João Paulo Mariano
Especial para o Jornal de Brasília
“Nunca havia experimentado a sensação de estar em uma prancha, sentindo o vento no corpo. É muito bom”, afirmou Roger Alvarenga Santullo, 37, depois de ter praticado Stand Up Paddle (SUP) pela primeira vez. Se para alguns o esporte em que se rema em cima de uma prancha é uma atividade comum, para ele, cadeirante desde que nasceu – devido à paralisia cerebral –, é uma novidade que fez o domingo se tornar especial.
Roger é acostumado a desafios. Apesar de a paralisia não ter provocado consequência cognitiva, a locomoção ficou comprometida e surgiram dificuldades na fala. Mas nada interrompeu a trajetória do futuro advogado, que em poucas semanas apresentará a monografia. Tampouco o impediu de fazer faculdade de Turismo, concluída em 2004. O Direito, iniciado em 2011, para ele é uma forma de abrir portas de trabalho. Roger é funcionário do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios desde 2009 e atua com pesquisa de documentos.
Mas não é só de estudo e trabalho que Roger vive. Ele leva o esporte como uma grande paixão e confessa assistir a todos os esportes que pode, com paixão maior pelo futebol – torcedor fascinado pelo Vasco – e pelo futebol americano, com menção especial ao time americano Buffalo Bills.
Além disso, acompanha a natação olímpica campeã, tendo como favoritos os nadadores Clodoaldo Silva e Daniel Dias. Para ele, é uma forma de acompanhar os esportes e ter alguma alegria, já que os times de futebol não estão tendo muita sorte em campo.
“O esporte é importante. Ajuda na minha dificuldade de locomoção, tem a parte lúdica e ainda há a competição”, afirma Roger. Assim que ele descobriu a possibilidade de estar sobre a prancha, quis participar do projeto Superação, iniciativa do Raia Norte Esportes. As ações são feitas no Parque das Garças (Lago Norte) há quatro anos e já beneficiaram mais de 50 pessoas com diferentes deficiências.
Autonomia
Daniel Lino é o educador físico que comanda o projeto. Ele explica que tudo começou a partir do interesse de um cadeirante em praticar SUP. A equipe, então, comprou uma cadeira e a colocou na prancha. Foi necessário treinar os integrantes do projeto e fazer todas as adaptações necessárias até que levaram o primeiro cadeirante para deslizar nas águas do Lago Paranoá.
O fisioterapeuta da equipe, André Garcez, afirma que um dos intuitos é fazer com que a pessoa se sinta independente, o que nem sempre é possível devido à grande preocupação de familiares.
Exemplo
Maíra Alvarenga Santullo é irmã de Roger e não escondia a preocupação com o irmão mais novo. Porém, ficou mais tranquila depois que o viu se divertindo na prancha, auxiliado pelo professor. Para ela, pela forma que Roger enxerga a vida e busca enfrentar as dificuldades do dia a dia, ele se tornou um exemplo para todos dentro e fora de casa.
“Ele sempre foi assim. Um exemplo de superação. Se quer ir a uma festa ou ao cinema e não tem ninguém para acompanhá-lo, ele pega um táxi e vai”, completa.
Hoje, Roger vai começar a praticar bocha na Associação do Centro de Treinamento de Educação Física Especial (Cetefe). O esporte paralímpico consiste em jogar bolas coloridas o mais perto possível de uma bola branca, com espaço demarcado para os arremessos.
Depois de treinar a modalidade, ele vai se aventurar no arco e flecha, para descobrir qual esporte é mais a sua cara. Afinal, não é a cadeira que vai impedir o turismólogo, advogado e esportista de continuar buscando novas experiências.