato da esquerda que teve votos da galera de centro e da direita, e tenho facilidade para fazer essas pontes. Eu acho muito ruim termos uma disputa violenta lá dentro, porque não faz sentido: a Câmara é um órgão pequeno e organizado. Se conseguirmos calibrar esse processo para criar um consenso bacana — garantindo espaços importantes para cada um dos atores desse jogo —, essa será a melhor coisa. Portanto, meu grande interesse agora é identificar quais serão os espaços estratégicos para exercermos nossa função a contento.
Tem preferência por alguma comissão, mesmo que não seja presidindo?
Acho que hoje o lugar onde eu seria mais feliz seria como membro titular na CCJ [Comissão de Constituição e Justiça], porque sou formado em Direito, é minha área de atuação e sou servidor de carreira conhecedor do funcionamento da Casa. É um lugar onde posso contribuir tecnicamente com muita qualidade. Além disso, faria muito sentido atuar na Frente de Fiscalização e Transparência — de novo, tendo tudo a ver com o que defendemos —, para fazer uma fiscalização efetiva, buscando identificar dentro dos espaços o que faz sentido, o que não faz e propondo melhorias.