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Hélio Doyle

Mais do mesmo não resolve o problema de Rollemberg

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O governador Rodrigo Rollemberg tem um ano e meio para sacudir muita poeira e dar uma grande volta por cima se quiser disputar a reeleição com alguma chance ou, pelo menos, deixar o governo com um nível de aprovação mediano. Hoje o governo é mal avaliado em todas as classes e a imagem negativa do governador está se consolidando.

Até o fim do ano serão feitas mudanças no governo, não se sabe quais. Mas pouco adiantarão se forem mudanças superficiais e não houver uma virada radical. Há pessoas que precisam ser substituídas, mas é preciso sobretudo mudar métodos, estilo e opções.

Na campanha eleitoral, Rollemberg dizia que não seria eleito para fazer mais do mesmo, mas para mudar. É a última chance que tem para cumprir essa promessa.

Sem diálogo e sem apoio, nada feito

Na semana passada o jornal O Globo mostrou que, em meio à crise que assola todos os estados, três deles estão em situação bem melhor porque fizeram, no início da gestão, os ajustes necessários: Santa Catarina, Paraná e Espírito Santo. Rollemberg não fez, basicamente por dois motivos:

– Não estabeleceu um diálogo permanente e consistente com a sociedade civil, incluindo sindicatos de trabalhadores e empresariais, para discutir abertamente a situação financeira e encontrar soluções conjuntas e negociadas. Em vez da persuasão e de um processo negociado recorreu a decisões de gabinete mal discutidas.

– Não promoveu com os deputados distritais uma negociação política séria para aprovar as medidas necessárias. Achou que iria garantir o apoio da Câmara escolhendo a presidente, entregando algumas secretarias, nomeando apadrinhados e loteando as administrações regionais. Quando os distritais reagiram às medidas, simplesmente recuou delas.

Assim perdeu a oportunidade de minimizar os efeitos da crise e agora está desesperadamente em busca de dinheiro para pagar as próximas folhas salariais.

Velha política e mal executada

Rollemberg optou pelos métodos da velha política para lidar com a Câmara Legislativa, mas não soube como administrar o relacionamento fisiológico com os deputados distritais. Nem seu líder, Raimundo Ribeiro, que recebeu a Secretaria de Justiça e Cidadania com mais de 600 cargos, fazia a defesa do governo.

E o governador ainda nomeou o presidente do PSB, Marcos Dantas, para a Secretaria de Relações Institucionais, que deveria cuidar do diálogo com a sociedade e com os distritais. Dantas não fez nem uma coisa nem outra e não soube defender as posições do governo, optando sempre pelo recuo e pela retirada de projetos quando os distritais estrilavam.

Fidel recebeu Cristovam e se surpreendeu

O hoje senador Cristovam Buarque foi o único governador de Brasília recebido por Fidel Castro em Havana. Em uma madrugada, depois de agenda intensa, Cristovam apresentou os integrantes de sua comitiva a Fidel e depois só ele jantou com o comandante e alguns poucos cubanos. Foi grande a surpresa de todos quando Cristovam afirmou que o maior líder da esquerda latino-americana era o então presidente Fernando Henrique Cardoso, e não Lula.
Cristovam, na época, era do PT. E Fernando Henrique havia derrotado Lula um ano antes, nas eleições presidenciais de 1994.

A chance de ter a foto perdida

Algumas semanas antes eu, então secretário de Governo, havia ido a Havana para preparar a visita de Cristovam. Viajei como convidado no voo inaugural da rota Brasília-Havana e fui alojado em uma casa de protocolo do governo da capital cubana.

Uma de minhas reuniões foi com Jorge Bolaños, vice-ministro de Relações Exteriores e que havia sido o primeiro embaixador de Cuba no Brasil depois de reatadas as relações em 1986. Bolaños me disse que como havia a possibilidade de um encontro de Cristovam com Fidel, eu teria a oportunidade de estar com o “comandante”.

Acrescentou, brincando, que ele providenciaria a foto. É que dois anos antes Bolaños havia me apresentado a Fidel, em Salvador, depois de uma entrevista coletiva, mas a foto do aperto de mão havia se perdido. Seria a oportunidade de se redimir, disse, brincando.

Governador com status de presidente

Como eu disse que não sabia se iria acompanhar o governador, pois a decisão cabia a ele, Bolaños escreveu à mão um bilhete para Cristovam: falava da possibilidade do encontro com Fidel e sugeria que eu estivesse na comitiva.

De volta a Brasília relatei minha viagem a Cristovam e lhe informei que, embora governador, ficaria hospedado em uma casa de protocolo do governo nacional e poderia ser recebido por Fidel. Entreguei a carta de Bolaños e ele a leu sem nada comentar.

Alguns dias depois soube que o governador viajaria com a mulher, as duas filhas e três secretários. Eu não iria.

Ausência estratégica

Já fora do governo, meses depois voltei a Havana para um trabalho acadêmico. Foi quando um dos participantes do jantar me disse que só quando Cristovam fez os rasgados elogios a Fernando Henrique é que eles entenderam por que eu não estava na comitiva.

Afinal, na época eu também era do PT e na minha presença Cristovam poderia se sentir constrangido em dizer que o então presidente da República, e não Lula, era o maior líder da esquerda na América Latina.


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