Do tradicional cafezinho coado pela manhã aos grãos especiais preparados em diferentes métodos nas cafeterias, o café atravessa gerações e permanece como um dos hábitos mais presentes na rotina dos brasileiros. Dia 1º de outubro é o dia internacional do café desde 2015, por iniciativa da Organização Internacional do Café (OIC), e busca reconhecer não apenas a bebida, mas a cadeia de trabalhadores envolvida desde a produção até o consumo.
No Brasil, essa relação ganha proporções expressivas: maior produtor mundial, o país deve colher 67,6 milhões de sacas de 60 quilos em 2026, segundo a estimativa mais recente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Com 99% da área já colhida, o volume representa crescimento de 19,6% sobre 2025 e é o maior da série histórica da companhia.

A força do café também aparece dentro de casa. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), a bebida está presente em 98% dos lares do país e cada brasileiro consome, em média, 1,4 mil xícaras por ano. Entre novembro de 2024 e outubro de 2025, o consumo per capita chegou a 6,02 quilos de café cru e 4,82 quilos de café torrado e moído por habitante.
Cafeterias ganham espaço
Se o café continua dentro de casa, ele também conquistou novos lugares fora dela. Dados encaminhados pelo Sebrae-DF apontam crescimento de aproximadamente 38% no número de empresas ativas ligadas a cafeterias e negócios relacionados ao café entre 2020 e 2025 no país, sendo cerca de 98% pequenos negócios. No Plano Piloto, estudo do Instituto Federal de Brasília (IFB) mapeou 117 estabelecimentos relacionados ao consumo da bebida, dos quais 40 foram classificados como cafeterias de cafés especiais.
O movimento acompanha uma mudança de comportamento. Além de entrar para trabalhar ou conversar, parte do público quer conhecer a origem do grão, experimentar métodos diferentes e transformar a ida à cafeteria em experiência. No DF, a oferta especializada se concentra principalmente nas Asas Norte e Sul, enquanto regiões como Águas Claras e Sudoeste também aparecem nesse processo de expansão, segundo informações reunidas pelo Sebrae.

No Gama, essa transformação é percebida diariamente por Klébia Leite e Wesron Eber, que assumiram neste ano a administração da cafeteria Ouro Preto. Chef de cozinha, Klébia já alimentava o sonho de ter um negócio próprio quando surgiu a oportunidade de assumir o estabelecimento. O projeto acabou se tornando do casal. Para eles, a experiência tem apresentado retorno positivo, embora a dificuldade para encontrar mão de obra seja hoje um dos principais desafios da operação.
“A procura dos cafés diferentes, de conhecer coisas novas, isso tem a cada dia sempre surge mais”, conta Klébia. Segundo ela, alguns clientes chegam sem conhecer os métodos e pedem sugestões à equipe. A cafeteria passou, então, a também explicar diferenças de grãos, torras e preparos.
A busca ultrapassa as fronteiras do Gama. De acordo com os proprietários, há consumidores que saem de regiões como Park Way e Águas Claras para frequentar o estabelecimento. O casal também percebe a importância que o ambiente ganhou na escolha, além do que está na xícara, entram na conta apresentação dos pratos, atendimento e espaços considerados “instagramáveis”.
Do DF para a xícara
Outra particularidade está na origem do produto. A cafeteria comercializa café especial produzido no próprio Distrito Federal, aproximando duas pontas de uma cadeia que nem sempre é associada a Brasília. O estabelecimento trabalha, entre outros, com grãos locais e relata que a procedência brasiliense passou a despertar curiosidade entre os clientes.

Há até quem compre os pacotes para levar para outros estados em forma de presente. Um dos consumidores, segundo os proprietários, costuma adquirir vários pacotes de café quando viaja ou recebe familiares de fora. “Ele fala que gosta muito de levar, porque está levando um pedacinho daqui de Brasília”, relata Clébia.
Essa relação entre produção e consumo também ocorre em um cenário de mudanças no campo. Segundos dados da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Distrito Federal (Emater-DF) mostram que, em 2024, a cafeicultura do Distrito Federal ocupava 401,81 hectares, com produção de 983,34 toneladas, e o número de produtores chegou a 183 naquele ano, ante 83 em 2022.
Tradição encontra novos hábitos
Apesar da expansão dos especiais, o cafezinho conhecido pela maioria dos brasileiros ainda domina amplamente o mercado. Segundo a ABIC, as categorias tradicional, extraforte e superior respondem por cerca de 95% do café consumido no país. Os especiais representam somente cerca de 1% do volume vendido no varejo, embora a procura pela certificação da associação nessa categoria tenha crescido aproximadamente 230%. Para a entidade, o movimento sinaliza uma mudança gradual, e não uma substituição do café tradicional.

A transformação aparece também nas formas de beber. Cafés gelados, cold brew, cápsulas, bebidas prontas para consumo, diferentes torras e produtos de origem determinada dividem espaço com o coador. Entre os mais jovens, a ABIC identifica interesse por praticidade e novas experiências, fazendo com que o café deixe de ficar restrito à mesa do café da manhã para acompanhar trabalho, encontros e lazer ao longo do dia.
Mas há quem represente justamente a permanência da tradição. Aos 72 anos, a dona de casa Maria Lúcia Alves Santos toma café pelo menos uma vez ao dia e prefere a bebida mais amarga. Para ela, a relação começou dentro de casa e atravessou a vida.

“Acho que é uma coisa que vem desde o nascimento das pessoas, das pessoas mais velhas. A gente já nasceu com o café, já sentindo o cheiro do café”, lembra. Na memória, permanece o café torrado e passado no coador de pano, antes mesmo da popularização dos filtros descartáveis.
No Distrito Federal, o café que chega à mesa também gera negócios e começa a carregar, cada vez mais, uma identidade local inclusive com grãos cultivados a poucos quilômetros de onde são servidos.