Larissa Galli
Especial para o Jornal de Brasília
Neste fim de semana acontece a 90ª edição da premiação mais importante do cinema mundial: o Oscar 2018. Nas redes sociais e durante as cerimônias que precedem a cerimônia, mulheres artistas se uniram para protestar pelo pouco protagonismo feminino nas telonas e por trás das câmeras; pela diferença salarial ainda constante nos sets de produções; e, principalmente, para denunciar o assédio sexual e moral que muitas sofreram e ainda sofrem por parte de seus colegas de profissão – representadas pelo movimento #MeToo.
Por outro lado, com o desenvolvimento do movimento feminista e as mudanças de paradigmas relacionados à imagem da mulher, uma nova forma de abordar a figura feminina ganha força e é retratada nas telas de cinema do mundo. Esta edição do Oscar traz feitos históricos para as mulheres. Greta Gerwig, por exemplo, foi indicada a melhor diretora por Lady Bird – A Hora de Voar, se tornando a quinta mulher na história a concorrer na categoria em 90 anos. Ela é o único nome feminino entre os indicados. Este ano a Academia também indicou a primeira mulher a melhor direção de fotografia. Rachel Morrison concorre na categotia por Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi.
Para a professora universitária de Semiótica Flor Marlene, as participações femininas no Oscar deste ano se mostraram um avanço. “Aos poucos, as participações femininas estão ocupando o papel principal no cinema, trazendo temas como a mulher no mercado de trabalho, sexualidade, machismo. Trata-se de protagonistas que lidam com alegorias do real, como no filme A Forma da Água, que é um questionamento sobre o mundo atual, opina.
Apesar de ter sido dirigido por um homem consagrado no mundo cinematográfico, Guillermo Del Toro, A Forma da Água, traz uma protagonista feminina. “O progressivo avanço das mulheres no cinema está diminuindo o poder patriarcal de representação da imagem da mulher”, pontua a professora. O filme é o líder de indicações nesta edição do Oscar, concorrendo a 13 estatuetas, entre elas a de melhor filme.
Outra criação de um homem, o dramaturgo, diretor e roteirista britânico Martin McDonagh, Três Anúncios para Um Crime – indicado a sete estatuetas, incluindo de melhor filme – também tem como protagonista uma mulher. Uma das grandes favoritas ao Oscar de melhor atriz, Frances McDormand entrega atuação forte no papel de uma mãe em busca de justiça.
Em uma pesquisa divulgada em 2016 sobre análise de gênero e nomeações, a organização Women’s Media Center (Centro de Mídia da Mulher), mostrou que as mulheres ocupam um lugar pequeno no Oscar. Elas representaram apenas 19% dos indicados em categorias que não são de atuação nas edições do Oscar de 2006 a 2015, e foram mais presentes em categorias como melhor figurino e direção de arte. “Pode-se notar que a participação feminina mais presente nos últimos anos tem gerado mais debate sobre o funcionamento das premiações e das produções cinematográficas”, afirma Flor Marlene.
“Lidar com estereótipos que foram sendo construídos ao longo dos tempos sobre o feminino como a erotização, sexualização, desigualdade e racismo não é fácil pois os homens são maioria na produção audiovisual. De qualquer forma, essa tendência parece estar mudando”, finaliza.