A governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), foi a convidada da edição especial do JBr Entrevista desta sexta-feira (19). Há pouco mais de 60 dias no cargo, a chefe do Executivo local falou da sua nova política de habitação para o DF, das medidas para a saúde, do plano de salvamento do Banco de Brasília e da economia de cerca de R$ 1 bilhão para os cofres públicos ao ocupar o Centro Administrativo (Centrad).
Ao Jornal de Brasília, a governadora falou ainda sobre seus projetos, já em andamento, para as mulheres, como a Casa da Mãe Atípica e o Programa Climatério. Por fim, Celina falou sobre o cenário político e sobre o combate às fake news durante as eleições.
Governadora, gostaria de pedir que se apresentasse ao público.
Eu sou uma pessoa de hábitos muito simples. Montei cavalo muitos anos da minha vida, viajei o Brasil inteiro, patrocinada, fazendo uma prova masculina de montaria. E isso, acho que me deu a estrutura necessária para estar onde eu estou hoje. Mas a Celina do dia a dia é uma pessoa muito comum, igual a todas as pessoas. Uma dona de casa, uma mãe, uma filha. E é engraçado, porque agora, ao assumir como governadora, eu ainda vou aos mercados e as pessoas falam assim: “Nossa, você é a governadora!”. Eu falo: “Eu sou igual a qualquer mulher”. Então isso é algo de que eu faço questão de não perder. Eu acho que tenho muito o pé no chão de que eu estou como governadora. Nunca morei na residência oficial. Tenho uma residência oficial da vice-governadoria que eu uso para escritório, mas moro na minha casa. No mesmo lugar há quatro mandatos. Então, assim, eu tenho muito orgulho de não ter perdido a minha essência no meio da política, de não ter ficado deslumbrada, de saber que eu posso fazer o bem para o próximo. Então, acho que foi isso que me levou a ter quatro mandatos.
Como foi o seu começo na política?
Eu era jovem, coordenei a frente de jovens para o [ex-]governador Joaquim Roriz, fiz um trabalho com os jovens. Depois, eu coordenei a campanha da filha dele, a Jaqueline [Roriz], e fiquei como chefe de gabinete dela por dois anos. Depois, quando o ex-governador resolveu sair para ser senador, eu fui cuidar do escritório dele, e o Valério Neves foi cuidar do gabinete da Jaqueline. E as pessoas falavam para mim: “Você tem que ser deputada, você tem que ser deputada”. Eu sempre cuidei muito dessa parte política.
E como foi a reação do ex-governador Roriz?
E esse episódio foi muito engraçado: eu fui conversar com o governador Roriz e falei assim: “Governador, as pessoas estão falando que eu tenho que ser candidata”. Ele respondeu: “Se você acha que tem que ser deputada, você vai ser deputada. Me conta essa história, você quer ser deputada?”. Eu falei: “Não, governador, as pessoas é que estão falando que eu tenho que ser deputada”. Ele disse: “Então você tem que ser deputada. Porque, se as pessoas estão falando, é porque elas acham que você pode ser deputada, mas você tem que sair do escritório, porque na minha campanha o povo é muito ciumento”. E foi assim que eu me candidatei. Na última hora, a Liliane saiu como candidata, foi uma confusão porque nós estávamos na mesma base eleitoral, e eu ganhei também. Então eu acho que sou uma pessoa de muita fé, que orou muito a Deus antes de ser candidata, pedindo confirmação. Eu tive essa confirmação espiritual também, porque eu acho que é uma missão. Então estou aqui até hoje.

A senhora teve problemas de saúde nas últimas semanas. Como ela está agora?
Estou bem. Eu peguei a cidade com muitos problemas. É claro que isso consome muito o seu estado emocional, e é impressionante como você enfrenta adversários desqualificados do ponto de vista do debate. Se você for parar para pensar, teve muita gente que torceu para o Banco de Brasília (BRB) quebrar. Fizeram campanhas para isso. Isso é muito feio, porque essas pessoas não estão preparadas para cuidar de Brasília. O banco hoje é um patrimônio da cidade. Então as pessoas esquecem de separar isso. Isso consome um pouco a gente fisicamente.
E qual o diagnóstico que a senhora teve?
Eu tive um primeiro pneumotórax duas semanas atrás. Foi tratado rapidamente no mesmo dia em que fiz um procedimento muito simples, porque você coloca um dreno. Fiquei dois dias com o dreno e, já na segunda-feira, eu falei para o médico: “eu não desisti”. E eu planejei o “GDF Mais Perto de Você”, que é um dos programas de que eu tenho muito orgulho de ter criado, que é uma marca imediata e é uma marca de resultado, pelo modo como muda a vida do cidadão. E, claro, não tive o repouso adequado. Eu sou uma pessoa muito determinada e que me doo muito ao que eu faço. E aí foi onde eu passei um pouco mal, tive um pouco de falta de ar, e eu já tinha que ter voltado para fazer o exame. Fiquei com medo de não ter recuperado, mas eu estou ótima. Era apenas uma bronquite mesmo, com um pouco de mal-estar e sinusite.
Para a surpresa de muitos, a senhora decidiu ocupar o Centrad. O que possibilitou isso?
O Centrad teve uma batalha judicial muito grande, porque teve erros do passado que foram judicializados. Nós conseguimos vencer todos esses erros e termos a posse definitiva do Centrad para a cidade há alguns anos. E eu, como vice-governadora, fazia um planejamento para 10 anos, um planejamento estratégico de secretarias e de órgãos, e a gente entendia que precisava ter algumas melhorias ali. Uma obra foi feita para que a gente pudesse ter essa ocupação parcial, e eu pude tomar a decisão de ocupar. Eu brinquei que a ocupação é muito simbólica. Para Samambaia, Ceilândia e Taguatinga, você vai mudar o fluxo da cidade. E os nossos servidores públicos que vão para lá não precisam se preocupar, porque nós temos metrô na porta, são menos de 15 minutos e pega o contrafluxo, pega o metrô até vazio. Eu tenho certeza de que vai ser algo muito importante para o desenvolvimento daquelas cidades, mas principalmente para você ter uma gestão pública concentrada. O Distrito Federal não é só o Plano Piloto. O centro é muito importante, toda essa parte do Congresso e tal, mas Ceilândia é uma cidade, Taguatinga é outra, e o centro de Taguatinga está do lado, onde tudo se confunde. Fora a M Norte, que é do lado também, e onde foi construído o Túnel Rei Pelé, que também faz parte daquele complexo.
E como a senhora vê essa mudança?
Tenho certeza de que vai ser um grande avanço. É uma decisão corajosa. E eu proibi a compra de móveis. Eu falei: “Gente, quando uma pessoa comum vai mudar, ela não pega os móveis dela e leva? Por que nós vamos comprar móveis novos?”. Não, não houve nenhum gasto com isso. Nós vamos pegar os móveis que nós já temos. Eu estava fazendo um levantamento do que se gasta com aluguel, e a gente vai economizar mais de R$ 1 bilhão.Porque você gasta, você faz contratos, você tem aluguel. Fiz um relatório de 5 anos mostrando que a gente gasta mais ou menos R$ 68 milhões por ano. Então, assim, quando eu conseguir transferir e tirar todas as nossas secretarias dos prédios alugados, eu vou conseguir economizar R$ 1 bilhão só de aluguel.

Como a senhora encontrou o governo após assumi-lo?
Quando nós assumimos, eu troquei a Secretaria de Fazenda, porque eu achava que precisava colocar alguém de confiança. Eu trouxe um técnico que estruturou o Fundo Constitucional do DF, o Valdivino Oliveira, que foi 11 vezes secretário de Fazenda. Nós nos inteiramos da situação financeira naquele momento. Os relatórios eram muito fragmentados, a gente não tinha as informações necessárias. Eu só consegui ter o panorama do que realmente nós tínhamos de problema quando o Valdivino veio. Nós fizemos vários decretos, cortamos gastos, privilégios, reduzimos em 25% os contratos e conseguimos manter a gestão. Não teve corte de serviços: a cidade está limpa, está urbanizada, está cuidada. Estamos fazendo o “GDF Mais Perto de Você” em várias cidades, mas cortando o que entendíamos que não era necessário. E para mim é muito fácil fazer isso porque eu ando muito, eu sei qual é a expectativa da população, eu sei o que eles querem e sei com o que eles não estão nem aí. Então, assim, foi fácil.
E como foram feitos os cortes?
Um corte não pode ser apenas linear. Porque, por exemplo, na saúde eu não cortei, na saúde eu aumentei; mas em outras áreas eu cortei. No primeiro dia, eu cancelei a festa de aniversário de Brasília. A mulher tem essa personalidade, é uma coisa assim engraçada: a gente não dá conta de fazer uma festa na nossa casa se não tiver dinheiro para comprar o remédio dos filhos. Isso é muito da mulher: “Não vou fazer conta e depois ver como é que eu pago”. Então, com esse dinheiro economizado, eu contratei 114 médicos para a atenção básica. E daí foram vindo as ações que nós fomos fazendo. Comecei a reformar vários espaços hospitalares, a priorizar isso. Comecei a gestão dessas reformas que a gente tinha para entregar ambulatórios, entregar UTIs reformadas, tudo com prazo de 30 a 40 dias.
Como foi essa gestão?
Foi uma gestão baseada em dados a partir daquele momento em que assumi. Eu me preparei para isso, tanto que hoje eu tenho toda a cidade monitorada na minha sala e eu sei de tudo. Eu abri a fila dos hospitais e ninguém vai me rebater por falta de transparência. Eu abri a fila dos hospitais não só para a fiscalização, eu abri a fila dos hospitais para a imprensa. Vocês abrem e veem como estão os nossos hospitais, porque eu não tenho dificuldade de falar dos problemas que nós temos, mas eu tenho coragem de enfrentá-los.
E qual a percepção que a senhora teve ao assumir?
Eu peguei essa cidade com dois graves problemas: um problema financeiro e um problema no BRB. Em menos de 60 dias eu os resolvi, e também enfrentei o problema mais grave que já existia, que era o problema da saúde. Abri a gestão com 33 mil cirurgias reprimidas, contratamos 20 mil e estamos operando as pessoas todos os dias. Todos os dias as pessoas estão sendo chamadas para cirurgias eletivas. Está bom? Está maravilhoso? Claro que não. É um problema que se arrasta há décadas. Todo governador teve problemas na área da saúde, todos. Mas é engraçado que eu vi algo muito especial esta semana. Eu fui ao Hospital de Sobradinho e tinha um médico lá da época do Jofran Frejat [ex-secretário de Saúde]. Ele está aposentado e ele chorou. Ele falou que só viu fazerem ali o que eu estava fazendo na época do Frejat. Foi uma coisa legal de se ouvir. É um reconhecimento de alguém que está vendo o seu esforço de fazer a diferença.
O que mais a senhora destaca na saúde?
Contratei 200 mil consultas. Consultas em várias especialidades para que as pessoas pudessem realizá-las, e fui ver também as consultas na área de oftalmologia. Você chega lá e vê pessoas que estavam ficando cegas e que precisavam de cirurgia de catarata. Essa fila da consulta gera uma fila de cirurgia, mas eu também já estou atacando a fila das cirurgias.
E o que pode avançar para ajudar a diminuir essas filas?
Mandei para a Câmara o projeto do SUS-DF e no nível em que nós estamos fazendo, tenho certeza de que vai melhorar, já está melhorando. Temos problemas? Claro. Existe essa dificuldade de contratação de médicos e de o médico permanecer na nossa rede, pois o salário está muito defasado. É um mercado muito competitivo. Se eu tivesse tido tempo hábil e se não houvesse impedimento eleitoral, eu teria mexido nisso para mantermos o médico na rede pública hoje. Nós temos várias especialidades que, se a gente não mexer na remuneração, vamos perder esses profissionais que são referências aqui no DF. Mas essa é uma discussão que eu estou fazendo muito perto da classe médica e da saúde como um todo. E a gente está enfrentando os problemas, enfrentando e resolvendo.

A senhora está retomando a política habitacional. O que está sendo feito?
Eu vi muitas pessoas terem seus sonhos realizados pelo modo como o Roriz fez em relação à moradia e à dignidade. Ele teve coragem de criar novas cidades, como Samambaia, Recanto das Emas, Santa Maria, e as pessoas passaram a ter a dignidade de um lar. Então nós voltamos a olhar para a lista da Codhab (Companhia de Desenvolvimento Habitacional do DF) e, paralelamente a isso, a enfrentar a grilagem de terras. Porque a pessoa muito simples, o pobre que compra a terra aqui, ele está comprando do grileiro sem saber, porque aquela terra é pública. Quando eu entrego o lote unifamiliar da Codhab, eu entrego o lote, mas deixo guardado o espaço da escola, deixo o espaço do centro básico de saúde. Então isso é fazer política pública para a pessoa que precisa, mas com planejamento. É isso que nós estamos fazendo. Ao mesmo tempo em que você entrega o lote — porque você tem que entregar as ruas prontas, tem que entregar ali um escoamento e também o planejamento do trânsito —, você combate a grilagem e entrega o lote para quem realmente precisa e está nessa fila esperando há muito tempo. Fazia muito tempo que não se entregavam lotes, mas eu não tinha como não retomar essa política, porque eu acredito muito que as pessoas precisam ter essa expectativa. Os primeiros lotes que eu vou entregar agora, este mês ainda, são para as pessoas com deficiência. Então é algo muito especial, para um público realmente necessitado.
E quais seus planos para o Setor Comercial Sul?
Eu estou recebendo tanto a Fecomércio quanto o Codese, e a gente está criando o maior programa de economia criativa e cultural, que vai ser naquele lugar. Nós estamos fazendo um retrofit. Eu vou ter que mandar esse projeto de lei para a Câmara Legislativa, porque eu vou colocar um percentual também para unidades residenciais unifamiliares — um espaço para você colocar um pouco de residência. Assim, você passa a ter uma rua que funciona 24 horas, você tem restaurantes, você tem um centro vivo. E para isso eu tenho que requalificar aquele espaço, passando também pelo Conplan (Conselho de Planejamento Territorial e Urbano do DF).
Em que fase ele está?
Esse projeto já está passando pelo Conplan, nós estamos terminando os ajustes finais dele e vamos mandar para a Câmara Legislativa. Com isso, o centro de Brasília vai ter um retrofit, porque ele passará a ter um pedaço de unidades residenciais, que atrai aquele público mais jovem, a pessoa que está querendo morar perto da badalação, do agito. Existe um perfil específico para morar nesse espaço e ter uma área que funcione continuamente. Porque a gente fala: “Ah, São Paulo funciona 24 horas, o Rio também…”. Você tem que ter um espaço assim aqui, e o projeto está lindo, maravilhoso. Eles já estavam dialogando com o Iphan também. Tem algumas mudanças propostas, mas são mudanças que, segundo o Iphan, não têm tanta dificuldade, porque não mexem na escala bucólica da cidade. É algo muito inovador e acho que vai ficar bem legal.
Quais políticas para as mulheres a senhora consegue destacar?
A Secretaria da Mulher tem uma indicação nossa; o espaço que era meu era esse. Então eu posso contar um pouco até sobre o que nós fizemos durante esse tempo todo. Nós fomos o primeiro estado que teve um programa de auxílio financeiro para órfãos do feminicídio. Era um programa que eu não gostaria de ter que criar nenhum, mas é uma realidade que eu preciso enfrentar, preciso acolher essas crianças. É impressionante como esse cuidado foi fundamental, porque nós temos mulheres de famílias extremamente vulneráveis. A segunda coisa que nós fizemos também foi o Viva Flor. Nós anunciamos o Viva Flor em um momento em que eu estava como governadora em exercício, em uma viagem do ex-governador Ibaneis. Nós editamos uma portaria ali, um decreto. E, que pese, nenhuma mulher morreu desde que foi inserida no Viva Flor. Porque eu não espero mais a decisão judicial para dar a proteção; eu dou a medida protetiva imediatamente porque eu não posso ver a mulher desamparada. Eu não sou o Judiciário, não posso emitir a medida protetiva judicial, mas a mulher sai da delegacia com o aplicativo no telefone dela e eu nunca perdi uma mulher que estava monitorada por esse sistema.
E o que foi feito para afastar a mulher de seu agressor?
Depois disso, nós criamos um aluguel social para tirar aquelas mulheres que tinham medo de sair de casa e continuavam na condição de violência. Esse programa é muito importante para proteger a vida de mulheres e de crianças. Nós também ampliamos os programas: saímos de 15 equipamentos públicos de atendimento durante esses 4 anos e fomos para 31 equipamentos públicos. Sendo que quatro deles eu articulei ainda quando eu era coordenadora da bancada feminina e deputada federal; colocamos o recurso e nós entregamos essas quatro Casas da Mulher Brasileira em quatro cidades. Então saímos de 15 equipamentos, fomos para 31 e lançamos programas.
A senhora pediu uma pesquisa para saber os meandros do feminicídio.
Na semana passada, eu pude apresentar a primeira pesquisa pública do Brasil sobre o feminicídio. Aquilo é muito forte porque a gente sai do achismo e vai para a ciência. O que a pesquisa fala? Que o que mata as nossas mulheres é o comportamento machista; é você reforçar esse estereótipo de que o homem é quem manda, de que a mulher é propriedade dele, de que o homem tem que definir a roupa que a mulher usa. Até os autores de feminicídios foram entrevistados. É um material muito rico para você ter essa dimensão do que é a violência contra as mulheres.
O que mais lhe chamou atenção na pesquisa?
O que mais me chamou a atenção também na pesquisa foi que 25% das mulheres sofriam violência e já não estavam mais com os companheiros, enquanto 15% delas ainda moravam com eles. Então isso é muito grave do ponto de vista da proteção às nossas mulheres. E aí, quando se pergunta por que a mulher ainda permanece nessa situação de violência, a resposta é a falta de autonomia financeira. Para isso, nós temos programas como o ReNova, o Qualifica e a Fábrica Social. Esta semana inteira eu joguei luz sobre isso: o público-alvo na maioria deles são as mulheres. Então, assim, eu tenho muito orgulho de estar cuidando da questão da autonomia financeira, de estar cuidando das mulheres e de, sempre que tenho oportunidades como esta, falar que ela tem que sair da situação de violência. Ela não pode permitir isso; a gente não pode achar que o agressor não vai fazer nada no dia seguinte ou que o ciúme possessivo é amor. Posse não é amor, invasão de privacidade não é amor, estereótipo de controle não é amor. A pesquisa fala que esses homens que se comportam dessa forma ou machucam as nossas mulheres ou as matam.
Como está o projeto da Casa da Mãe Atípica?
Eu sou de uma família atípica. Tenho dois irmãos com doenças raras: uma faleceu e eu tenho outro irmão que tem uma doença rara e que é médico — ele descobriu o diagnóstico mais tarde, há menos de 10 anos. E a gente percebe como a mãe se doa, como ela cuida. Mas quem cuida dela? Então, esse espaço que a gente pensou no Parque da Cidade é um espaço para a mãe atípica. No Parque da Cidade, que é um lugar super legal, ela vai poder ter um tempo para ela, ter uma roda de conversa com outras mulheres, vai poder receber uma massagem, ter um psiquiatra para atendê-la também, ter um psicólogo. É um espaço de acolhimento, um espaço que vai ter a hora da yoga para ela ser cuidada. Eu tenho certeza de que, quando ela for recarregar as energias dela, ela vai ter condições de cuidar melhor e de estar bem. Nós temos pesquisas que falam que a maioria desses lares de famílias atípicas são de mães solos, ou de mulheres que se tornam solos porque os homens saem e as abandonam. É uma vergonha dizer isso, mas uma boa parte das mulheres são abandonadas quando o homem vê que a criança precisará de cuidados especiais para sempre. A ideia é falar sempre para as mulheres: a gente está aqui, a gente vai ajudar você a ter forças para continuar.
E o que é o programa do climatério?
O programa do climatério é algo muito forte, porque eu comecei a viver isso e fui atrás da rede pública de saúde. Eu estou no climatério e, quando chegava à noite, simplesmente eu não dormia, eu derretia de calor em casa. Eu acordei um dia e falei: “Eu vou criar um programa sobre isso”. Gravei um vídeo, abri meu coração, apareci descabelada mesmo. E isso eu acho que é o que mostra para as pessoas a nossa humanidade. Nós vamos criar o primeiro Centro de Referência sobre Climatério e Saúde da Mulher, porque muitos medicamentos necessários não estão na previsão da lista do SUS, mas nós vamos ampliar. Nós podemos fazer isso no âmbito do DF. Então nós vamos melhorar a medicação, vamos treinar as nossas Unidades Básicas de Saúde (UBS) para fazer esse atendimento e nós vamos ter um centro de referência que vai irradiar essa política pública para as mulheres que estão passando por esse momento.
E qual a devolutiva que a senhora recebeu?
Você imagina a mudança de humor, a depressão. Vem tudo junto porque é hormonal, é muito forte. E isso, por muitas vezes, foi rotulado como “frescura” ou como “mulher chata”. Muitas mulheres não entendem que estão passando por isso, e muitos homens também não — principalmente os homens. Eu recebi uma mensagem na internet muito engraçada, o homem pedia: “Por favor, divulguem isso, acho que a minha mulher deve estar com isso porque ela está muito brava”. Então é assim, porque realmente mexe com o humor. É o cuidado e o olhar atento para a mulher.
Como o GDF pagará o empréstimo de R$ 6,6 bilhões, ao BRB, que poderá custar mais de R$ 20 bilhões ao final de 15 anos?
É importante a população entender que quem vai pagar é o próprio banco. O banco pagava de imposto para o DF R$ 1,8 bilhão por ano. Então ele é um banco que, se for bem gerido, dá lucro. Nós estamos falando de mercado. Qual é o mercado hoje que dá mais lucro no Brasil? O mercado financeiro. Você imagina: hoje é o mercado financeiro. Então, ele bem gerido e com compliance — que é o que nós estamos fazendo —, ele vai realmente se pagar. Essa dívida é uma dívida escalonada, com juros que vão ser de 4% a 7% ao ano. Não haveria esse problema de gerar juros absurdos de R$ 20 bilhões. Isso é uma loucura que a oposição inventa. Todas as minhas vitórias a oposição criticou. Eles não trouxeram nenhuma solução. Nenhum dos pré-candidatos apresentou uma solução para o problema; não conseguiram resolver, criticaram o tempo todo e a gente resolveu o problema. Quem vai pagar essa conta é o próprio BRB, nós não tiramos um centavo do Tesouro do DF.
O que a senhora pode destacar no salvamento do BRB?
Nós resolvemos o problema de liquidez do banco porque a nossa credibilidade e a nossa força de enfrentar isso fizeram com que os clientes voltassem para o BRB. O BRB sai dessa crise muito maior do que ele era: um banco sólido, um banco que tem valor de mercado, um banco que foi muito disputado. Houve muita disputa financeira sobre o BRB, até hoje tem, porque havia interesses privados no banco. E a gente ainda tem uma chance grande de recuperar esses recursos que sumiram anteriormente, seja através de delação, seja através da investigação da própria Polícia Federal, que está no rastro dos recursos e já está colocando alguns desses bens, inclusive, disponíveis para, no final, fazer as indenizações necessárias.
O que esperar do futuro do BRB?
O que a gente espera é que isso seja ressarcido aos cofres públicos. Os agentes públicos que fizeram alguma coisa de errado pagarão. Tenho certeza de que não tem como você sair de uma situação dessa sem ter essa responsabilização. E isso é preservar o banco, que eu acho que foi a coisa mais importante. Lá nós temos mais de 6 mil famílias que dependem desse salário, temos 10 milhões de contas e, o mais importante, tem o povo de Brasília. O povo tem um sentimento de pertencimento em relação ao BRB. No dia em que eu fechei o acordo, as ações subiram no dia seguinte. Os correntistas começaram a ligar para os gerentes, começaram a retornar para o banco, e isso demonstrou a nossa credibilidade. Esse banco não é de nenhum governador que passa por aqui; ele é da população de Brasília, e é importante devolvê-lo à população de Brasília para que consiga continuar oferecendo juros subsidiados aqui no comércio local, para o servidor público e para muitas outras coisas que nenhum outro banco faria. Perder o BRB é perder o incentivo e o fomento local. Ele é um banco regional que já cumpriu muitas missões. Todos os nossos programas sociais estão no BRB, como a bilhetagem. As pessoas que jogavam contra o BRB não lembram que se tivesse algum problema com ele, o GDF é sócio solidário. As ações vinculadas ao GDF seriam uma tragédia.
Ainda assim, será possível fazer investimentos na cidade?
Quando nós firmamos o acordo, havia um artigo que falava sobre cumprimos o artigo 167 da Constituição. Isso não precisava estar lá, porque se é lei tem que cumprir. Quando o [Secretário de Fazenda] Valdivino Oliveira chegou a primeira coisa que ele pregou na sala foi esse artigo, que é basicamente o seguinte: “Você não pode gastar mais do que arrecada”. Cumprindo isso podemos voltar a contratar. O que a lei fala é que, quando você está em descumprimento do artigo fica vedado contratar e fazer concurso. Eu vou me enquadrar no artigo ainda este ano. Fizemos um planejamento para este ano e os adversários políticos, com fake news, desinformação, com ataques a todas as nossas vitórias falam: “vai ficar sem contratar servidor público”. Eu vou contratar servidor público ainda este ano. É uma coisa maluca, o tipo de ataque que a gente está sofrendo. Vou conseguir fazer acordo com o BRB. Estou conseguindo pagar as faturas de todos os prestadores de serviço do DF, colocar as finanças em dia, operar as pessoas que ninguém operou. Depois disso, ninguém deveria duvidar da minha capacidade, porque peguei problemas gravíssimos e resolvi todos eles.

Para a senhora, o que justifica esses ataques?
Eu acho que é um pouco de misoginia, de achar que ou a gente é comandada, tutelada ou é incompetente por ser mulher. Acho que isso demonstra o contrário: que as mulheres estão preparadas para ocuparem espaços de poder e que são muito mais sensíveis para causas que são sensíveis. Isso agrega muito valor e estou bem feliz com o que a gente conseguiu fazer nesses 60 dias. Claro que ao custo da saúde, da família, pessoal e tem horas que você vê coisas na internet e pensa: “meu Deus”. Essa semana eu coloquei água para mais de 20 mil residências e a gente, simbolicamente, abri uma torneira e, eu assinando as ordens de serviço, disseram: “A Celina está inaugurando a torneira”. Essa é a importância dos veículos tradicionais, como o Jornal de Brasília, que traz as informações reais, que as pessoas fazem a checagem daquilo que publicam, que dá o contraditório. Será muito importante o papel dos veículos tradicionais nessas eleições e principalmente no combate às fake news.
Como a senhora vê o motim do MDB, o cenário político e o apoio já declarado do PL?
Temos cinco deputados distritais do MDB na nossa base. Falei com cada um deles e todos estão conosco, votaram o projeto do BRB, na semana retrasada, tem uma ligação histórica comigo, como o presidente [do MDB-DF], Wellington Luiz. Tudo foi muito bem controlado. Ele continua como presidente. Eu não tenho atacado ninguém, tenho respondido a altura qualquer tipo de provocação que a gente recebe, porque a gente não merece ouvir coisas que não são verdadeiras. Temos que ter postura, pois ninguém quer uma governadora frágil ou fraca para comandar o Estado. As pessoas querem uma governadora que tenha coragem de enfrentar aquilo que é necessário. Nesses 60 dias fica mais claro um pouco do meu perfil, da minha identidade e de quem eu sou: de opinião própria, que tem sangue quente.