Estava saindo da academia em Leblon com as minhas amigas, todas suadas e de chinelo, quando uma delas enfiou o celular na minha cara com o vídeo da Virginia. Um macaco. Um beijo. Dubai. “Que pegada foi essa?”, brincou ela na legenda. Meu queixo quase tocou o asfalto da Dias Ferreira.
O vídeo, gravado num zoológico dos Emirados Árabes durante uma viagem de pós-término, circulou na mesma semana em que Virginia confirmou o fim do relacionamento de seis meses com Vinícius Júnior, ocorrido no dia 15 de maio. Vini Jr. é, sem exagero, o jogador da sua geração que mais sofreu ataques racistas dentro e fora de campo, com episódios vergonhosos na Espanha que mobilizaram chefes de Estado e organismos internacionais. A maior influenciadora da América Latina postou um beijo de despedida num primata e legendou com piada.
O comediante Yuri Marçal foi direto num vídeo que viralizou imediatamente: quando você convive por quase um ano e mora sete meses com um homem negro que toda semana tem a imagem associada a macacos por racistas europeus, e quatro dias depois do término você posta exatamente isso, a palavra mínima é irresponsabilidade. Marçal lembrou ainda que Virginia não tem o direito de alegar desconhecimento, pois presenciou episódios de racismo ao lado de Vini Jr. e sabe melhor do que ninguém o público que carrega nos seus 60 milhões de seguidores.
Nos comentários do post original, os ataques racistas contra Vinícius apareceram em minutos. “Voltaram?”, ironizava um. “Pelo menos é mais bonito que o ex”, dizia outro. Virginia não se manifestou, não pediu que parassem, não deu qualquer sinal de incômodo com o que estava sendo dito no seu próprio feed. A pesquisadora Carla Akotirene chamou o episódio de racismo recreativo. Os defensores da influenciadora correram para lembrar que ela visitou o mesmo zoológico em agosto do ano passado com os filhos, como se a repetição do passeio resolvesse a questão do contexto.
Aqui entre nós, Virginia Fonseca tem um histórico extenso de saber exatamente o que faz para virar pauta: já ganhou CPI por divulgar pirâmide financeira e continua maior do que nunca. Desta vez, porém, o resultado não foi só view. Foi mais racismo num homem que passa a vida inteira tentando se livrar exatamente disso. Dar o beijo, rir, legendar com piada e sair calada é uma escolha. E como diria Yuri Marçal com aquela voz de quem não queria ter que explicar o óbvio: escolha tem nome.