Jessica Antunes
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Zeneida Lima de Araújo vê, ouve e sente coisas difíceis de explicar. De pele cabocla que disfarça os 83 anos de vida, a senhora coloca os pés descalços firmes ao chão para sentir a terra e não nega o sol do meio-dia em solo fervente: é a natureza que a fortalece. Pajé, a mulher tem o dom da cura. Sua história de descobrimento xamanista, perseguição religiosa e cuidado com o meio ambiente virou inspiração para o novo longa da cineasta Tizuka Yamazaki, Encantados, que levou quase uma década para ser lançado.
A pajé diz trazer no sangue os poderes da magia e da cura herdados do bisavô índio marajó. Desde os 11 anos ela é instrumento de manifestação dos Caruanas, lendários seres amazônicos encantados e invisíveis. Com voz mansa e forte, Zeneida explica que ela faz o elo com as energias místicas da natureza em busca da cura física, mental e espiritual. Séria, ela não simula rituais: “Não é brincadeira”. “Muita coisa que aprendi nesse mundo não dá para acreditar mesmo. Eu sou uma pessoa diferente das outras”, completa a pajé.
O misticismo de Zeneida faz parte das crenças, da cultura, da herança e da história de Soure, maior distrito da Ilha do Marajó a oeste da foz do rio Amazonas. A quase cem quilômetros de Belém do Pará, o acesso à região depende de pelo menos duas horas de balsa. A área é rica em praias de água doce com areia branca, manguezais e culinária típica.
- Vida da pajé Zeneida Lima é contada em produção, que chega aos cinemas no início do ano que vem
- Carolina Oliveira e Thiago Martins em cena do longa-metragem
A maior parte da obra, coproduzida pela Globo Filmes e pela Scena Filmes, foi rodada em Soure, que recebeu a película em primeira mão. Na maior praça da cidade, duas mil pessoas acompanharam mais de uma hora de filme sem desviar o olhar. As quase 900 cadeiras disponibilizadas pela organização não foram suficientes e o jeito foi levar assentos de casa ou ficar em pé. Os burburinhos indicavam reconhecimento, surpresa e compreensão das histórias contadas na telona.
Entre os mistérios envolvidos na trajetória incomum de Zeneida, sua transformação de criança comum em mulher pajé é o gancho para o enredo da obra. O filme acompanha suas transformações, que vão desde a incompreensão sobre seus dons, passando pela repreensão da família, até a descoberta de seu primeiro amor – um ser místico e proibido que só ela podia ver.
Uma década para chegar à telona
Protagonizado por Carolina Oliveira, Encantados tem no elenco nomes como Letícia Sabatella, como a mãe Zezé; José Mayer, como o pai, político e advogado Angelino; Dira Paes, como empregada da família e narradora da película; Thiago Martins, como o par romântico Antônio; e Fafá de Belém, como Alaci.
Já Ângelo Antônio representa o pajé Mestre Mundico, que ajudou Zeneida a seguir o destino do pajeísmo. “A grande força do filme, independente da crença, é a relação com a natureza, com nossas raízes. É o que tem de mais atual no filme e transcende qualquer coisa”, acredita o ator.
A intolerância influenciou a demora para a produção do filme. Após quase uma década do início das gravações, o longa deve finalmente entrar no circuito comercial nacional no primeiro trimestre de 2018 – em 200 salas, incluindo Brasília. Antes disso, em dezembro, começa a ser exibido no Pará.
Segundo a cineasta Tizuka Yamazaki, a produção ficou parada por falta de orçamento: “Ninguém queria investir em um filme sobre uma pajé. Essa dificuldade reflete o que está acontecendo no País”.
Zeneida, de carne, osso e misticismo, vê, no filme, a possibilidade de apresentar a cultura às comunidades distantes e de reforçar a importância da preservação ambiental. “A natureza é quem guia e olha por tudo e todos, Tizuka soube respeitar o tempo da pajé e das entidades. É um grito pela natureza e uma eternização da memória dos Caruanas e dos pajés. É o que sempre lutei”, comemora.
A repórter viajou a convite da produção do filme.
Saiba mais
- Orçado em R$ 10,5 milhões, Encantados foi feito com pouco mais de R$ 6 milhões. Teve de ser editado, cortado e alterado ao longo dos anos. “Foi teimosia”, diz Tizuka Yamazaki sobre a insistência em fazer o filme, apesar das dificuldades. A cineasta usou o livro O Mundo Místico dos Caruanas da Ilha do Marajó, autobiografia de Zeneida Lima, como ponto de partida para a construção do filme.
- A cineasta já havia dirigido obras focadas na religiosidade, como Gaijin – Ama-me Como Sou (2005) e Aparecida – O Milagre (2010). Suas maiores bilheterias são os longas estrelados por Xuxa – Lua de Cristal (1990), Xuxa Requebra (1999) e Xuxa Popstar (2000).

