Nas últimas entrevistas, o técnico Luiz Felipe Scolari surpreendeu ao usar termos fortes para apresentar a realidade palmeirense. Exposto junto à mídia, o atual elenco foi criticado pelo próprio comandante por erros “amadores” e de “time de várzea”, além de ouvir as cobranças pela falta de personalidade e liderança em campo. Especialista em psicologia esportiva, João Ricardo Cozac observa o perigo da tática usada pelo treinador alviverde para acordar o time.
“O Felipão está precisando rever o seu estilo de liderança. Às vezes, técnicos mais experientes, como também o Wanderley Luxemburgo e o Emerson Leão, acabam pecando pela falta de flexibilidade, necessitam de uma atualização de comando”, alerta o atual presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia do Esporte, que vai além.
“Há um reflexo imediato em atletas quando o treinador bate de forma pública. Depende do perfil. Algumas equipes reagem positivamente, outras podem desenvolver o declínio da autoestima, segurança, tanto individual como coletiva. Não acho recomendável o técnico dar broncas, criticar publicamente os seus atletas”, emenda Cozac, que já trabalhou em clubes como Goiás, Cruzeiro e o próprio Palmeiras, em 2005.
Com 21 rodadas disputadas no Campeonato Brasileiro, a queda no lado emocional palmeirense poderia ser fatal. No início do segundo turno, a equipe paulista ocupa a perigosa 13ª colocação, com 26 pontos. Jogadores e comissão técnica já chegaram a comentar o fantasma de uma briga contra o rebaixamento. “Os atletas que leem todas essas críticas podem sofrer com um declínio de confiança, além do aumento dos níveis de pressão emocional”, reforça Cozac.
Nas entrevistas, os jogadores evitam polemizar o estilo adotado por Felipão no Palmeiras. Em compensação, não escondem o desconforto ao terem a qualidade discutida através da imprensa. “Não devemos ficar comentando as palavras do nosso treinador, temos apenas que nos doar ao máximo”, responde o volante Márcio Araújo, que também falou sobre a chance de reformulação no Palmeiras em 2011. “A nossa realidade é viver o presente. Ninguém tem poder para descobrir o futuro”, completa.
Neste momento de extrema pressão no Palestra Itália, a recomendação para Scolari é manter a cabeça no lugar. Segundo Cozac, as demonstrações de irritação pela má fase podem interferir diretamente no trabalho do 13º colocado do Campeonato Brasileiro.
“A liderança como exemplo é a mais aconselhada. Não é recomendável que o treinador perca calma e a compostura como ocorreu, por exemplo, com o Dunga na seleção brasileira. O estado de desequilíbrio emocional no comandante pode trazer problemas até no desempenho da equipe”, explica.
No projeto estipulado no Palestra Itália, Luiz Felipe Scolari reeditou a parceria com a psicóloga Regina Brandão. Porém, Cozac diz que sua colega deveria ter uma participação mais ativa na comissão técnica do Palmeiras para realizar um trabalho próximo ao grupo de atletas.
“O Felipão utiliza a Regina para mapear perfis dos atletas. O clube deveria ter uma rotina de acompanhamento, trabalhar essa questão da motivação. Só o mapeamento de perfil não adianta”, avisa.
Exemplo perigoso? – Na metralhadora de críticas disparada por Felipão nos últimos dias, apenas um integrante do elenco saiu ileso: o atacante Kleber. Elogiado por sua raça no gramado, o Gladiador ganhou até a tarja de capitão contra o Vasco. Pouco antes, também fez críticas ao desempenho coletivo do Palmeiras.
João Ricardo Cozac considera perigoso o excesso de “poder” a Kleber no grupo do Palmeiras, levando-se em conta até a personalidade explosiva do atleta, conhecido por algumas polêmicas dentro dos gramados com adversários. “A cultura do futebol já apresenta naturalmente o mecanismo de favorecimento individual que cria insatisfações. Quando você atribui a um atleta a responsabilidade ou a necessidade de chamar a atenção dos demais, pode gerar um mal-estar dentro do grupo. Todos os atletas desejam receber a mesma importância, ter o esforço reconhecido”, preveniu o psicólogo.