Foi preciso segurar a emoção para falar um pouco com a razão. Após enxugar as lágrimas ao citar os jogadores e a torcida, o ex-técnico do Inter, Paulo Roberto Falcão, foi duro ao se pronunciar sobre a sua saída do clube em que construiu sua trajetória no futebol e se tornou o maior ídolo da história.
A cada declaração, em entrevista coletiva que durou 51 minutos, o ex-volante aplicava um duro golpe no presidente Giovanni Luigi. Usando palavras, o maior jogador da história colorada colocou o dirigente na parede, jogando em cima de Luigi toda a responsabilidade do momento criado na manhã de segunda-feira, com a dispensa sua e a do vice de futebol Roberto Siegmann.
Mesmo sem perder a elegância ou mudar sua fisionomia, o treinador externava aos poucos todo o ambiente em que estava envolvido, todas as situações pelas quais teve de passar.
Apesar de se mostrar surpreso com a demissão na manhã de segunda-feira, Falcão via a situação se desenhando há algum tempo, os primeiros traços surgiram mais precisamente após a derrota por 3 a 2 para o Grêmio, no primeiro jogo da final do Campeonato Gaúcho.
“Isso vinha se desenhando há bastante tempo, desde aquele Gre-Nal, que depois revertemos a situação e fomos campeões gaúchos”, relatou.
Em determinado momento, o técnico questionou alguns repórteres presentes na sala de imprensa do Beira-Rio sobre se achavam que Luigi o queria no comando do time. Ao ouvir um unânime não, Falcão emendou. “Parece um consenso. Se ele não me queria, a relação nasce ruim”, afirmou para ser mais ácido em seguida. “Treinador não pode discutir escalação, quando o resultado não acontece tem que ser cobrado porque fez isso ou aquilo, mas discutir escalação não pode. Ou confia no profissional ou você troca. Foi o que aconteceu”, explicou.
Sem titubar, sem fazer rodeios, o ex-jogador afirmou que não tinha nenhuma relação com o principal dirigente do clube. As maneiras de trabalho de cada um não se encaixavam. Em quase uma hora de declarações, o nome de Luigi não foi citado em nenhum momento por Falcão, que se referia ao dirigente utilizando o pronome pessoal “ele” ou falando no “presidente”.
Incisivo, mesmo sem alterar o tom de voz, o ex-craque evitou fazer uma análise sobre o mandatário colorado. “Não vou analisar a figura do presidente. Não vamos perder tempo com isso”.
A fragilidade de relacionamento ficou evidente com o passar do tempo. Antes de firmar contrato ficou acordado a necessidade de reforços, tanto em qualidade como em quantidade. Nenhum nem outro se tornaram realidade. “Isso me foi prometido e isso não aconteceu. Por isso minha surpresa. Se me dessem aquilo que foi prometido poderia se falar de demissão se os resultados não acontecessem. Saio insatisfeito”, lamentou, sublinhando justificativas financeiras como a razão para a ausência de reforços.
Irônico, Falcão acredita que o próximo técnico terá mais sorte em relação a reforços. “Vão aparecer parceiros e mais parceiros”.
Falcão segue no coração dos colorados e a torcida no dele. Por isso deixou um recado. “O torcedor que fique muito atento para as coisas feitas e a maneira como são feitas. Esse torcedor tem de ser respeitado e saber todas as coisas que acontecem no Internacional”, falou o ídolo eterno em sua despedida, em uma das mais francas entrevistas já dadas no Beira-Rio.