Estava aqui em Bari, sentada no calçadão com um espresso duplo e o Adriático do lado, quando minha fonte me mandou a entrevista do Walcyr Carrasco ao O Globo. Li de uma vez, botei o copo na mesa com cuidado e pensei: esse homem é uma aula. Não de novelista, de postura de vida mesmo.
Em 2023, Walcyr caiu, quebrou o fêmur e passou a se locomover primeiro de cadeira de rodas, depois com andador. No último Réveillon, postou foto de bengala explicando que havia “aposentado” o andador e ainda hoje faz uma ou duas sessões de fisioterapia por semana. Enquanto isso, acordava às 11h, escrevia a tarde toda e ia para a academia às 19h. A nova novela das nove, Quem Ama Cuida, estreia em 18 de maio com Leticia Colin como protagonista fisioterapeuta, uma homenagem direta às suas próprias terapeuta.
No bastidor da produção, uma novidade de peso: ele divide a autoria com Claudia Souto e fez questão de deixar claro que ela é coautora, não colaboradora. “A gente cria junto”, afirmou. A novela ainda conta com Wendell Bendelack, Martha Mendonça, Julia Laks e Bruno Segadilha na equipe, mas Walcyr avisou com todas as letras que não passa uma palavra sem passar pelos seus olhos.
A virada mais bonita da história é essa: o homem quebrou o fêmur, conviveu com fisioterapeuta durante meses, absorveu aquele universo inteiro e colocou tudo na protagonista da sua novela. É o tipo de escritor que transforma dor em personagem sem fazer drama, sem pedir palmas. A cena do andador virou roteiro. O trauma virou trama.
E para quem anda sugerindo caixão toda vez que ele pega uma gripe, Walcyr foi direto: tratar velhice como doença é o que adoece as pessoas. Com 74 anos, acorda às 11h, escreve até a noite e ainda tem coautora para discutir ideia. Eu, na faixa dos meus aqui em Puglia, precisei ler duas vezes só para ter certeza que não era ficção.