Jornal de Brasília

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Hélio Doyle

Saudades do Senado, o paraíso na Terra

Por Arquivo Geral 17/08/2016 7h00

O governador Rodrigo Rollemberg pode não reconhecer isso publicamente, mas deve estar lamentando muito ter deixado quatro anos de tranquilidade no Senado Federal para ser governador de Brasília. Deixou a vida mansa e os privilégios que têm os senadores para enfrentar os incontáveis e aparentemente insolúveis problemas do governo de Brasília.
Darcy Ribeiro disse que o Senado é melhor do que o paraíso, porque para chegar lá não é preciso morrer. Um senador trabalha pouco, ganha muito, participa de sessões plenárias duas vezes por semana, não tem a responsabilidade de governar e administrar — só de discursar e votar, se quiser. Um senador dispõe de servidores de sobra para fazer os trabalhos intelectuais e manuais, servir o cafezinho e pajeá-lo pelos corredores e sessões. E ainda desfruta de inúmeras mordomias, faz frequentes viagens internacionais na primeira classe e só precisa pensar em eleição depois de sete anos de mandato.
Rollemberg chegou a esse paraíso na Terra e o abandonou na metade do mandato, quando o Distrito Federal já vivia a pior situação financeira e econômica de sua breve História.
Agora enfrenta um dos piores momentos de sua gestão.

Assim é fácil fazer greve
Está certo o governador Rodrigo Rollemberg ao rejeitar a reivindicação dos empregados do metrô, que querem receber os salários referentes aos 64 dias em que estão parados. Ao iniciar a greve, os metroviários sabiam que o governo não poderia acolher suas reivindicações e que a única saída para o impasse estaria no julgamento pela justiça trabalhista. Fizeram greve longa e desnecessária e causaram enormes prejuízos à população e à cidade. Correram o risco e agora têm de arcar com o ônus. Os sindicatos de servidores e empregados públicos nunca devem ter ouvido falar em fundo de greve.

Será que é isto?
Os metroviários, porém, talvez possam contar com a boa vontade do Tribunal Regional do Trabalho, que mandou a Caesb dar aumento de 9,8% aos empregados da empresa e ainda abonar metade dos 89 dias parados. O aumento prejudica a recuperação financeira da Caesb e faz com que a folha de pagamento supere a metade da receita da companhia. De 2004 a 2016, os salários médios na Caesb aumentaram em 330,17%. A inflação no período foi de 109,2%. Os juízes do TRT, quem sabe, podem estar a favor da privatização da Caesb. Inviabilizá-la é um primeiro passo.

Aos amigos do poder, boca livre
O governo de Brasília teve um prejuízo financeiro de R$32 milhões, gastos para que a cidade sediasse 10 jogos de futebol olímpico. O retorno desse “investimento”, termo usado para disfarçar o mau uso do dinheiro público, foi quase zero – praticamente só ganharam os hoteis que hospedaram as delegações. As 300 mil diárias adicionais eram só um blefe para justificar o gasto inútil.
Mas o governo de Brasília teve também um grave prejuízo ético e moral com os jogos: como mostrou o portal Metrópoles, 1.876 privilegiados receberam ingressos de presente, tiveram condução gratuita ao estádio, assistiram às partidas em camarotes e ainda comeram e beberam de graça. Os cidadãos comuns tiveram de pagar caro para assistir aos jogos, andar muito para chegar e sair do estádio, enfrentar filas enormes para entrar e comprar comida e bebida e usar banheiros sujos e inundados.
E os que não foram ao estádio tiveram de suportar enormes engarrafamentos por toda a cidade.

Longe de Francisco e de Mujica
É inadmissível que o governo de Brasília, o BRB e a Terracap ou qualquer empresa pública gastem um só real que seja com mordomias, privilégios ou despesas inúteis. Os tempos de esbanjamento, de favorecimento aos amigos dos governantes, de luxos e rapapés para os que estão no poder têm de ser superados – não cabem na sociedade moderna e muito menos na situação de grave crise financeira que o país e o Distrito Federal vivem. Quem promoveu, organizou e participou da festança para autoridades e cupinchas ocorrida no estádio Mané Garrincha deveria estar com muita vergonha e pedir desculpas públicas à população. Por falta de bom senso, discernimento, ética, cuidado com o dinheiro público e respeito à população.

Aliás…
O governo de Brasília tem obrigação também de dizer como foram distribuídos os demais 4.150 ingressos que recebeu da Rio-2016. A explicação de que 3.150 foram distribuídos para 29 órgãos e “instituições parceiras” que trabalharam diretamente na segurança da competição é vaga e não diz nada. E entre que servidores foram sorteados os demais mil ingressos? Como foi o sorteio?

Economia não é com a gente
Segundo levantamento do Correio Braziliense, a Câmara Legislativa já gastou R$241 mil nesta legislatura com viagens internacionais dos deputados. Não há risco em dizer que 99% dessas viagens não trazem nenhum benefício aos brasilienses e que não fariam falta nenhuma.
A Câmara Legislativa gasta dinheiro público e aumenta despesas impunemente, enquanto cobra cortes no governo como se não tivesse nenhuma responsabilidade pela saúde financeira do Distrito Federal.

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