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Bastidores
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A direita e a surdez que não ouviu Valdemar

O mais escandaloso caso de autossabotagem da história da direita na política brasileira

Vladimir Porfírio

29/07/2026 5h00

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Flávio Bolsonaro teve a candidatura à Presidência oficializada no evento em São Paulo.

A convenção que confirmou o nome de Flávio Bolsonaro como candidato do PL à eleição presidencial também confirma, em letras garrafais, o mais escandaloso caso de autossabotagem da história da direita na política brasileira.

A exposição da aliança com um argentino, que ofende o poder constituído do Brasil em solo nacional, somou-se ao mau gosto de um vídeo desnecessário de Jair Bolsonaro criado por IA. Os arrotos do presidente argentino, aliás, caíram como uma luva para a campanha de reeleição de Lula.

Mas nada supera a obra de autodemolição da direita a partir da lavra do blogueiro Paulo Figueiredo. Referência desse processo autofágico do bolsonarismo, foi ele quem resolveu “causar” dizendo que mulheres “votam mal”.

No que restou de bom senso, que ainda não se afogou nas águas turvas do bolsonarismo, Valdemar Costa Neto respondeu à altura. Para o dirigente liberal, Figueiredo “não tem voto nem credibilidade”. Segundo ele, tudo que Figueiredo faz é “dor de cotovelo”.

O episódio, entretanto, apenas replicou um conflito que já havia explodido no ano anterior, entre Valdemar e o amigão de Figueiredo, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro.

Quando advertiu que uma candidatura presidencial independente de Eduardo poderia “ajudar a matar o pai” de Eduardo politicamente, Valdemar falava com as credenciais de quem conhece eleições além das redes sociais.

Sua resposta posterior foi ainda mais contundente quando lembrou a Eduardo que “Os votos são do seu pai, não seus”.

Valdemar sempre enxergou a política como soma de forças. Foi assim em 2002, aliás, ao compreender, antes de todos, que José Alencar daria a Lula a ponte necessária para neutralizar a resistência do centro político.

O mesmo faro de perdigueiro reapareceu quando Costa Neto apontou Tarcísio de Freitas como o nome mais competitivo da direita para enfrentar Lula. Para ele, Tarcísio e Michelle seria a chapa ideal. Enquanto parte do clã Bolsonaro tratava essa hipótese como heresia, Valdemar fazia apenas uma leitura objetiva de algo que ele conhece bem.

Com o clã Bolsonaro ditando regras, a direita brasileira acabou travando uma guerra contra o próprio espelho. Uma batalha que confunde lealdade com teimosia.

A reação de Eduardo foi reveladora. O alcance limitado de sua visão sobre política o levou a definir a sentença qualificada de Valdemar como “canalhice”.

Em 2002, Costa Neto enxergou que Lula precisava de um empresário respeitado para ganhar a confiança dos pobres que tinham medo de comunista. Duda Mendonça compreendeu o marketing daquela escolha.

O clã ainda não entendeu que os talentos de Valdemar Costa Neto superam em muito sua reconhecida capacidade para gerir a caneta que manda nos recursos dos fundos partidário e eleitoral. Apoiado na capacidade de discernimento do Boy — apelido de Costa Neto desde criança —, o bolsonarismo teria uma chance.

No frigir dos ovos do day after dessa convenção que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro, prevalece a impressão de que o maior adversário da direita brasileira nunca foi Lula.

As ofensas que marcaram o embate entre Eduardo Bolsonaro e o próprio pai talvez simbolizem o grau máximo de uma deterioração que progride de dentro para fora. As mensagens divulgadas durante investigações, nas quais aparecem insultos e palavrões dirigidos ao próprio pai, ex-presidente, resumem a natureza, o gênero e o grau do problema.

Costa Neto provavelmente jamais esquecerá esse episódio. Não apenas pela repercussão política que mancha a imagem do seu PL, mas porque sua própria trajetória sempre foi marcada pelo respeito reverencial ao pai, o saudoso Waldemar Costa Filho, figura lendária da política de Mogi das Cruzes.

A natureza desagregadora das inúmeras declarações infelizes do clã, inclusive do próprio Flávio presidenciável, levou o PL para uma convenção nacional sem vice, sem estratégia e sem horizonte para coligações robustas. Como diria o próprio Costa Neto, é o caso de esperar outubro e “tocar o barco, velhão”.

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