Beatriz Castilho
cultura@grupojbr.com
Entre batidas e melodias, uma infinidade de sons pode ser explorada. Instigando a forma mais pura da música, composições não cantadas viajam entre o clássico e pop, não caracterizando um gênero ou estilo único. Quem quiser conferir essa vertente cultural , que tem como palco o Setor de Diversões Sul (em frente ao Conic), tem três dias para se deixar levar pela boa onda. Melhor ainda: de graça. É o Música na Árvore Instrumental Jazz,no ar a partir das 18h, de hoje a sexta-feira.
O brasiliense GuitarrÁfrica é um dos destaques do festival. Formado por Dillo D’Araújo (guitarras), Lucas Tufas (baixo), Robinho Batera (bateria), o grupo assina um som híbrido, que mistura referências da guitarrada paraense com matrizes africanas.
A fusão sonora surgiu quando Dillo tocava, ainda em carreira solo, em Londres (Inglaterra). Após uma apresentação, o músico teve questionada a sua nacionalidade, ao ouvir que seu som tinha sotaque africano. “Depois disso mergulhei em pesquisa, e um ano depois fui para a África do Sul investigar”, conta. “Descobri que lá tocam guitarras feitas a partir de latas de óleo, produto do qual, nos anos 1970, o o país era um dos exportadores do mundo.”
Assim, fazendo um intercâmbio com a guitarra, que já dominava, Dillo abraçou a música instrumental. “Na África aprendi que toda música é instrumental. O que difere é se tem ou não algo fazendo você pensar no que está sendo dito. É muito poético o jeito como eles definem música”, avalia.
Apresentando pela primeira vez o trabalho na capital, o GuitarrÁfrika tem no festival uma fase de teste , além de participar ativamente do álbum que a banda pretende lançar. “O disco vai se chamar Visual porque vai ser algo para assistir”, antecipa o músico.” Já está em fase edição, tem imagens de shows do Chile, imagens da África, e inclusive imagens que faremos dos shows desta semana.”
Nesta quarta, após a apresentação da banda, outro nome brasiliense ganha a cena do evento. Formado em 2015, a banda Transquarto busca inspiração no pop e no underground para assinar um som instrumental alternativo. Amanhã é a vez de Mario Noya, que traz uma mistura de jazz, bossa nova e samba.
No fechamento do festival, o destaque é Leo Gandelman. O veterano saxofonista conta com um repertório que relembra sucessos de sua carreira, subindo ao palco com Eduardo Farias (teclado), Alberto Continentino (baixo) e Cassius Thepersson (bateria). “Estou com uma banda que me acompanha há muito tempo, então já tem uma integração muito forte e um som muito próprio”, diz. “Estou muito contente de tocar produções minhas e em uma circunstância tão específica.”
Leo entende os shows gratuitos e abertos ao público como uma admirável abertura para a difusão cultural. “A importância desse evento é dupla, tanto para o público, que tem acesso garantido, quanto para o próprio artista”, avalia. “Hoje em dia é tudo muito concorrido, então é uma oportunidade do artista estar perto do público.”
O músico aponta que a música instrumental não é muito consumida no Brasil. “O que caracteriza o estilo é a ausência de um canto, então é um universo que vai de Beethoven ao jazz”, resume. “Eu faço arte alternativa, aquela que não está ligada a interesses comerciais. Trabalho com meu sonho musical, não produzo para o mercado.”
O projeto
Música na Árvore surgiu em 2012, em uma versão mais simplificada. “A primeira era muito básica, de forma muito artesanal, era literalmente um banquinho e um violão, embaixo de uma árvore”, conta o produtor do evento, André Trindade. ” Aí fomos ganhando patrocínio e conseguimos crescer mais.”
Atualmente, o projeto conta com o Fundo de Apoio à Cultura (FAC) e um financiamento da Lei de Incentivo à Cultura do governo gederal. Para André, o patrocínio foi uma forma de sofisticação, mas também um desafio. “Hoje contamos com estrutura de palco e som, mas queremos a essência do primeiro evento, gostamos dos passantes e dos bêbados que chegam.”
Carregando jazz no nome, o Música aposta na democratização do gênero. “O jazz é popular”, afirma o produtor. “Começou com instrumentos de sopro que americanos acharam na rua, surgiu em em cabarés e sofreu diversos preconceitos. O que ninguém sabe é que ele permeou nossa cultura. Ninguém percebe porque as pessoas não têm acesso. Ele acredita que, ao se acostumar com o estilo, o público cria ouvidos mais apurados.
Além de democratizar a arte, ocupar o espaço público da cidade é um dos pontos principais do festival. “Quando você permite que pessoas tenham acesso à cidade, muda a percepção social dos que transitam; as pessoas começam a olhar aquele lugar como delas, além de criar um sentimento de pertencimento”, conclui.
Saiba Mais
E não para por aqui. Na semana que vem, o jazz volta a movimentar a cidade – também com programação 0800. Nos dias 3, 4 e 5 de agosto, o Cerrado Jazz Festival anima o Caixa Cultural Brasília (Setor Bancário Sul) a partir das 20h. Informações: 3206-9448.
Além disso, o 4º Festival BB Seguros de Blues e Jazz acontece no sábado, 4, a patir das 14h, no Estacionamento 4 do Parque da Cidade. Também contando com Leo Gandelman na programação, o evento recebe nomes como Marlene Souza, Bando, Lil Jimmy Reed, Pepeu Gomes e Al Di Meola. Informações: facebook.com/festivalbbseguros. Classificação livre.
Serviço
Música na Árvore Instrumental Jazz
Local: Setor de Diversões Sul (em frente ao Conic)
De hoje a sexta-feira, apartir das 18h
Entrada franca.
Classificação indicativa livre.