Haland Guilarde
Especial para o Jornal de Brasília
A rotina é corrida para o meio-campo Ruan e para o atacante Wilkerson Batata, do Ceilandense. Antes dos treinos da equipe, na parte da tarde, a dupla precisa fazer uma verdadeira jornada do Lago Sul até o centro de treinamento do time, próximo a Brazlândia.
Os dois trabalham em um estacionamento na QI 15 lavando carros. Mal dá tempo de irem para casa almoçar para o segundo emprego.
“Desde os 13 anos eu trabalho para correr atrás do meu objetivo de ser jogador. Eu e meu amigo Ruan jogamos juntos inclusive no Grêmio Maringá, chegamos a pensar em parar por conta das dificuldades, mas seguimos em frente e o Vilson Moreira (auxiliar técnico do Ceilandense) nos deu uma chance”, explicou Batata.
A realidade é cruel não apenas para os amigos de equipe rubro-negra. Em vários outros times o fato é recorrente. Jogadores como o atendente de livraria, Aurélio, do Cruzeiro-DF, sai de casa ainda escuro para chegar no treino às 9h, em seguida atravessa a cidade, para ir ao Valparaíso-GO, onde mora e trabalha vendendo livros em uma livraria da cidade.
Difícil para todos
Aurélio é lateral-esquerdo, tem 24 anos e tornou-se pai recentemente, uma complicação a mais para manter as despesas de casa apenas com o esporte no DF.
“Realmente aqui é muito complicado viver apenas do futebol. Quem tem família não consegue”, afirmou. Para o jovem lateral, sua realidade é a mesma da grande maioria dos jogadores que atuam na capital federal.
“Ainda tem a questão do cansaço pela distância dos dois trabalhos, mas o jeito é encarar”, lembra o atleta.
Calotes geram indignação
Ruan relata que jogadores iniciantes, em grande parte das vezes, precisam desembolsar para praticar a atividade que tanto adoram.
“Infelizmente, no futebol de Brasília, praticamente pagamos para jogar, por isso muitos talentos ficam pelo meio do caminho”, finaliza.
Para o meia, o maior problema que os atletas passam no futebol local já não é uma novidade: falta de pagamentos por parte dos clubes aos atletas, aumentando a necessidade de realizarem outros afazeres.
Segundo o atleta, uma situação que não está vivendo no Ceilandense, onde todo o acordo está sendo cumprido.
“Aqui estão cumprindo com o acertado, inclusive com passagens para a gente ir aos treinos, mas nem sempre foi assim em outros times”, finalizou.
Em outras praças
Tal falta de estrutura para manter os jogadores focados apenas no futebol não é privilégio de algumas equipes do Distrito Federal, mas da maioria.
O campeonato de 2015, que inicialmente teria a participação de 12 clubes, contará com um a menos.
O Samambaia, o campeão da segunda divisão no ano passado, desistiu da disputa. A justificativa foi pela falta de estrutura financeira para manter a equipe na competição.