Porque a real é que você cresceu ouvindo a voz dele em tudo quanto é tela. No desenho da manhã, no anime da tarde, no filme da Sessão da Tarde, na comédia teen que você viu escondido, no streaming que você maratona hoje em 4K. Você só não sabia que aquela mesma voz tinha um nome, um rosto, uma história. Então, entre um gole de café e uma tentativa de não borrar o rímel, eu sentei para organizar o luto em forma de lista. Sete momentos em que a voz de Figueira Júnior marcou a sua vida e você nem se deu conta.
Primeiro momento
O dia em que você conheceu um entregador do ano 3000 e achou que aquela era a voz original
Talvez você estivesse zapeando na TV por assinatura, talvez tenha encontrado depois no streaming, mas uma hora da sua vida você cruzou com um ruivo meio perdido chamado Fry em Futurama. Ele gritava, se apaixonava, fazia drama, se jogava no sofá, errava tudo e, no fundo, era só um adulto atrasado tentando sobreviver num mundo que ele não entendia direito. Quem dava o tom desse caos em português era Figueira Júnior. Você ria do desespero dele, repetia as frases, se identificava com o fracasso alheio e jurava que o personagem “falava assim mesmo”. A dublagem era tão natural que você nunca se perguntou quem estava por trás daquele jeito de falar, daquele timing de piada, daquela voz que parecia amigo seu da faculdade. Pois é. Era ele.
Segundo momento
Quando o Androide 17 virou quase um crush e você sabia cada fala de cor
Agora sai da comédia espacial e volta para o fim de tarde na TV aberta. Você de uniforme escolar, lanche improvisado, ligada em Dragon Ball. No meio de tantos guerreiros, saiyajins e vilões megalomaníacos, aparece um androide de cabelo perfeito, olhar frio, poucas palavras e presença suficiente para roubar a cena. O Androide 17 entra primeiro como ameaça e, aos poucos, vira aquele anti-herói que você respeita, teme e secretamente acha estiloso demais. A voz firme, contida, levemente irônica dele também era Figueira. O mesmo cara que fazia o Fry perder o rumo no espaço dava esse tom gélido e elegante para o 17. Você respondeu a chamada da professora imitando fala de anime, discutiu poder de luta no recreio, defendeu arco de personagem em fórum de internet, sem imaginar que estava repetindo o texto que passou pela garganta do mesmo dublador.
Terceiro momento
A tarde em que você chorou em filme clássico sem ouvir uma única frase em inglês
Agora corta para um domingo qualquer. Televisão ligada na sala, almoço meio pronto, alguém da família deitado no sofá, aquele clima de preguiça coletiva. De repente, entra um filme que todo mundo já viu, mas ninguém muda de canal. Pode ser um drama de prisão, um clássico de superação, aquele título que a gente chama carinhosamente de filme de Sessão da Tarde, mesmo que passe em outro horário. Você se envolve com a história, se apega ao protagonista, vibra com a reviravolta, sente um nó na garganta com o final. E tudo isso em português, com uma voz que te entrega emoção sem precisar de legenda. Em muitos desses momentos, era Figueira por trás de um personagem secundário importante, de um amigo do herói, de alguém que fala pouco, mas marca. Você chora na dublagem, não na língua original. E é ele que conduz essa emoção sem assinar em lugar nenhum.
Quarto momento
O desenho de criança que embalou o seu café com leite
Nem só de anime e drama vive a nossa memória. Te lembra da fase em que sua maior preocupação era acordar cedo no fim de semana para não perder desenho? Ou, se você já era mais velha, daquela criança na família hipnotizada em frente à TV enquanto os adultos tentavam conversar? Bob o Construtor entrava nessa faixa, com cenários coloridos, fala mansa, ritmo de historinha para acalmar criança agitada. No meio de tratores fofos, ferramentas falantes e musiquinhas de “podemos consertar”, adivinha quem estava ali, emprestando a voz a um dos personagens? Ele de novo. O mesmo dublador que segurava grito de batalha em anime fazia a delicadeza necessária para falar com criança de quatro anos sem soar bobo demais. Figueira atravessou a infância de muita gente no modo automático, construindo lembranças enquanto você só prestava atenção no bonequinho de capacete.
Quinto momento
O recreio em que o barulho de baralho era trilha de anime
Se você viveu a febre de Yu Gi Oh, sabe exatamente do que eu estou falando. Pátio da escola, mesa improvisada, carteiras empurradas, baralho batendo com força, gritos de “seu monstro perdeu”, aquela dramaturgia adolescente que só um duelo de cartas poderia proporcionar. Quando você corria para casa para assistir ao episódio do dia, havia uma voz em especial, mais misteriosa, com um ar de segredo antigo e responsabilidade mística. Era um dos personagens coadjuvantes, daqueles que aparecem em momentos específicos da história, mas deixam um clima de importância no ar. Quem fazia essa voz também era Figueira. Enquanto você imitava ataques no recreio, decorava nome de carta e jurava que ia ser duelista profissional, a interpretação dele dava o peso dramático que o desenho precisava para parecer maior que um simples anime de baralho.
Sexto momento
A comédia adolescente que você viu escondido dos pais
Agora vamos para aquela fase em que você descobriu que dava para rir de sexo, vergonha alheia e adolescência em crise. Você talvez tenha alugado um DVD, pego uma fita emprestada, assistido no canal de filme tarde da noite, volume baixo para ninguém ouvir da sala. Comédia teen, grupo de amigos, festa que dá errado, namoro atrapalhado, família sem noção. No meio disso tudo, um protagonista desastrado, cheio de ansiedade, tentando sobreviver à própria juventude. E a voz dele, em português, tinha um tom de nervoso constante, de “não sei se rio ou se choro”, que te fazia se identificar. Essa voz também era de Figueira. Ele fez você rir de situações constrangedoras que você ainda nem tinha vivido, deu som a um certo tipo de humor que virou referência de adolescência dos anos 2000. E você ali, rindo escondido, sem a menor ideia de quem era o homem por trás daquele timbre.
Sétimo momento
Hoje, o dia em que você descobre o nome da voz que sempre esteve com você
E aí chegamos a este momento, o mais cruel e, ao mesmo tempo, o mais bonito. Você acorda, pega o celular, abre a rede social ou o site de notícias e leva o choque: morreu Figueira Júnior, dublador de Dragon Ball, Futurama e tantos outros. Você lê, passa reto, volta, lê de novo. Vai atrás de lista de personagens, vê trechos de dublagem, começa a somar tudo na cabeça. O entregador do futuro, o androide silencioso, o coadjuvante da Sessão da Tarde, o místico do anime de cartas, o menino sem noção da comédia teen, o personagem do desenho infantil. De repente faz sentido. Você percebe que está de luto por alguém que acompanhou você da infância à vida adulta, do canal infantil à plataforma de streaming, da TV de tubo à smart TV. E esse é o sétimo momento em que a voz dele marca sua vida. O dia em que, finalmente, você sabe o nome do homem que sempre esteve ali no fundo da sua memória sonora.
Se hoje eu estou saindo de casa tarde, com o café esfriando na xícara e o coração um pouco apertado, é porque não dá para fingir que é só mais uma nota de morte. É uma despedida de tudo isso que a gente viveu sem saber quem estava segurando o microfone. Então faz um favor para você e para ele. Reassiste um episódio com o Fry, revê um arco do Androide 17, coloca aquele filme antigo que você sabe as falas na ponta da língua. Não é só nostalgia. É homenagem. É a forma que a gente tem de dizer para Figueira Júnior, atrasado, mas sincero: obrigado por ter falado com a gente esse tempo todo, mesmo quando a gente não sabia seu nome.