O contrato prevê uma parceria de dez anos, mas pode não durar nem dois. São cada vez mais fortes no Parque São Jorge os rumores de que o acordo entre Corinthians e MSI, firmado em novembro de 2004, pode ser encerrado ainda nesta temporada. Indícios, para isso, não faltam.
Hoje, o presidente Alberto Dualib concedeu entrevista em Caxias do Sul e comentou o assunto, citando os quase três meses de ausência de Kia Joorabchian, manda-chuva da empresa e que está na Europa desde o início da Copa do Mundo.
“Não sabemos mais se ela (parceria) existe. O Kia não aparece há tempos. Temos que aguardar algo, ver o que eles pretendem”, disse o dirigente, que viajou junto com a delegação que enfrenta o Juventude, pelo Campeonato Brasileiro.
Responsável pela concretização da parceria, Dualib parece agora estar do outro lado. O dirigente estaria arrependido de ter entregado o departamento de futebol do clube à empresa e, assim, estaria tomando algumas medidas visando minar o acordo.
No mês passado, o presidente reuniu a imprensa para anunciar que iria se aproximar mais do futebol, praticamente se colocando como diretor de futebol do Corinthians e reforçando o poder do clube na parceria. Pouco tempo depois, aproveitou a demissão de Geninho para contratar o técnico Emerson Leão, desafeto de Kia.
Na mesma entrevista concedida em Caxias, porém, o dirigente diz que conversou com Kia antes de contratar Leão e que recebeu sinal positivo do iraniano. No entanto, afirmou não temer uma saída da MSI agora. Leão, por sua vez, sempre se manifesta fazendo referência ao Corinthians e a Dualib, usando a ironia ao falar do chefe da MSI.
Outro indício do fim da parceira é a demora para adquirir os direitos federativos do atacante Nilmar, que está contundido e só volta aos gramados em 2007. Primeiro, a MSI demorou mais de um mês após o fim do empréstimo do jogador, vinculado ao Lyon (FRA), e acabou pagando dois dos dez milhões de euros exigidos pelo clube francês. O valor pago foi para estender o empréstimo até agosto.
Mais uma vez, porém, a parceira não cumpriu o combinado e, alegando precisar contratar um jogador para suprir a ausência de Nilmar, não quitou os oito milhões de euros restantes. A idéia da empresa é parcelar o valor em duas vezes, pagando uma parte agora e outra em janeiro.
O caso Carlitos Tevez, no entanto, é o mais emblemático. Contratado por US$ 22 milhões junto ao Boca Juniors e amigo pessoal de Kia, o argentino simplesmente abandonou o clube na segunda-feira. O jogador teria esvaziado seu apartamento no Tatuapé e, segundo informações de funcionários do condomínio, vai concluir a mudança para Buenos Aires no sábado.
Antes da partida contra o Botafogo, no último domingo, Kia enviou uma carta aos jogadores do Corinthians dando a entender que deve permanecer mais tempo na Europa. “Não importa onde esteja ou que dia seja, vocês sempre poderão contar comigo”, diz o comunicado. O iraniano escreveu para agradecer o apoio dado pelos corintianos a ele em função da morte de seu pai.
Paulo Angioni, diretor da MSI, é outro que anda sumido nos últimos dias e praticamente não atende mais seu telefone celular. Nesta quarta, ele reapareceu e disse que não crê no fim da parceria.
“A relação é muito nova, tem um ano e meio, começou um pouco conflituosa, mas não digo que está abalada. Eu continuo achando que ela pode ter um futuro muito grande. Se olhar pelo que é publicado, você até admite (um rompimento), mas pelas pessoas que estão dentro do projeto é muito pouco provável que isso aconteça”, diz.
O contrato
O caminho para o fim da parceria, no entanto, não é tão simples. O contrato diz que, caso o clube descumpra alguma cláusula, a MSI tem o direito de romper o contrato e ainda receber multa de US$ 25 milhões e mais o dinheiro que investiu no clube – valor que o Corinthians não teria como pagar.
Além disso, existe um item que permite à MSI processar o clube caso este se recuse a assinar qualquer documento ou ceder jogadores para negociações comandadas pela empresa. Um outro item dá autonomia para a MSI discutir contratos com patrocinadores sem que o Corinthians participe da negociação.
Enfim, como o contrato diz que o futebol corintiano é gerenciado pela MSI “e seus sócios” e prevê multa para quebra de contrato, o Corinthians não tem muitas alternativas além de desgastar a parceria e esperar por uma saída da MSI – que, neste saco, levaria todos os atletas contratados desde dezembro de 2004.
Confira, na íntegra, a carta enviada por Kia Joorabchian aos jogadores do Corinthians antes da partida contra o Botafogo, no dia 20 de agosto:
“Meninos,
Eu gostaria de agradecer o tributo maravilhoso que todos vocês fizeram para o meu pai na última quarta-feira à noite (os jogadores do Corinthians entraram com uma faixa preta na vitória por 2 x 1 sobre o Fluminense em luto pela morte do pai de Kia). Agora faz uma semana que ele faleceu e apesar de eu sentir minha vida vazia sem ele, estou feliz que os seus últimos anos foram felizes.
Ele conhecia todos vocês porque ele assistia a todos os jogos e eu costumava contar para ele sobre cada um de vocês. Ele não era apenas um fã de vocês, mas sim um crente – ele acreditava em nós como um time. Ele teve essa crença até seu último dia, porque na noite anterior a sua morte ele me ligou e me disse que, apesar de nós termos perdido para o Figueirense, ele sabia que vocês virariam a mesa.
Ele me disse para acreditar e para eu nunca perder minha fé em vocês. Eu disse a ele que nunca tinha perdido a fé em vocês! Eu acredito em vocês, como eu sempre fiz, e ainda que eu esteja longe, eu estou perto. Saibam que eu sempre estarei ao lado de vocês nos bons e maus momentos, que vocês são parte da minha família e que eu sempre estarei somente a um telefonema de distância.
Eu sempre tentei fazer tudo o que eu pude e cumprir tudo o que prometi para vocês, e não importa onde eu esteja ou que dia seja, saibam que vocês sempre podem contar comigo.
Eu desejo sorte a vocês hoje e espero que hoje nós possamos sair do campo vitoriosos, todos vocês, eu e meu pai.
Seu amigo, Kia”.