Jornal de Brasília

Informação e Opinião

Hélio Doyle

Pagar servidor não basta

Por Arquivo Geral 07/06/2016 1h21

É justo que servidores públicos ganhem bem e tenham as melhores condições de trabalho. Mas ambos são conceitos vagos: o que é ganhar bem? Quais são as melhores condições de trabalho? O que é ganhar bem para um pode não ser para outro. Alguns comparam o que ganham com outros, que muitas vezes estão em situações muito distintas.

Independentemente do que cada um entenda por ganhar bem, há fatores dos quais não se pode fugir. Um deles é o que é possível pagar. No caso dos servidores públicos, o que o Estado tem condições de pagar. Não adianta ganhar muito bem e não receber o salário.
Para a população, de nada adianta ter servidores bem remunerados enquanto o Estado não tem dinheiro para arcar com o custeio e com capacidade de investir nos serviços públicos.
Desse jeito, o Estado existe para os servidores, não para o povo.

Se for comparar, vamos ganhar

O Distrito Federal é a unidade da Federação que, na média, paga melhor aos servidores públicos, especialmente aos das áreas de educação, segurança, auditoria e advocacia. Os servidores da saúde, especialmente os médicos, também têm remuneração, na média, superior à dos 26 estados.
Isso não quer dizer, necessariamente, que todos os servidores estejam todos muito bem remunerados. Muitos estão, sim, mas outros não.

Quem mais ganha, mais quer

A questão é que são justamente os mais bem remunerados, em termos relativos, que têm maior organização e poder de pressão sobre os governantes e conseguem mais benefícios e aumentos salariais. Isso faz com que as injustiças permaneçam e se agravem.
Há servidores no Distrito Federal que ganham o teto ou estão até acima dele. E reivindicam aumentos como se estivessem sendo explorados.
E alguns não cumprem sequer 20 horas de trabalho na semana.

Primeiro o meu

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É natural que servidores considerem que o pagamento em dinheiro das licenças-prêmios seja um direito inalienável. Ninguém quer perder o que ganhou, mesmo que isso signifique prejuízos para outros.
Assim, é natural que esses servidores protestem com veemência quando se defende, pelo menos, o fim da chamada “pecúnia”, que é o pagamento em dinheiro das licenças não gozadas.
Esses servidores olham para o próprio umbigo e desconhecem a realidade que os cerca: crise grave, alto índice de desemprego, economia em queda, negócios fechando, juros altos.
Além de salários acima do mercado, estabilidade, aposentadoria integral e outros benefícios ainda querem um dinheiro extra ao deixarem o serviço público.

Dinheiro público para poucos

Em 2015, o governo de Brasília assumiu o pagamento de R$ 192 milhões em licenças-prêmios. Pagou o que deu – R$ 100 milhões – e deixou R$ 92 milhões para 2016. Esse dinheiro é pago a servidores que se aposentam com salários integrais, muitos deles no teto ou acima dele.
É o dinheiro público sendo privatizado em benefício de poucos.

Dois pesos e a mesma medida

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Os trabalhadores das concessionárias do transporte urbano não são servidores públicos, pois trabalham para empresas privadas.
Os trabalhadores do metrô são servidores públicos, pois a companhia em que trabalham é pública.
Ambos, porém, são peças fundamentais na prestação de um serviço público da mais alta importância.
Ambos acenam com a possibilidade de greves, caso suas reivindicações salariais não sejam aceitas.

Qual é o alvo?

Contra quem os motoristas e cobradores de ônibus e os funcionários do metrô estarão fazendo greve?
Contra as empresas que os contratam, não é. O metrô dá prejuízo e as empresas de ônibus recebem subsídios do Estado para cobrir a diferença entre o que o passageiro paga e o sistema diz que é seu custo. A greve é contra o Estado, portanto. Se os aumentos são concedidos, o Estado terá de aumentar os subsídios ao transporte coletivo. Esse dinheiro não é fabricado, vai sair de algum lugar – como não será de pessoal, será de custeio ou de investimentos em serviços públicos.
A greve, pois, é contra a população.

Quem sofre?

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Só os que precisam de transporte coletivo é que perdem com a paralisação de ônibus e do metrô. São eles que têm de se virar para se locomover, para a escola, para o trabalho ou por qualquer motivo.








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