Já são 39 anos de idade, e 851 gols marcados ao longo da carreira profissional – contabilizados até 1º de agosto de 2008. Em todo este período, Túlio Maravilha impressiona também pelo rastro igualmente grande de polêmicas (boas, ele garante) que deixou pelos gramados. Durante suas quase duas décadas dentro de campo, este goiano – torcedor declarado do Vila Nova-GO – já defendeu diversas equipes, e ganhou os holofotes em quase todas elas.
Foi assim no Goiás, arqui-rival do Vila e responsável pelo início de Túlio. Promovido à equipe profissional do Esmeraldino em 1989, o atacante mostrou seu faro de gol apurado e logo se destacou, conquistando a artilharia do Campeonato Brasileiro daquele ano. No entanto, os cofres do Goiás não resistiram a uma oferta do futebol suíço, e Túlio logo foi maravilhar a torcida do Sion. O ano era 1992.
Mas a Suíça não se empolgou com o craque. “Foi um atraso”, garante o próprio jogador, que retornou ao Brasil para se consagrar no Botafogo. Lá, foi campeão brasileiro, artilheiro do Brasileirão (1994 e 1995), marcou gol reconhecidamente irregular na final contra o Santos e fez até de calcanhar na Copa Libertadores de 1996. Tornou-se um astro. Ganhou o apelido que o consagrou e foi negociado com o Corinthians. Chegou com brilho, mas perdeu seu lume em pouco tempo.
Foi então que Túlio Humberto Pereira Costa iniciou uma longa trajetória errante. Passou por Vitória, Fluminense e Cruzeiro. Chegou ao seu Vila Nova-GO, retornou ao Botafogo, colocou o São Caetano no mapa, foi para o Santa Cruz e até para o Ujpest, da Hungria. Tudo isso apenas entre 1998 e 2002. Mesmo nos momentos de dificuldade, Túlio jamais escondeu seu prazer em jogar futebol. Continuou em equipes menores, mostrando o faro de gol de sempre. Foi assim que ajudou o Brasiliense a conquistar a Série C em 2002 e levou o Volta Redonda a uma final de Campeonato Carioca, vencendo a Taça Guanabara de 2005.
Túlio sempre compensou com oportunismo a falta de habilidade. Em Goiás, defendeu nada menos que seis clubes (Goiás, Vila Nova, Atlético-GO, Anapolina, Canedense e Itauçuense), até nas divisões inferiores. Mesmo sem ter jogado nos gigantes do futebol europeu como gostaria, Túlio garante chegar satisfeito à reta final de sua carreira. Hoje, de volta ao Vila, ainda pensa alto: quer voltar à Série A do Brasileirão e chegar ao milésimo gol. Aliás, aos 1010 gols.
“Sou um cara realizado, cinco vezes artilheiro do Campeonato Brasileiro (três da Série A, duas da Série C). Pretendo ser artilheiro da Série B pra completar o currículo. Vou em busca do milésimo gol. Sou o maior artilheiro de todas as divisões, com 195 gols. Acho que só tenho que agradecer a Deus por essa carreira. Mas quero fechar com chave de ouro, sendo artilheiro da Série A e marcando 1010 gols”, diz Túlio, que continua bom de frases e de gols.
Perto do final da carreira, o centroavante concedeu esta entrevista à Gazeta Esportiva.Net. Não se esquivou de nenhuma pergunta, respondendo até mesmo sobre os boatos que ligam seu nome ao jornalista Jorge Kajuru – que teria, segundo comenta-se no meio futebolístico, se envolvido com sua esposa no final da década de 90. Kajuru foi procurado pela reportagem para se pronunciar sobre o assunto, mas preferiu não se manifestar.
Túlio fala dos atritos com Marcelinho Carioca e Romário e garante ter fôlego para marcar os 159 gols que faltam para que ele atinja sua meta final – de preferência no Botafogo, onde quer retornar para a consagração derradeira. O time do Rio garante que o acordo pode acontecer – “É uma idéia dele, uma vontade dele, e bate com a nossa”, garante Carlos Augusto Montenegro, colaborador do departamento de futebol do Bota.
Pensa que acabou? Pois depois de pendurar as chuteiras, o craque das frases de efeito ainda pretende desfilar seu vasto repertório como comentarista esportivo. “Tudo é projeto”, adverte Túlio. Confira:
Você sempre se declarou torcedor do Vila Nova, mesmo tendo começado a carreira no Goiás. Isso nunca trouxe problemas pra você?
Túlio: No começo, não. Tive problemas depois, quando fui para o Vila Nova em 2001. Aí, fui jogar contra o Goiás e o pessoal perguntava, lembrava que eu tinha sido do Goiás e que estava no Vila. Eu dizia que eu sempre fui um jogador-melancia – verde por fora e vermelho por dentro. Foi aí que eles ficaram loucos mesmo! Mas hoje já está superado, eles levaram na brincadeira. Hoje eu sou do futebol goiano, do futebol brasileiro. Sou do Vila, do Atlético-GO, do Goiás, do Corinthians, do Botafogo… Sou patrimônio do futebol brasileiro.
Também é da Anapolina, da Canedense, do Itauçuense…
Túlio: Exatamente. Equipes de terceira, de segunda divisão. Comigo, não tem essa. Estou sempre de bem com a vida. Onde quer que eu vá, tenho sempre as portas abertas, mostrando a alegria de jogar futebol.
Depois da passagem pelo Goiás e da artilharia do Brasileirão de 1990, você foi negociado com o Sion-SUI. Foi uma decisão acertada, uma experiência proveitosa pra você?
Túlio: Em termos de cultura, sim. Aprendi novas línguas, uma nova cultura, descobri um novo país, de primeiro mundo. Mas em termos de futebol, não acrescentou nada. Foi um atraso na minha carreira. O ideal seria ir para um grande centro – Rio ou São Paulo – ou ir para a Espanha, para a Itália, para a Inglaterra. Eram os países de maior tradição naquela época. Infelizmente, não aconteceu, mas a gente não se arrepende.
Mas logo você retornou e veio aquela boa fase com o Botafogo.
Túlio: Foi. Aí eu voltei para o Brasil, e coincidiu de cair no Rio de Janeiro, no Botafogo. O clube há muito tempo não tinha um título, não tinha um ídolo. Graças a Deus, comecei a me firmar a nível nacional e mundial com a camisa do Botafogo.
Você teve alguns problemas com o Wilson Gottardo (então zagueiro do Bota) e com o Romário (no Flamengo). O Romário chamava você de ‘Rei do Rio’, e o Gottardo dizia que você não gostava de treinar. Como era essa rixa?
Túlio: Era tudo equivocado, notícias equivocadas. Sempre fui um ótimo profissional, sempre gostei de treinar. Se não fosse através do meu treinamento, não conseguiria esses gols. Era problema interno mesmo, de vaidade, que foi solucionado. Já com o Romário, era aquela rivalidade sadia: ele fazia gols no Flamengo, eu fazia no Botafogo. Foi bom para a gente incrementar o futebol carioca, fazer notícia, dar marketing. Foi uma passagem muito boa, na qual, graças a Deus, eu venci. Fui artilheiro com 27 gols, e ele foi vice com 23.
A torcida do Botafogo até hoje guarda muito carinho por você, graças às suas passagens. Você pensa em um retorno?
Túlio: Penso. Principalmente para fazer o milésimo gol. Acho que seria o ideal, para o fechamento da minha carreira, receber esse convite de fazer o milésimo gol com a camisa do Botafogo. Com a número sete, imortalizada pelo Garrincha, no Maracanã. Aí, sim; estaria completo o meu ciclo no futebol brasileiro.
Você disse que faltou um pouco de atenção dos maiores mercados europeus quando estava no Botafogo. Jogar na Inglaterra ou na Espanha fez falta no currículo?
Túlio: Na época, o futebol que estava no auge era no Japão, na Itália e na Espanha. Tive uma proposta do Japão, mas acabei não indo por ironia do destino. Tirando Japão, a Itália e a Espanha eram os alvos para eu poder jogar. Infelizmente, não tive essa oportunidade. Acho que faltou esse grande clube europeu na minha carreira.
Nunca apareceram propostas?
Túlio: Que eu me lembre, não. Se apareceu, foi um Tenerife-ESP, um clube médio, mas que, na época, o Botafogo não gostou da proposta. Acabou não fazendo negócio.
Depois do Botafogo, em 97, você foi para o Corinthians, que trouxe você graças à parceria forte que fez com um banco. Foi uma passagem boa pra você?
Túlio: Foi, sim. Fui campeão paulista e artilheiro do time (13 gols, ao lado de Mirandinha). Profissionalmente, foi bom para mim. Cumpri com o meu papel. Só não tive continuidade, porque fiquei apenas seis meses, esperando por um contrato de dois ou três anos. Acabei rescindindo o contrato porque achava que não estava sendo bem aproveitado. Precipitadamente, acabei resolvendo sair – e aí começou minha instabilidade por vários clubes do Brasil.
Você teve mesmo problemas de relacionamento com o Marcelinho Carioca e com o Nelsinho Baptista na época?
Túlio: Com o Marcelinho, era um relacionamento ótimo. Dentro de campo, era perfeito. A gente se falava, tocava a bola. Ele cansou de dar passes para que eu fizesse gols. Mas com o Nelsinho, não era muito bom. Eu ficava no banco e não era o preferido para ser o titular dele. Joguei algumas partidas, mas não cheguei a agradá-lo. O estilo de jogo não era o que ele queria. Acabei perdendo o posto de titular, mas não tenho nenhuma mágoa do Nelsinho – pelo contrário, acho um excelente treinador. Desejo sorte pra ele.
Depois disso, você passou pelo Vitória, pelo Fluminense e voltou a aparecer no São Caetano. Em 2000, você ajudou a colocar o time na Série A-1 do Campeonato Paulista, fazendo o ‘jogo das faixas’ contra o Corinthians (o São Caetano venceu por 1 a 0, gol do próprio Túlio). Como foi essa experiência de brilhar em times menores?
Túlio: Acho que minha missão foi essa: ajudar times menores a se tornarem times grandes, conhecidos. A primeira experiência foi com o São Caetano, em 2000. Todo mundo pensava que eu estava em fim de carreira, por estar em um time de segunda divisão. Provei que, dali, a gente começa a ressurgir para o futebol, e o São Caetano foi o primeiro clube que a gente ajudou a subir e a se tornar a grande equipe que é hoje.
Você conseguiu isso também com o Brasiliense e com o Volta Redonda, por exemplo. Você diria que é um cara com estrela?
Túlio: Graças a Deus, sou um cara bastante iluminado. Onde quer que eu vá, seja em clube de primeira, segunda ou terceira divisão… Não interessa. Seja o clube conhecido ou não, eu tenho esse dom. Onde quer que eu vá, faço gols, divulgo o time, divulgo a cidade e levanto o time para as divisões maiores.
Como aconteceu esse rodízio por clubes menores?
Túlio: Começou entre 2002 e 2003. Vim do Brasiliense para o Atlético-GO, sempre jogando na Série C, na Série B. De 2002 em diante, até voltar hoje para a Série B. Aqui, o objetivo principal é levar o Vila Nova da Série B para a Série A.
O time atual tem condições de cumprir esta meta?
Túlio: Acredito que sim. Tirando o Corinthians, são três vagas disputadas. Vão brigar o Juventude, o Barueri, o Avaí, o próprio Vila Nova, o Ceará, o Bahia… Acho que, hoje, o futebol da Série B está bem nivelado – com a exceção do Corinthians, que está um pouco na frente, mas que também vai ter que suar muito pra conseguir uma vaga.
Já são 851 gols. A meta é chegar até o milésimo quando?
Túlio: Até 2010. Faltam 149. Pretendo fazer o gol 900 até o meio do ano que vem. Aí, vai faltar um ano e meio para a gente fazer mais cem gols pra chegar ao milésimo.
E pra chegar a esse milésimo gol, vale tudo?
Túlio: Não, não vale tudo não! Gosto de fazer as coisas bem feitas. Nada de jogo beneficente. Vou fazer jogos amistosos, de equipes profissionais. Não importa se são de primeira ou de segunda divisão. Desde que tenha súmula e camisa, pra ser uma coisa bem oficial.
Na seleção brasileira, você teve uma passagem entre 90 e 95. Depois da Copa América de 95, você não voltou a ser convocado. Por quê?
Túlio: O ano de 96 era de Olimpíadas, como era agora. Não tinha Eliminatórias para a Copa do Mundo – o Brasil já era convidado direto, porque tinha sido campeão em 94. Então, não houve continuidade porque deram prioridade aos jogadores jovens, com idade olímpica. Não houve aquela seqüência na seleção. Com a mudança de clubes, acabei perdendo aquele caminho. Esse foi um dos pecados.
Você já fez até gol de mão contra a Argentina. Mesmo assim, faltou mais seleção brasileira no currículo?
Túlio: Não… No momento em que fui chamado para a seleção, eu correspondi. Foram 15 convocações, 13 gols – com média de quase um por jogo. Acho que minha missão foi cumprida. Só faltou mesmo uma Copa do Mundo.
Dentro dos elencos, por conta do seu jeito mais descontraído, você tem ou costuma perceber problemas de relacionamento?
Túlio: No começo, tinha muito isso. Hoje em dia, não. O pessoal me respeita muito, já conhece minha maneira de ser, já conhece minha irreverência. Tudo pelo lado positivo, pelo lado bom. Quem é que não quer ter sempre um jogador de estrela na equipe? Chama a atenção da mídia, e todo mundo aparece. Hoje em dia, é mais fácil lidar com essa garotada.
O futebol hoje está menos irreverente?
Túlio: Hoje o futebol está mais profissional. Deixou de ser aquele futebol alegre, debochado, cheio de gracinhas. O pessoal está bem profissional. Culpa dos últimos acontecimentos, incitando a violência nos estádios, nas arquibancadas. Os jogadores estão mais comedidos. Mas daqui a pouco, volta tudo.
Onde foi parar seu irmão gêmeo, o Télvio?
Túlio: O Télvio encerrou a carreira em 99 ou 2000. Passou pelo Botafogo, pelo Fluminense, pela Francana-SP e pelos times de Goiás, como Goiatuba e Aparecidense, entre outros. Ele não teve tanta estrela e sorte quanto eu tive, mas está lá jogando a peladinha dele, sempre junto com a gente.
Como é seu relacionamento com a imprensa?
Túlio: Nossa, perfeito. Acho que um não vive sem o outro. Eu não seria o Túlio Maravilha se não fosse a imprensa. Artilheiro, tem um monte por aí – todo mundo sabe fazer gols. Mas precisa ter algo mais. Graças a Deus, eu me dou muito bem com a imprensa. Por isso, tenho esse relacionamento muito bom. Quem sabe, no futuro, eu não posso estar do lado de vocês? Hoje, eu sou o entrevistado, mas amanhã eu posso ser o entrevistador, o comentarista. É a minha praia.
Podemos então ter um Túlio comentarista?
Túlio: Não está descartado. Depois de 2010, tudo isso é projeto na minha carreira.
Talvez você possa esclarecer melhor uma história envolvendo você e o Jorge Kajuru. O que é verdade e o que não é?
Túlio: Que eu saiba, não tenho nada com o Kajuru. É um ótimo profissional, bastante polêmico. Mas ele é mais polêmico para o lado negativo do que para o positivo, sempre arrumando confusão com uma ou outra pessoa. Eu, não; eu sou polêmico do bem. Não tenho nada com ele. Ele gosta de mim como jogador, como pessoa. Não tenho mágoas. Só desejo sucesso para ele, para o livro dele (“Condenado a Falar”) – até ganhei um autografado. É uma bandeira da imprensa nacional. Torço para que ele continue fazendo seu trabalho, enquanto eu faço o meu. Quem sabe um dia nós não trabalhamos juntos?