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Bem Estar

Orgulho LGBT: “a terapia me deu paz”; entenda o papel da psicologia para a comunidade

Se o preconceito ainda adoece, a escuta qualificada tem o poder de reconstruir

Agência UniCeub

28/06/2026 15h43

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Atualmente, Wendryl atua como analista de RH na empresa global Synergy Brazil. Arquivo pessoal

Por Lucas Alarcão

Há vidas que já nascem em movimento, não pelo entusiasmo da descoberta, mas pela necessidade urgente de sobreviver. A de Wendryl Lucena começou antes mesmo de ele entender o que era um lar. Carregou o peso de um relacionamento abusivo, a rejeição do pai, o silêncio da mãe, pensamentos auto destrutivos e a solidão de se assumir bissexual num cenário conservador. A realidade  chegou até ele, sem pedir licença, e através da terapia ele encontrou a paz.

Hoje, aos 31 anos, Wendryl vive em São Paulo desde 2024 e atua como analista de recursos humanos (RH) em uma indústria de aromas.

Nascido no Recife (PE), o pernambucano filho de mãe solo, que era profissional do sexo, Wendryl, teve de aprender a recomeçar várias vezes.

“O meu pai não acreditou que eu era filho dele, por minha mãe ser garota de programa. Depois que nasci, ele quis tomar a minha guarda, e ela mudou de estado e me levou para a Paraíba, com um ano e meio de idade. Cresci distante  do meu pai”, relata.

Filho de quem a vida quis

Criado no ambiente e com o dinheiro da prostituição, Wendryl cresceu entre adultos. Uma criança sozinha em um mundo que não havia sido feito para ela. As mudanças constantes de cidades foram ensinando ao menino uma lição dura e precoce: a de não se apegar a nada porque tudo, cedo ou tarde, ficaria para trás. 

“Vivi em ambientes onde as pessoas tinham problemas com alcoolismo e dependência química. Ocorria tráfico de drogas, estelionatos e  roubos, quase fui para o orfanato. Desde cedo eu me questionava o porquê tanta coisa acontecia na minha vida, mesmo tendo tão pouca idade”, relembra Wendryl.

Para ele, a percepção de mundo começou a ser construída logo aos 10 anos, quando ouviu a mãe falar: “Preferia ter um filho marginalizado, ao invés de um filho viado”.

A partir dali, decidiu lutar por si mesmo. Catava materiais recicláveis na rua para comprar comida. Além da mãe, cresceu também ouvindo insultos do padrasto como: “Bota jeito no teu filho, olha como ele anda, faz ele falar feito homem, perde logo a virgindade. Prefiro que meu filho seja tudo menos bicha”.

Um passado à espera

Aos 16 anos, Wendryl voltou para Recife com uma expectativa que nunca havia sido dita em voz alta. Ali estava a chance de conhecer o genitor e a família paterna, um passado inteiro à sua espera. Mas o encontro não correspondeu ao que ele, em silêncio, havia imaginado.

“Meu pai descobriu que eu me relacionava com homens também, e falou pra eu não voltar mais e não contactar o resto da família. Me afastei dele e de todos, inclusive da minha mãe aos 17, ela também não aceitava o fato de eu ser uma pessoa bissexual”, lamenta.

Em meio à falta de afeto, Wendryl foi buscar amor onde achava que poderia encontrá-lo: em um relacionamento. Mas, como tantas outras vezes, as coisas não se dobraram a seu favor.

“Vivi a minha primeira relação afetiva com um homem de 33 anos, quando eu tinha 17.  Um namoro onde eu sofria manipulação, agressão física e verbal. Além de dependência emocional e financeira, sofri abusos psicológicos”, conta.

O primeiro chão firme

Em uma vida onde tudo parecia desabar, com a saúde mental no limite, Wendryl encontrou na psicoterapia um porto seguro, o primeiro em muito tempo.

“Desde cedo, eu entendi que era uma pessoa sozinha. Sentia que morria por dentro, aos poucos, sem ter com quem falar, desabafar. Com o tempo, descobri que a terapia seria uma ferramenta que poderia me ajudar a seguir a vida de uma forma mais leve”, explica.

Mesmo com a terapia, Wendryl ainda carregava a sensação de não ser compreendido de verdade. Faltava alguém capaz de acolher as suas perspectivas, a sua narrativa. Foi essa lacuna que o levou a buscar clínicas especializadas para o  atendimento do público LGBTQIAPN+.

“Falar com uma pessoa que tem a mesma orientação sexual gera uma identificação da qual facilita o entendimento para ambas as partes e torna o processo terapêutico muito mais rico”, observa Wendryl.

Com o tratamento, algo se reacendeu. Ele afirma nunca ter se sentido tão vivo, e diz ter feito a escolha de ser feliz. Hoje, a saúde psicológica reflete isso.

“Já são um ano e quatro meses em que me sinto uma pessoa em paz comigo mesmo, realizado profissionalmente. Mas ainda com muitos desafios e dificuldades a serem enfrentados”, reflete o analista de RH.

Wendryl afirma nunca ter se sentido tão vivo. Foto: Arquivo pessoal.

A psicologia salva quem a escolhe

Formado em psicologia pelo Centro Universitário de Brasília (Ceub), Ângelo Rafael Rodrigues Guimarães, de 35 anos, nunca teve dúvida sobre o caminho que queria seguir, nem sobre o desejo de ajudar o outro. Homem transexual, ele carrega na própria história a prova do que defende. De acordo com ele, a psicologia o salvou.

“Eu falo que a psicologia me salvou porque eu fui uma criança com episódios depressivos,  tive ideação suicida e na adolescência eu estava muito mal. Além disso, eu também sou neurodivergente”, conta Ângelo.

Para Ângelo, que possui um consultório particular e trabalha no Instituto Virgolim, focado em pessoas superdotadas, a psicologia não é apenas uma profissão escolhida, é uma resposta à própria história. Ele se coloca como exemplo vivo da importância dessa causa, o acompanhamento psicológico desde cedo o blindou de diversos traumas.

“Quando eu saí do armário da transexualidade, eu chorei muito para a minha mãe e falei que se pudesse, eu não teria escolhido isso para minha vida, porque não é uma escolha, a gente já nasce assim. Eu tive ajuda muito cedo porque ela sempre fez terapia, e tinha uma consciência maior sobre a importância da saúde mental”, afirma o psicólogo.

Ângelo se prepara para uma consulta. Foto: arquivo pessoal

Um olhar treinado

Para Ângelo, o tratamento psicológico para pessoas LGBTQIAPN+ é vital. De acordo com ele, ainda pesa sobre essas pessoas, o preconceito, a discriminação, as famílias que não aceitam, não respeitam, violentam e colocam os próprios filhos para fora de casa. Diante de tudo isso, o acompanhamento psicológico deixa de ser um recurso e se torna um fator de proteção.

“A clínica focada nessas pessoas tende a olhar também os fenômenos sociais, culturais, familiares que estão influenciando aqueles estados de saúde mental. Então, muitas das vezes, ela não está necessariamente deprimida por ser quem ela é”, finaliza Ângelo.

Entre rejeições, silêncios e feridas que nem sempre são visíveis, as trajetórias de Wendryl e Ângelo revelam uma realidade compartilhada por muitas pessoas LGBTQIAPN+: a de precisar lutar para existir em um mundo que frequentemente insiste em negar sua identidade. 

Se o preconceito ainda adoece, a escuta qualificada tem o poder de reconstruir. Em tempos em que a saúde mental se tornou uma urgência coletiva, garantir acolhimento e representatividade é, além de cuidado, uma questão de sobrevivência. Porque, para quem passou a vida sendo silenciado, encontrar um espaço onde sua história pode finalmente ser ouvida pode ser o primeiro passo para voltar a viver.

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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