Em Brasília, o ipê costuma anunciar a chegada da seca com um espetáculo de cores. Amarelo, rosa, roxo ou branco, as flores que tomam conta da cidade e viram cenário para fotografias também podem chegar à mesa, e até à casquinha de sorvete.
É essa descoberta que a Sorbê, sorveteria brasiliense com 22 anos de história, decidiu apresentar ao público. A casa criou sabores que levam flores de diferentes espécies de ipê e transformou uma das árvores mais simbólicas da capital em uma experiência gastronômica.
A ideia surgiu a partir da proposta que guia o trabalho da sorveteria, que é valorizar sabores brasileiros e apresentar ao público ingredientes que nem sempre fazem parte da alimentação cotidiana. Segundo Anita de Medeiros, proprietária e chefe sorveteira da casa, a flor do ipê é uma planta alimentícia não convencional (PANC), o que despertou a curiosidade de transformar a espécie em sorvete. “Quando a gente soube disso, a gente falou: por que não transformar essa árvore que é tão simbólica, tão presente na nossa cultura, nessa época do ano, em sorvete?”, conta.

A experiência começa ainda na árvore. As flores utilizadas são colhidas diretamente dos galhos mais baixos, e não do chão. Como são delicadas e murcham rapidamente, precisam ser higienizadas logo após a coleta. Depois, entram na receita como parte de uma geleia preparada especialmente para acompanhar o sorvete.
No sabor de ipê-amarelo, por exemplo, a flor é combinada com uma geleia de maracujá e manga. A escolha dos ingredientes busca equilibrar as características da flor, que possui um leve amargor. “Ela tem um sabor levemente amarguinho, mas a geleia a gente coloca no final, então você percebe esse amarguinho no final também”, explica Anita.
O sabor, porém, muda de acordo com a espécie. A sorveteria também trabalha com flores de ipês rosa, roxo e branco, criando combinações diferentes para cada uma. O ipê-branco, considerado mais delicado e suave, é acompanhado por uma geleia de abacaxi. Já outras variedades ganham combinações com frutas vermelhas.

Mais do que criar um sabor diferente, a proposta é fazer com que o público conheça ingredientes que normalmente passam despercebidos. Para Anita, a própria sorveteria funciona como um laboratório de sabores brasileiros. “A gente está sempre procurando coisas diferentes, sabores diferentes da nossa biodiversidade”, afirma.
A iniciativa também acompanha um movimento de valorização das chamadas plantas alimentícias não convencionais. De acordo com Anita, existe uma pesquisa para identificar espécies que podem ser utilizadas na alimentação e, a partir desse conhecimento, a Sorbet busca experimentar novas possibilidades.
As flores de ipê, por exemplo, podem aparecer em outras preparações além do sorvete. Segundo ela, também podem ser utilizadas em saladas e até em pesto.
Um novo olhar para o ipê
A experiência chama atenção justamente por ressignificar algo que já faz parte do cotidiano brasiliense. Durante a temporada de floração, o ipê deixa de ser apenas uma árvore presente nas ruas e se transforma em parte da paisagem que identifica a capital. Ao levar suas flores para a alimentação, a Sorbê propõe outro olhar para essa biodiversidade.
Para Anita, o Brasil possui uma enorme variedade de frutas, verduras, legumes e outras espécies que ainda são pouco exploradas na alimentação cotidiana. O desafio, segundo ela, é fazer com que as pessoas conheçam e experimentem esses ingredientes. “É mostrar para as pessoas que o nosso Cerrado, o nosso Brasil, é muito diverso”, resume.
Com a iniciativa, o sorvete de ipê acaba funcionando como uma porta de entrada. A sobremesa, que à primeira vista parece apenas uma combinação inusitada, apresenta ao consumidor uma espécie que ele provavelmente já viu inúmeras vezes pelas ruas de Brasília, mas talvez nunca tenha imaginado provar.