Por Débora Oliveira
O perfil demográfico do Distrito Federal mudou de forma significativa nos últimos anos e os efeitos já aparecem com nitidez nos dados mais recentes. A edição 2025 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que a capital registra um avanço consistente do envelhecimento populacional, ao mesmo tempo em que cresce o número de moradores que vivem sozinhos.
Entre 2012 e 2025, a participação de pessoas com menos de 30 anos diminuiu, enquanto a população com 30 anos ou mais passou a concentrar o maior número de moradores do DF. O avanço mais expressivo, no entanto, ocorreu entre os moradores com 60 anos ou mais, que passaram de 8,4% para 13,9%. Esse crescimento se intensifica por fatores como maior expectativa de vida, redução da fecundidade e migração interna de adultos em busca de oportunidades.
A pesquisa também revela transformações relevantes na organização dos arranjos domiciliares no Distrito Federal. Os lares unipessoais, aqueles que são formados por apenas um morador, ganharam espaço de forma expressiva ao longo do período analisado, passando de 13,9% em 2012 para 19,9% em 2025, segundo o IBGE. A maior parte dos moradores que vivem sozinhos está na faixa de 30 a 59 anos, que responde por 52,9% dos arranjos unipessoais. O dado sugere maior autonomia financeira, mudanças culturais e adiamento de projetos familiares tradicionais.
A executiva de contas e produtora executiva de eventos corporativos Érica Gurgel, de 36 anos, faz parte dos números apresentados. Ela conta que morou sozinha pela primeira vez aos 24 anos e, desde então, percebeu que é o estilo de vida com o qual mais se identifica. “Já compartilhei apartamento com uma amiga, já morei em casa de família e também já aluguei quarto, então vivi diferentes formatos de moradia. Mesmo assim, sempre tive preferência por morar sozinha — a única exceção natural foi quando me casei”, conta Érica.


Segundo ela, após a separação, não cogitei voltar a dividir espaço com alguém ou retornar para casa da minha família. “Minha escolha foi retomar minha independência. Para mim, isso está muito ligado à liberdade, à individualidade e à paz. Gosto de chegar em casa e simplesmente poder silenciar, sem precisar conversar, dar explicações ou cumprir qualquer expectativa social. Depois de um dia inteiro lidando com pessoas no trabalho, valorizo muito ter um ambiente tranquilo para descansar, pensar ou apenas ficar em silêncio”, explica.
A executiva comenta ainda que morar sozinha hoje é uma escolha alinhada ao momento em que está vivendo, no entanto, no futuro, deseja voltar a dividir a vida e a casa com alguém, mas dentro de um relacionamento sólido, saudável e construído com propósito. “Acredito que muitas pessoas têm escolhido morar sozinhas justamente por buscarem mais autonomia, privacidade e qualidade de vida. Hoje, para mim, morar sozinha representa bem-estar e equilíbrio, mas isso não muda os planos que tenho para o futuro”, pontua Gurgel.
Outro dado que chama atenção na pesquisa é o avanço da população idosa entre aqueles que vivem sozinhos. Atualmente, 32,2% dos moradores em lares unipessoais têm 60 anos ou mais, um crescimento de quase 10 pontos percentuais desde o início da série histórica, indicando o aumento da autonomia, mas também novos desafios relacionados ao envelhecimento de forma positiva.
É o caso da cerimonialista de autoridades Judite Britto, de 63 anos. Natural de Belém do Pará, ela vive em Brasília há mais de três décadas e integra o grupo de pessoas que optaram por morar sozinhas. “Tenho dois filhos, um casal. Meu filho, de 36 anos, mora em Portugal e tenho uma neta. Minha filha, de 27, mora aqui em Brasília, perto de mim, em Águas Claras”, conta. Mesmo aposentada, ela decidiu seguir ativa profissionalmente. “Continuo trabalhando, apesar de já estar aposentada”, conta.

A rotina é marcada por independência e vida social ativa. “Adoro me divertir, sair com os amigos, ir jantar, ao cinema, praticar esporte. Gosto de atividade física, de caminhar, de estar com a minha família e também de cozinhar”, diz. Judite mora sozinha desde 2018, quando se divorciou. “Infelizmente por uma situação de violência doméstica, acabei me encontrando morando só. Mas isso não quer dizer que estou sozinha”.
Ela destaca que mantém uma rede de afeto e relações. “Tenho um namorado há quase cinco anos, é um relacionamento muito saudável. A gente viaja, sai para jantar, passear”, relata. Para ela, a autonomia é um dos principais ganhos dessa fase da vida. “Gosto muito de ir e vir sem precisar dar satisfação e aproveito, com a idade que tenho, tudo que a vida pode oferecer em tecnologia, lazer e diversão”, compartilha.
O levantamento também chama atenção para a diferença entre homens e mulheres. Entre os homens, predomina o perfil adulto, com 62,6% na faixa de 30 a 59 anos. Entre as mulheres, o cenário se inverte, quase metade das que vivem sozinhas (49,5%) tem 60 anos ou mais. O dado reforça a necessidade de políticas específicas para mulheres idosas, especialmente em áreas como saúde, segurança e assistência social.
Entre outros destaques do levantamento, está a redução das faixas mais jovens em todos os grupos etários, especialmente entre crianças de 0 a 4 anos e jovens de 14 a 29 anos, reforçando a tendência de envelhecimento populacional no Distrito Federal. Ao mesmo tempo, a pesquisa indica mudanças na estrutura dos domicílios, os arranjos nucleares, casais com ou sem filhos e famílias monoparentais, diminuíram de 67,1% para 64,8%, enquanto as unidades estendidas, que incluem outros parentes, também perderam participação, evidenciando uma reconfiguração nas formas de organização familiar.