
Acompanhe, às quartas-feiras, uma série sobre iniciativas culturais fora do quadradinho.
Beatriz Castilho
cultura@grupojbr.com
Entre largas janelas e paredes brancas, reside a ideia de sustentação e apoio à arte. Em meio a mercearias e oficinas, a cultura emerge a pouco mais de 17 km do centro do Plano Piloto. Nomeada a partir de sua ideia base, A Pilastra foi erguida no Guará II por dois estudantes da UnB, Lana Chadwick, 18 anos, e Mateus Lucena, 21, com a proposta de ser palco artistas diversificados.
Além das raras opções de trabalho e poucos ambientes de visitação, os jovens estavam incomodados com a dificuldade que artistas locais tinham para, literalmente, entrar em cena. Essa foi a inquietação fundamental para a dupla entrar em ação e mudar o contexto. “Era tudo uma bolha em que você não tinha como entrar; ou você nascia rico ou tinha contatos”, resume Lana.
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O início de tudo
A ideia de transformar o espaço nasceu em julho do ano passado, quando Mateus conheceu o local. “Uma amiga minha morava aqui e me chamou para assistir a um filme”, conta. “Quando entrei na casa, fiquei louco com as paredes de chapisco bruto que vi”. Àquela altura, a ideia já havia tomado forma na cabeça do jovem e não demorou para sair do papel. Três meses depois, com a parceria de Lana, A Pilastra foi inaugurada.
Por fora, a sobreloja destaca, de longe, uma bandeira LGBTQ, que virou referência para o local. A parte interna está de portas abertas para artistas que precisem de galeria, ateliê ou estúdio de fotografia. São seis bancadas de trabalho, três cavaletes e uma mesa de desenho retroiluminada.
“Basicamente, para o que se requer, o espaço se adapta”, resume Mateus. Recentemente, eles inauguraram o Café da Pilastra, resultado de uma metamorfose arquitetada na cozinha do local.

A Pilastra é um espaço híbrido, que viaja entre atelie, cinema, galeria, palco e até café. O local é rodeado de mercearias e oficinas, se destacando pela bandeira LGBTQ na janela. Criado por Lana Chadwick, estudante de história e Mateus Lucena, estudante de Teoria Crítica e História da Arte. Guará II QE 40. Foto: João Stangherlin/Jornal de Brasília.
Arte democrática
Pouco a pouco, a comunidade local, formada por muitas oficinas, auxilia a dupla como pode. “Quando vamos até eles, são muito acessíveis, mas ainda não conseguimos alcançar a galera da rua”, observa Mateus.
Para Lana, a falta de contato com o tema é a principal questão e, por conta disso, A Pilastra se engaja em desenvolver ações capazes de democratizar a arte. “Sinto que espaços que fogem das normas te dão liberdade para fazer coisas que você não se sente confortável para fazer no Plano Piloto”, sinaliza. “Quando você decide estar num lugar em que não precisa obedecer contratos, se sente mais livre para fazer tudo.”
Em sete meses de vida, o ambiente se mantém, basicamente, com financiamento dos próprios donos e a colaboração de artistas que passam pelo local.
Mateus e Lana acreditam que, apesar das dificuldades iniciais, o projeto segue em bom ritmo. “Tínhamos expectativa no começo, a inauguração chegou e a realidade deu na nossa cara”, reconhece Mateus.” Agora é um eterno aprendizado, que é necessário porque você não acha um tutorial na internet de como abrir uma galeria.”
Apoio
Com o tempo, a dupla encontrou uma rede de apoio de agentes culturais do DF. “Em nossa segunda ou terceira semana, nos colocaram em um grupo que só tinha galera de casa cultural”, conta Mateus. “Vimos que todo canto tem uma movimentação, mas ainda está longe do ideal.”
Olhando para o futuro, os parceiros preferem não detalhar muitos planos. Trabalham com os pés firmes no presente. Mas a experiência que possuem já permite uma projeção de Mateus: “Como galeria, ser espaço de validação para quem quer ir para a parede; como ateliê, dar suporte para a produção. Queremos que A Pilastra seja sinônimo de sustentação de artistas unidos em resistência”.