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Kátia Flávia
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Vila Isabel leva “Torto arado” para a Sapucaí e promete chão quente em 2027

Escola vai transformar o best-seller de Itamar Vieira Junior em enredo sobre luta quilombola, terra e jarê, religião de matriz africana da Chapada Diamantina ainda inédita na Avenida. Quando literatura encontra tamborim, meu amor, até página vira chão de desfile

Kátia Flávia

13/05/2026 17h15

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Cartaz do enredo da Vila Isabel para 2027 adapta o romance premiado de Itamar Vieira Junior

A Vila Isabel anunciou que vai levar “Torto arado” para a Sapucaí em 2027, e a notícia me pegou já saindo daquele almoço em Ipanema, com os óculos escuros de volta no rosto e o motorista tentando vencer uma tarde carioca que já começava a ferver. Bastou o celular apitar com Vila, Itamar Vieira Junior, jarê e Chapada Diamantina para eu esquecer completamente a sobremesa. Amores, isso aqui não é só enredo: é literatura descendo a Avenida de cabeça erguida.

A escola branca e azul do bairro de Noel Rosa vai desfilar com o enredo “Torto arado – sobre a terra há de viver sempre o mais forte”, desenvolvido pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, em parceria com o pesquisador Vinícius Natal. A proposta é adaptar para o carnaval o universo do romance publicado por Itamar Vieira Junior em 2019.



O livro virou um fenômeno da literatura brasileira. Venceu os prêmios LeYa, Jabuti e Oceanos, passou de 1 milhão de cópias vendidas e ganhou traduções para diversos idiomas. A obra é marcada pela força das personagens femininas, pela luta pela terra e pelo cenário da Chapada Diamantina, no sertão da Bahia.
Gabriel Haddad contou que o enredo começou a ser pensado em 2023, quando os carnavalescos perceberam que o universo do jarê, religião de matriz africana específica da Chapada Diamantina, nunca havia sido celebrado na Marquês de Sapucaí.

Leonardo Bora, professor do departamento de Ciência da Literatura da UFRJ, explicou que a adaptação não será literal. “A linguagem de um desfile de escola de samba é única”, disse. Segundo ele, Itamar pediu liberdade criativa aos carnavalescos. “Este exercício da liberdade, que é um dos temas pulsantes do livro, é algo fundamentalmente bonito”, afirmou.

O pesquisador Vinícius Natal destacou que o tema conversa com a própria história da Vila Isabel. Ele lembrou que a escola tem tradição de enredos ligados à luta, à terra, ao pós-abolição e às violências da estrutura fundiária brasileira.

Itamar Vieira Junior também celebrou a adaptação. “Ver ‘Torto arado’ ganhar vida em uma adaptação para o carnaval, por meio do enredo da Vila Isabel, é algo que me emociona profundamente. O samba tem a capacidade de ampliar vozes, de transformar memória em celebração e resistência. É uma honra ver essa história ocupar a Avenida e encontrar o povo”, declarou o escritor.

A Vila Isabel será a quarta escola a desfilar no domingo de carnaval de 2027, em 7 de fevereiro. Até lá, a expectativa é grande, porque “Torto arado” chega à Sapucaí carregando literatura, ancestralidade, luta quilombola e uma religião de matriz africana ainda inédita na avenida.

A parte mais bonita dessa história é que o carnaval vai fazer o que sabe fazer quando está inspirado: pegar uma obra que já abriu caminho nas livrarias e devolver para o povo em forma de canto, corpo, tambor, alegoria e chão. “Torto arado” nasceu da terra. Agora vai ganhar avenida. E se a Vila acertar a mão, minha filha, a Sapucaí vai virar página viva.

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