Estou curtindo as férias forçadas por enquanto”. Esta foi a primeira frase de Roberto Fonseca, técnico demitido pelo dono do Brasiliense, Luiz Estevão, a cinco dias do jogo de domingo, em que o clube de Taguatinga “conseguiu” perder para o Cuiabá e ser rebaixado para a Série D do Brasileiro. Após alguns dias sem dar entrevista, o treinador atendeu por telefone a reportagem do Jornal de Brasília e contou, de forma corajosa, detalhes a respeito da repentina dispensa. Sem controlar a língua, Fonseca foi incisivo ao explicar o motivo real de sua saída, visto que fazia uma boa campanha e estava conseguindo tirar leite de pedra. Entretanto, mais criticado do que Luiz Estevão, foi o “supervisor de logística” Leandro Bernardes. Fonseca relatou vacilos: “Ele é um menino. Não tem experiência. É desorganizado. A maioria dos jogadores não o respeitava”.
Embora você estivesse fazendo um bom trabalho no Brasiliense, o Luiz Estevão te demitiu. O dono do Jacaré me explicou que os maus resultados nos últimos jogos foram determinantes. O que aconteceu de verdade?
Cara, eu lia direto nos jornais que há muito tempo o Brasiliense não vencia tantas vezes fora de casa, que não ganhava dois jogos seguidos. Como o aproveitamento pode ter sido tão ruim. Essa justificativa não bate com a realidade.
Então o que houve de fato entre vocês dois após a derrota por 2 x 0 diante do Santa Cruz (em 6 de outubro) no estádio do Arruda?
Na verdade, nem encontrei com ele. Não nos falamos pessoalmente. Houve divergência na hora de montar o time. É normal o dono dar opinião sobre o time que ele banca. Porém, não pode querer impor. Eu não aceito isso. O cargo do treinador é da diretoria, mas nós precisamos ter livre arbítrio. Dessa forma, nós respondemos quando o time vai mal.
Quais jogadores o Luiz Estevão queria que você escalasse e não estava em sua mente?
Não vou falar nomes porque pode comprometer o destino dos jogadores. Pode ficar parecendo que eles têm esquema com o Luiz Estevão. E não sei se é verdade. Por isso, acho por bem não falar.
Você chegou a assistir a derrota por 2 x 1 contra o Cuiabá? O que achou do rebaixamento do Jacaré para a Quarta Divisão?
Foi uma pena um time com o poderio financeiro e um Centro de Treinamento de primeira linha cair para a última divisão. Os problemas extra-campo é que atrapalham. Um clube de futebol não pode ser tão centralizador. O dono precisa delegar funções e depois cobrar de cada um deles. Isso é fundamental para um time dar certo e se tornar grande.
Mas e o Leandro Bernardes? Mesmo com a função dada pelo Luiz Estevão de supervisor de logística fazia um papel de gerente de futebol. Não é verdade?
O Leandro é um menino que não tem experiência nenhuma com futebol. Ainda era enrolado. Nosso grupo tinha problemas que só Deus sabe. Vários deles não ocorreriam se o Brasiliense tivesse um gerente de futebol profissional.
Nossa equipe apurou que o Leandro cometeu vários deslizes, como chegar atrasado em partidas, mudar a programação na véspera de concentração para jogos-chave. Isso é verdade? Até que ponto isso atrapalha uma equipe de futebol?
Confirmo tudo isso que você está me falando. E ainda teve muito mais. Lógico que atrapalha. Tinha vezes que a viagem estava marcada para um determinado dia e mudavam para outra data. Isso interfere tanto no foco dos atletas como na programação que a comissão técnica faz. É um absurdo mesmo.
Você disse que tiveram “muito mais” vacilos do Leandro. Poderia revelar mais algum deles com detalhes?
Quando jogamos contra o Rio Branco, fora de casa, chegamos lá no Acre às 4h da manhã do dia do jogo. Não tem como dizer que isso não atrapalha. É de uma desorganização, falta de planejamento sem fim. Fiquei surpreso e altamente chateado com o ocorrido. E, evidentemente, os jogadores também. Teve um jogo no Serejão que ele chegou todo ensanguentado e atrasado. Não me interessa o porquê chegou naquele estado, mas o atraso é complicado. Fica parecendo falta de compromisso. Não sei o que há por trás da permanência dele lá. Mas profissional ele não é.
Nós sabemos que ele é muito amigo do filho do Luiz Estevão. Será esse o motivo de ele estar lá?
Sinceramente, isso pouco me importa. Só sei que o Brasiliense precisa se reestruturar com urgência. E a presença dele não agrega.
Você acredita que o Brasiliense pode se tornar um time grande?
Tem tudo para isso. Paga em dia, tem um excelente Centro de Treinamento. Precisa mudar é a filosofia, contratar profissionais e lhes dar autonomia. O clube ter gerência feita por quem entende é fundamental para engrenar. Ajuda na contratação de bons jogadores. Mas tem que dar autonomia de verdade. Não existe um departamento de futebol. Quando soube disso, fiquei surpreso. Mas saio com a consciência tranquila. Fiz a minha parte com qualidade.