Durante anos, a política brasileira procurou uma terceira via como quem procura orelha em cobra. Todo mundo dizia que existia eleitor para ela. O problema era encontrar alguém em quem esse eleitor fora das bolhas estivesse disposto a votar.
Augusto Cury talvez esteja começando a responder à pergunta.
O escritor e psiquiatra do Avante acaba de produzir o primeiro movimento surpreendente da eleição presidencial de 2026.
Na pesquisa BTG/Nexus, saltou de 2% para 11%. Nove pontos de crescimento. No AtlasIntel/Bloomberg, saiu de 1,6% para 7,8%. Em poucos dias, deixou o rodapé das pesquisas e passou a ocupar o primeiro pelotão da disputa.
Vale dizer que é cedo para transformar espirro em pneumonia eleitoral. Mas é tarde para fingir que nada aconteceu.
A fratura revela que saiu do armário uma parcela do Brasil cansada da obrigação de escolher permanentemente entre duas faltas de opção. Lula de um lado. Bolsonaro, agora representado eleitoralmente por Flávio, do outro.
Uma parte do eleitorado parece ter começado a perguntar se existe vida fora disso.
E aqui surge uma dificuldade particularmente incômoda para Ronaldo Caiado e Romeu Zema.
Os dois imaginaram que poderiam representar uma alternativa. O problema é que eles passaram boa parte da construção de suas candidaturas tentando conseguir o carimbo de uma das bolhas dessa polarização que eles tentam se descolar hoje.
Caiado e Zema disputaram o espólio político de Jair Bolsonaro e buscaram sua bênção enquanto havia dúvida sobre quem seria o candidato presidencial do bolsonarismo. Até o compromisso do perdão presidencial para Bolsonaro entrou na roda.
Quando Bolsonaro decidiu apostar no próprio filho, era tarde para qualquer um desses dois encarnar a terceira via.
Os números começam a mostrar que o eleitor de terceira via existe e não admite ambiguidades. No BTG/Nexus, Cury chegou aos 11%, enquanto Caiado ficou em 6% e Zema em 2% no cenário publicado pela Folha. No Atlas, Cury apareceu com 7,8%, Caiado com 3,3% e Zema com apenas 1%.
A polarização criou uma chantagem eleitoral permanente. Já no primeiro turno, o eleitor é convidado a abandonar quem prefere para impedir quem rejeita. Vota não para eleger, mas para eliminar. Não escolhe. Defende-se.
Cury pode estar se beneficiando do primeiro espasmo dessa rebelião contra a lógica da excludência eleitoral. Até porque, tirando sua ideia de drone contra feminicídio, quase tudo que ele defende se apresenta com um verniz de coerência, rejeitando a polaridade entre direita e esquerda. Ele ressalta que a “dor de quem precisa de ajuda” não é de esquerda nem de direita.
Depois do primeiro debate presidencial, suas buscas na internet dispararam. Levantamento da Vox Radar apontou crescimento de cerca de 19% em seus seguidores no Instagram, enquanto as buscas pelo seu nome no Google aumentaram fortemente na semana seguinte ao debate. Nesse compromisso da Band, a atitude paternal de Cury, sugerindo moderação de linguagem para o candidato Renan, falou por quem assistia, surpreendendo ao revelar uma rara atitude construtiva para o ambiente político.
Isso tudo não significa que esses surpreendentes 11% para Cury estejam consolidados. Muito menos que Cury esteja destinado ao segundo turno. Campanhas produzem meteoros com a mesma facilidade com que produzem estrelas. Em 1989, Afif e Covas viveram seus momentos de brilho. Mas foi Collor quem ganhou.
O fato é que hoje existe um contingente eleitoral que não aceita morar na bolha petista nem na bolsonarista. Não é gente necessariamente de centro. Há conservadores, liberais, moderados, antipetistas que não são bolsonaristas e eleitores de centro-esquerda que não desejam continuar presos ao lulismo. É um arquipélago, não uma ilha. E é aí que está a chave desta equação.
Se essa lógica de terceira via sobreviver às próximas pesquisas, muda o caminho da vitória eleitoral. Significa que o voto útil poderá ser empurrado para o segundo turno, tendo o azarão funcionando como pêndulo.