Roberto Wagner
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As manifestações mais exaltadas de torcidas brasileiras neste início de Estaduais ilustram bem o fenômeno ocorrido durante a passagem de ano. De 2012 para cá, clubes tradicionais como Flamengo, Palmeiras, Vasco, Botafogo e Cruzeiro ficaram órfãos de suas grandes referências em campo.
Sem direito a aviso prévio, os fãs do bom futebol viram, atônitos, a debandada de ídolos como Vagner Love, Marcos Assunção, Juninho Pernambucano, Loco Abreu e Montillo. Em que pese a falta de dinheiro, idade avançada ou qualquer outra razão que tenha motivado a saída das estrelas, um vão de tamanho incalculável tem tirado a paz dos torcedores.
Na última quarta-feira, os quase três mil vascaínos que foram a São Januário ver a vitória por 4 x 2 sobre o Macaé passaram boa parte do jogo pedindo a permanência do zagueiro Dedé. Sem Juninho Pernambucano, que trocou o clube pelo N.Y. Red Bulls, dos Estados Unidos, a referência dos torcedores ficou reduzida ao defensor de 24 anos, com pouco mais de três anos de clube.
Ontem, a vez de protestar foi dos botafoguenses. Inconformados com a decisão do técnico Oswaldo de Oliveira de não aceitar o retorno de Loco Abreu, eles fizeram questão de mostrar a insatisfação. Próximo de o resultado de 0 x 0 contra o Bangu se confirmar, eles ecoaram gritos de “Fora, Oswaldo”, além de repetir o coro que imortalizaram para o camisa 13: “Uh, é o Loco.”
A saída repentina de Vagner Love do Flamengo causou barulho. Referência do ataque rubro-negro, sua ausência só não foi mais reclamada devido à explicação da diretoria de que não teria como manter o alto salário do jogador.
Em comum
No estado vizinho, em São Paulo, os fãs do Palmeiras protagonizaram ação semelhante. Depois de perderem o capitão Marcos Assunção e quase serem obrigados a dar adeus ao centroavante Barcos, eles organizaram um abaixo-assinado exigindo a contratação do argentino Riquelme.
Eles saem como é ruim
Lembrados até hoje pelos serviços prestados aos clubes no passado, ex-jogadores também lamentam o “precoce” adeus das referências atuais.
Entre os atacantes mais exaltados da história do Palmeiras, Evair destaca o mal que pode causar despedidas repentinas. “A própria torcida perde a empatia com o time. O Juninho (Pernambucano), por exemplo, todos os vascaínos sabiam que ele era o homem da bola parada. Sem essa referência, é muito ruim”, afirma o ex-atacante, ídolo palmeirense na década de 90. “Até mesmo o grupo (de jogadores) pode sentir falta. Eles também ficam sem a referência, sem ter com quem contar”, reforça.
“Artilheiro das Decisões”, apelido carinhoso dado pela torcida do Flamengo, Nunes faz discurso parecido. Embora seja mais exigente na hora de classificar um jogador como ídolo, ele lamenta a debandada. “Não sei o que aconteceu, mas nunca é bom. Na minha época, não ocorria isso porque tínhamos um elenco de 25 jogadores. Quando um saía, o outro entrava e dava conta do recado. Hoje é mais complicado perder a referência”, diz.
Pé atrás
Um dos líderes do Fluminense na década de 80, Edinho não concorda com as manifestações dos torcedores. Para ele, os que deixaram os clubes na passagem de ano não são ídolos. “Tem que avaliar tudo. O Marcos Assunção saiu chorando, mas queria aumentar o salário na Série B. A torcida age com o emocional, mas a diretoria tem que ser racional”, alerta.
Riquelme? Nada feito
A esperança da torcida do Palmeiras de contar com o futebol de Riquelme para substituir o lugar de ídolo deixado por Marcos Assunção não será correspondida. Depois de ensaiar uma desistência do negócio na quarta-feira, o novo presidente do clube, Paulo Nobre, descartou de vez a contratação do jogador na tarde de ontem.
A camisa 10 que seria do meia argentino, aliás, foi entregue pelo mandatário ao novo diretor executivo do clube, José Carlos Brunoro. “Não podemos trazer o jogador pelo preço que ele vale. Das quatro variáveis que coloquei para a contratação do Riquelme, já parou na primeira”, cravou Nobre, que, minutos após ser eleito na segunda-feira, definiu como fatores seguintes para acertar com o argentino saber sua condição física, sua motivação de jogar no Verdão e se o técnico Gilson Kleina dava o aval.
Na última quinta-feira, Arnaldo Tirone, ainda como presidente, foi a Buenos Aires e acertou com o meia, que tem 34 anos e não joga desde julho, salários de US$ 210 mil (cerca de R$ 430 mil) por dois anos. Só faltava assinar o contrato, algo que Nobre não fará.
“Dentro da nossa cabeça, o Riquelme não virá. Não vale a pena, não temos condições. Neste momento, não dá”, reforçou Brunoro, que participou da reunião que definiu o descarte ao meia ao lado de Nobre e de Gilson Kleina, que há duas semanas se mostrava reticente quanto à chegada do argentino por ter dúvidas de sua condição física. “Parte da torcida faz muita pressão para que o Riquelme venha, e o torcedor dentro de nós também quer grandes jogadores. Àqueles que ficarem decepcionados, aviso que estamos fazendo o melhor para a instituição”, discursou Nobre, reforçando que, no momento, é melhor gastar menos.