A rivalidade regional entre clubes da Série A pode ter um novo capítulo nas últimas duas rodadas do Campeonato Brasileiro. Isso porque, com o regulamento dos pontos corridos, é possível que uma equipe faça um esforço extra para dificultar o caminho de um adversário.
O arquirrival tem como motivação “tirar” um time do trajeto para a Libertadores do ano seguinte ou fazer com que a permanência na elite do futebol brasileiro se torne ainda mais dramática.
O caso mais emblemático de 2014, inclusive, tem a ver com o descenso. O Flamengo, já livre da “zona da confusão”, enfrenta o Vitória (BA), em um duelo de rubro-negros, que, curiosamente, pode rebaixar precocemente o alvinegro Botafogo. O jogo será disputado hoje, às 21h, na Arena da Amazônia.
Uma vitória do Leão baiano faz com que a equipe alcance 41 pontos. A marca é suficiente para decretar o rebaixamento do Glorioso carioca, que pode entrar na Vila Belmiro, um dia depois, sabendo que disputará a Série B em 2015. Para o Vitória, um triunfo diante do Flamengo pode significar um respiro na luta contra a queda.
Queda em 2002
O rebaixamento, caso se concretize, será o segundo da história da Estrela Solitária, que amargou a primeira queda em 2002. Mas não é só o Flamengo que pode atrapalhar os planos de um rival. Nas duas últimas rodadas, há muitos times que têm a oportunidade de colocar em prática o “espírito de porco” (veja ao lado).
Botafogo “dependente” do Flamengo
Quis o destino que o Botafogo dependesse diretamente do Flamengo para seguir sonhando com mais um ano entre os 20 principais clubes do Brasil. O Rubro-Negro carioca terá a chance de mandar o alvinegro à Segunda Divisão sem precisar fazer muita força: basta que perca hoje para o Vitória (BA), que também luta desesperadamente contra o rebaixamento, em duelo na Arena da Amazônia, em Manaus (AM). Caso o Leão vença, o Botafogo enfrentará o Santos já rebaixado, independente do resultado da partida contra o alvinegro praiano, que já não tem mais chances de se classificar para a Copa Libertadores.
“Temos que vencer, o Santos é um time para vencer, sempre temos que entrar para isso, independente do adversário.”, Geuvânio, meia-atacante
Disputa acirrada no Sul
Enquanto Grêmio e Internacional brigam cabeça a cabeça por um lugar entre os brasileiros que disputarão a Copa Libertadores em 2015, os times do Paraná vivem situação diferente. O Coritiba é o 15º colocado, com 41 pontos, a apenas três da zona da degola. O Coxa terá a chance de enfrentar o Atlético-MG hoje, tentando aproveitar a ressaca do título da Copa do Brasil. O Atlético-PR, porém, tem nas mãos a chance de complicar a vida dos arquirrivais. O Furacão tem pela frente o Goiás na 37ª rodada e, caso triunfe, pode fazer com que a permanência do time do Couto Pereira na Série A seja sacramentada apenas na derradeira rodada.
Apenas dois anos de confrontos diretos
Para evitar que times “facilitassem” a vida de adversários na última rodada e, consequentemente, complicassem a trajetória de clubes rivais regionais, a CBF adotou como medida a disputa de clássicos na última rodada do Brasileirão.
Mais uma vez, a motivação de complicar a vida dos clubes do mesmo estado se manteve forte, mas havia ainda a possibilidade de tirar sarro duplamente com os torcedores das outras equipes: pela derrota e pelo não-cumprimento de uma meta no campeonato.
O período de encontros entre times da mesma cidade ou estado, porém, só durou dois anos, sendo vigente nas edições de 2011 e 2012 da Série A.
Goleada cruzeirense
Em 2011, quando o agora comentarista Roger Flores ainda era jogador do Cruzeiro, o clube, que contava com um elenco bem mais modesto do que o comandado por Marcelo Oliveira, vivia o iminente risco de ser rebaixado à Série B pela primeira vez na história.
Contra o arquirrival Atlético-MG e, mais do que nunca, precisando de uma vitória, o Cruzeiro foi cruel.
Com uma inesquecível, e incontestável, goleada por 6 x 1, a equipe não só afastou o fantasma do rebaixamento como pavimentou o caminho dos triunfos atuais.
Classificação com gols
No mesmo ano em que o Cruzeiro se livrou do rebaixamento trucidando o arquirrival Atlético-MG, outros clubes adversários tiveram um encontro que terminou com goleada.
Precisando bater o Santos para sacramentar uma das vagas na Copa Sul-Americana de 2012, o São Paulo não tomou conhecimento do Peixe. Quem gostou foram os torcedores do tricolor paulista que foram ao estádio Romildão, em Mogi Mirim (SP), e viram os hexacampeões brasileiros vencerem por tranquilos 4 x 1.
Show fabuloso
A partida marcou um show de um velho conhecido da torcida do São Paulo: o atacante Luís Fabiano. O Fabuloso marcou nada menos que dois dos quatro gols de sua equipe na vitória contra o time alvinegro praiano.
Um dos tentos foi marcado por Lucas, que fazia um dos últimos jogos pelo clube do Morumbi antes de se mandar para o Paris Saint-Germain. O outro gol do jogo foi marcado por Cícero.
Palmeiras em risco
Justamente no ano seguinte à volta à elite do futebol brasileiro, o Palmeiras já se vê em mais uma situação de risco na Série A. O time tem 39 pontos e está a apenas um da Zona de Rebaixamento. Como se não bastasse a proximidade da região mais perigosa do Brasileirão, o alviverde ainda pode ver o Santos complicar sua situação. Isso porque o Peixe enfrenta o Botafogo na 37ª rodada. Na última gira da competição, a equipe da Vila Belmiro tem encontro marcado com o Vitória, que, atualmente, aparece apenas um ponto atrás do Palmeiras. Dois tropeços do clube da baixada santista e o Palmeiras pode, mais uma vez, disputar a Série B em 2015. O alviverde chegou a ter um período em que pareceu que não teria problemas para se livrar do fantasma de mais um rebaixamento quase consecutivo, mas perdeu fôlego nas últimas rodadas. Quatro derrotas seguidas, aliadas aos outros resultados das rodadas fizeram com que os torcedores do Palmeiras começassem a se preocupar mais uma vez com a terceira passagem do clube paulista pela Série B do Campeonato Brasileiro.
Curiosidades
Grandes na Série B
1. Quem já caiu: desde que foi adotado, o sistema de pontos corridos já “vitimou” alguns clubes do futebol brasileiro. Desde a primeira edição com o atual formato, em 2003, poucos foram as edições em que pelo menos um grande não sentiu o gosto amargo de, por um ano, não estar na elite do esporte bretão no país. Em 2004, por exemplo, o Grêmio não só caiu, como amargou a lanterna da competição. Depois do tricolor gaúcho já conheceram a Série B Atlético-MG, Corinthians, Vasco e Palmeiras.
2. Quem não ganhou: além de descer, há quem diga que subir sem ser campeão da Segundona é uma vergonha para um time grande. Alguns clubes já passaram pelo dissabor de conquistarem a vaga, mas não levantarem o caneco da competição. Para ser mais preciso, foram apenas dois: Botafogo, em 2003, quando a equipe teve o Palmeiras como “companheiro” na Série B e o Vasco, neste ano. O Cruzmaltino oscilou durante o ano e perdeu chances de assumir a liderança do campeonato.
3. Nordestinos que caíram: desde 2003, em apenas duas edições da Série A o grupo dos quatro últimos clubes não contou com times do nordeste do Brasil (2005 e 2008). Entre os que mais caíram, um é baiano (Vitória) e dois são pernambucanos (Náutico e Sport), todos com três quedas. Em 2009, Náutico e Sport foram rebaixados juntos.
Memória
Calvário alvinegro
O Botafogo fez com que seus torcedores sofressem durante todo o ano, na disputa do Campeonato Brasileiro.
Com um sem-número de problemas extra-campo, que incluíram a demissão dos principais jogadores da equipe já com o campeonato em curso, a Estrela Solitária caminha a passos largos para a Série B.
Outro problema foram as convocações do goleiro Jefferson para a seleção brasileira. A ausência do arqueiro expôs ainda mais a fragilidade da defesa do clube de General Severiano, que passou por maus-bocados sem Jefferson na meta.
“Mala branca” ataca de novo
Na reta final de Brasileirão, não é apenas dentro de campo que os rivais costumam se castigar. Fora dele, a já famosa “mala branca” aparece com frequência – clubes interessados num resultado específico oferecem dinheiro a outro time que, teoricamente, não teria maiores aspirações.
Titular do Palmeiras, o goleiro Fernando Prass foi denunciado ontem pela Procuradoria do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) por ter admitido que já recebeu “mala branca”.
A pena é de multa entre R$ 100 e R$ 100 mil e suspensão pelo prazo de 360 a 720 dias. O julgamento ainda não tem data.
Fernando Prass foi indiciado no artigo 238, que trata do recebimento ou solicitação de vantagem indevida em qualquer entidade desportiva para praticar, omitir ou retardar ato de ofício.
Durante a entrevista coletiva da última quarta-feira, ocasião em que admitiu ter recebido “mala branca”, Fernando Prass afirmou que o caso teria acontecido em 2013, quando já era jogador do Palmeiras.
Mesmo depois de tanto tempo da suposta infração, a denúncia é valida, pois a conduta tem pretensão punitiva com prescrição em 20 anos.
A procuradoria do STJD explicou os motivos da denúncia.
“A prática da denominada ‘MALA BRANCA’ se mostra extremamente perniciosa ao esporte, fere os mais comezinhos princípios éticos e morais do homem médio e é diametralmente contrária ao fair play, é o que deve prevalecer entre aqueles que aplicam a legislação desportiva”, disse o texto.