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Kátia Flávia
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“Você não sairia daqui hoje”: Porta dos Fundos revela ameaça da milícia após piada

Fábio Porchat, Gregório Duvivier e João Vicente de Castro contaram no Conversa com Bial que integrantes do grupo sofreram ameaças, intimidação e até precisaram de segurança depois de sátiras sobre policiais e milicianos.

Kátia Flávia

16/07/2026 8h15

Fábio Porchat, Gregório Duvivier e João Vicente de Castro falaram sobre ameaças ao Porta dos Fundos

Fábio Porchat, Gregório Duvivier e João Vicente de Castro falaram sobre ameaças ao Porta dos Fundos

Integrantes do Porta dos Fundos relataram episódios de ameaça e intimidação após a publicação de uma esquete sobre policiais e milicianos no Rio de Janeiro. Fábio Porchat, Gregório Duvivier e João Vicente de Castro falaram sobre o caso no Conversa com Bial, exibido na terça-feira (14), durante a comemoração dos 15 anos do coletivo.

Acordei no Cosme Velho com aquele solzinho frio de 17 graus entrando pela janela, uma paz falsa que o Rio adora vender antes de entregar uma bomba. Abri as cortinas, botei água para ferver e achei que a quinta-feira ia começar mansa, com café, silêncio e uma fruta cortada sem drama. Aí veio Porta dos Fundos falando de ameaça de morte, milícia e blitz sinistra. Minha filha, o pão nem tinha ido para a chapa e o Brasil já estava me servindo tensão com manteiga.

 João Vicente relatou abordagem em blitz e frase intimidatória atribuída a policial
João Vicente relatou abordagem em blitz e frase intimidatória atribuída a policial

No programa, Porchat afirmou que a reação ao humor passou muito longe de uma simples crítica. “A gente faz uma piada e a pessoa fica tão mexida com isso que joga bomba e ameaça de morte”, disse o humorista, lembrando que o grupo já enfrentou situações graves por causa de esquetes e especiais.

Gregório Duvivier contou que viveu cerca de três meses acompanhado por segurança. A proteção, segundo ele, chegou a fazer parte até de momentos pessoais, inclusive quando levava a filha, então com dois anos, para brincar. “Foi uma época muito tensa”, afirmou.

E aqui a gente precisa parar a xícara no pires. Uma coisa é não gostar de uma piada, reclamar, escrever textão ou deixar de acompanhar um humorista. Outra é transformar artistas em alvo, obrigar uma criança a conviver com seguranças e criar um ambiente de medo. Isso já não tem relação com liberdade de expressão. Tem relação com intimidação.

João Vicente de Castro relatou um episódio ainda mais pesado. Segundo ele, estava em um carro com Ian SBF e Gabriel Totoro quando o grupo foi parado em uma blitz. O policial teria retido os três por cerca de duas horas e, antes de liberá-los, soltado a frase: “Se eu fosse da velha guarda, você não sairia daqui hoje”.

Eu li isso e fiquei olhando para a chaleira como quem espera que ela explique o país. Porque essa frase não soa como uma advertência comum. É o tipo de declaração que fica ecoando muito depois de a abordagem terminar.

Os integrantes não informaram quando a blitz aconteceu nem identificaram o policial. O relato foi apresentado como parte do ambiente de tensão vivido pelo Porta dos Fundos após sátiras envolvendo agentes de segurança e milicianos.

Porta dos Fundos já foi alvo de atentado com coquetéis molotov em 2019
Porta dos Fundos já foi alvo de atentado com coquetéis molotov em 2019

O grupo também relembrou o atentado sofrido em 24 de dezembro de 2019, quando coquetéis molotov foram lançados contra sua sede, no Rio de Janeiro. A investigação apontou que o ataque foi motivado pela reação extremista ao especial de Natal “A Primeira Tentação de Cristo”, que retratava Jesus em uma relação homoafetiva. O atentado foi reivindicado por um grupo de inspiração integralista, e Eduardo Fauzi, apontado como um dos envolvidos, deixou o Brasil antes de ser preso na Rússia.

O que mais chama atenção não é apenas o conteúdo das ameaças, mas o fato de artistas precisarem incluir episódios como esses na própria trajetória profissional. Humor pode provocar, dividir opiniões e gerar críticas. Mas quando uma piada passa a ser respondida com violência, intimidação ou medo, a discussão já deixou de ser sobre comédia há muito tempo.

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