Uma das coisas que costuma impressionar quem não mora no Distrito Federal é o fato dos motoristas pararem diante as faixas de pedestres quando alguém quer passar. Para o brasiliense que vai até Paracatu, cerca de 230 quilômetros de distância, saber que o mesmo hábito também é aplicado por lá é surpreendente.
Mas não é somente essa ligação que a cidadezinha mineira tem com a capital federal. No ano que vem, o Paracatu Futebol Clube será o representante da cidade no Campeonato Candango de 2014.
O clube foi fundado este ano e herdou a vaga do Unaí Esporte Clube, já que o CNPJ da equipe é do presidente, o capitão Elias Andrade. Sem apoio na cidade, ele buscou parceria com o governo do município de Paracatu e com empresas locais, que concentram suas forças econômicas nas áreas agropecuárias e na extração de minérios, em especial o ouro. “Para disputar o mineiro temos muitas dificuldades. Precisamos disputar a terceira divisão, viajar muito. No candango, já jogamos a primeira. O Capitão Elias trouxe o projeto do clube de futebol e resolvemos abraçar a causa. A cidade sempre quis ter um time de futebol”, comentou o secretário de esportes da cidade, Walter de Souza, o Valtinho.
Secos por futebol
A cidade está carente de um time de futebol. Há oito anos, quando o União Esporte Clube, disputou a segunda divisão do campeonato mineiro, foi eliminado na segunda fase da competição. Até 2013, apenas campeonatos amadores entretem os paracatuenses.
Com tudo planejado, mas sem a apresentação do elenco e comissão técnica, que acontecerá no próximo dia 23, o Paracatu mandará seus jogos no Estádio do União. Porém, o local com capacidade para cerca de 8 mil pessoas está completamente abandonado, com vestiários em condições precárias, arquibancadas destruídas e o campo completamente esburacado. “Precisamos arrumar tudo. Temos dois meses para isso”, avaliou Valtinho.
Distante, porém bastante agradável
A distância pode até assustar em um determinado momento, mas encarar a estrada até Paracatu é uma aventura agradável. A estrada entre Brasília e a cidade mineira está bem asfaltada, sem muitos problemas. A típica cidade de interior tem um clima bastante hospitaleiro, de um povo receptivo que não costuma negar qualquer tipo de informação.
Na hora de procurar um lugar para almoçar, o conselho de todos é o mesmo: restaurantes tipicamente mineiros, dispostos em toda a cidade, que evidentemente é o ponto forte da culinária local.
A cidade é um poço cultural, que ainda mantém suas raízes da época colonial, disposta de museus, e ruas e casas rústicas, além de contar com o turismo ecológico, já que o rio Paracatu banha a cidade e com ele, cachoeiras e outros rios se tornam atrativos para os visitantes.
Além do anseio por disputar uma competição profissional de futebol e também a proximidade com o DF, Paracatu conta com a afinidade entre os quase 90 mil moradores da cidade e a capital do país. “Desde a época da fundação de Brasília, tem muita gente daqui, lá. Criamos um vínculo muito forte, mais inclusive do que com Belo Horizonte. O próprio presidente Juscelino Kubitschek gostava de passar uns dias aqui”, disse Vatinho. (M.E.P)
Botando medo nos concorrentes
Quando um jogador sem expressão no futebol nacional fecha com um clube de menos nome, ele vê naquela oportunidade um jeito de alçar voos maiores. Jogar bem, despertar o interesse de clubes maiores, tudo isso move a maioria dos jogadores de futebol no Brasil, a grande parcela que não ganha milhões como Cristiano Ronaldo, Messi, dentre outros.
Mas, para alguns jogadores da cidade de Paracatu, ter a chance de jogar em um time profissional na sua cidade será algo único. Esse é o caso do atacante Dênis Romero. Nascido e morador da cidade de Paracatu, Romero ainda não tem vínculo com o clube, mas sonha em voltar a atuar no futebol profissional. “Aqui sempre teve campeonatos amadores e os jogadores daqui vão buscar clubes em outras cidades. Temos essa chance e estamos mais motivados com isso”.
Aos 25 anos, Romero já atuou como profissional pelo Unaí Esporte clube. Atualmente é professor de educação física e é técnico infantil de futebol de salão em um projeto social. Romero também atua em clubes amadores da região e afirma que a cidade respira futebol. “Aqui sempre lota. A prova disso foi a final do municipal que tinha muita gente na torcida. O estádio do União irá lotar e as equipes que vierem de fora vão sentir dificuldades com certeza”, afirmou
Se o fator casa será preponderante para uma boa campanha do Paracatu por conta de sua torcida, o mesmo fará a diferença para os jogadores nascidos na cidade. “Só de ficar perto da família é algo a mais para nós. Tem também o sentimento por estar disputando uma competição pela nossa cidade natal, ao lado dos companheiros e colegas”, disse.
Sem ter tido tanta sorte no Unaí Esporte, o atacante gostaria de realizar dois sonhos, além de jogar pelo clube de sua cidade, ser reconhecido pela sua atuação e conquistar um mercado fora de Paracatu. “Com certeza penso em me tornar um profissional, já que no Unaí, eu não tive muita oportunidade”, afirmou Romero, antes de encontrar seus jovens pupilos para um treino vespertino.
A melhor chance
Gilson é zagueiro e saiu de Paracatu para tentar a vida como jogador de futebol. Presente na campanha do União em 2005, clube da cidade que disputou a segunda divisão mineira, o zagueiro acredita que disputar o Candangão pode ser sua melhor oportunidade. “A emoção é grande em jogar aqui. Essa pode ser uma das melhores coisas que acontecerá na minha vida”. (M.E.P.)