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Um filme “urgente e necessário”

A Vida Invisível foi a produção brasileira escolhida para concorrer entre os filmes internacionais indicados ao Oscar

Willian Matos

31/10/2019 12h40

Larissa Galli
larissa.galli@grupojbr.com

Com a sala do Cine Brasília lotada, o filme A Vida Invisível — o escolhido brasileiro para tentar uma vaga entre os filmes internacionais indicados ao Oscar — foi exibido na última terça-feira (29) em uma sessão especial de pré-estreia para os brasilienses, seguida por debate com o diretor Karim Aïnouz e a assistente de direção Nina Kopko. O filme será lançado em todo o Brasil no dia 21 de novembro.

O longa é o 15º da carreira do diretor cearense — que, curiosamente, se formou em Arquitetura na Universidade de Brasília — e já foi premiado em Cannes, na mostra Um Certo Olhar, e na Semana Internacional de Cinema da Espanha.

Baseado no livro A vida invisível de Eurídice Gusmão (Companhia das Letras, 2015), da jornalista pernambucana Martha Batalha, o filme mostra com bastante sensibilidade o universo feminino brasileiro da década de 1950 à sombra do intenso patriarcado da época.

“O livro é um retrato de uma geração de mulheres que — vivas até hoje — passaram por coisas inimagináveis como fruto da violência naturalizada constantemente pelo sistema patriarcal. Vi nesse romance algo que me comoveu muito: as vidas não contadas. Eu quis tornar essas personagens visíveis”, explicou o diretor.

A assistente de direção Nina Kopko concorda. “Esse livro me fez ver que 99% das histórias são sobre mulheres invisíveis, que não tiveram seu lugar nem na ficção, nem nos livros de história. Isso me tocou muito profundamente: pensar no brilhantismo de tantas mulheres que não puderam ser por causa do patriarcado”, completou.

Em um cenário tropical, em meio à Mata Atlântica do Rio de Janeiro, as irmãs Eurídice, interpretada por Carol Duarte, e Guida, vivida por Julia Stockler, cultivam uma profunda relação de companheirismo — até o momento em que são separadas pelo pai, um português conservador, e forçadas a viver distantes uma da outra. Ao longo de um período de 50 anos, o filme narra, com “um tom de crueldade”, a história da relação invisível entre as irmãs.

Separadas, elas lutam para tomar as rédeas dos seus destinos, mas nunca desistem de se reencontrar. “Me interessava falar sobre a rede de sororidade que existe entre as mulheres e o quanto isso as tornou mais fortes para resistir ao que elas passaram, numa época em que ainda nem se falava em sororidade. E, claro, queria falar das figuras masculinas também, que afogam essas mulheres, e as tornam invisíveis até hoje”, pontuou Aïnouz. “Eu achava que era a vida da minha mãe, da minha avó e, agora, estou descobrindo que é a história de quase todas as mulheres. Me pareceu um filme necessário e uma história urgente de ser contada”, completou.

E ele tem razão. A naturalização da violência inerente ao sistema patriarcal esmagou e continua esmagando os sonhos, aspirações e os talentos das mulheres de ontem e hoje. O filme de Aïnouz mostra como a misoginia e a opressão de gênero — estruturais da sociedade — moldam as relações das mulheres entre si e com os homens que as dominam. “São personagens que estão o tempo inteiro tentando colocar a cabeça para fora d’água e sempre tem alguém empurrando para baixo”, resume o cineasta.

A violência patriarcal que Eurídice e Guida sofrem — embora de maneiras diferentes — fica evidente na narrativa. Eurídice vive um casamento que a oprime, ao passo que Guida precisa vencer o desafio de viver na pobreza e criar um filho sozinha. Essas adversidades fazem com que as personagens se tornem invisíveis não apenas entre si, mas também no contexto social como um todo.

“Tem algo extremamente tóxico no comportamento desses homens em relação às mulheres — e eu acho que isso é a base do fascismo de alguma maneira. Tem algo que é politicamente muito impressionante com o desespero masculino de se manter no poder; isso me interessou não só por questões afetivas, mas por questões políticas também”, afirma o diretor.

O que choca é o fato de esses resquícios da década de 1950 perdurarem até hoje: o sofrimento das mulheres, a invisibilidade e a opressão daqueles tempos ainda são realidade hoje. A sororidade e a força feminina, também. É claro que houve grandes avanços e conquistas para as mulheres de lá para cá, mas, como destacou Karim Aïnouz, “o comportamento masculino é absolutamente idêntico”.

A equipe de produção do filme é composta por várias mulheres. A uruguaia Inés Bortagaray é co-roteirista; a francesa Hélène Louvart assina a direção de fotografia; e a belga Heike Parplies é a responsável pela montagem do longa. Além disso, A Vida Invisível tem Fernanda Montenegro como atriz convidada para viver Eurídice durante sua maioridade.

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