A CBF não pretende fazer uma “caça às bruxas” no elenco da Seleção Brasileira após a eliminação para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo. Segundo O Globo, a avaliação interna é de que a renovação já vinha acontecendo antes do Mundial e que o próximo ciclo, rumo à Copa de 2030, deve começar com a palavra continuidade.
Eu estava no Cosme Velho tentando convencer meu corpo de que a viagem tinha acabado, quando sentei na cozinha, encostei o passaporte ao lado da fruteira e abri essa notícia. O Rio de Janeiro lá fora seguia ensolarado, friozinho, com cara de recomeço, mas a CBF acordou com energia de “vamos fingir que está tudo sob controle”. Minha filha, depois de cair para a Noruega, continuidade é uma palavra que precisa entrar em campo com atestado médico.

A ideia da entidade é evitar uma ruptura brusca, mesmo depois do fracasso. O comando técnico seguirá com Carlo Ancelotti e sua comissão, e a lógica para o elenco também deve ser de avaliação gradual, não de reformulação total.
Rodrigo Caetano, coordenador executivo das seleções masculinas, defendeu que a Seleção já vinha dando espaço a atletas mais novos. Ele citou jogadores que ganharam oportunidades e lembrou que Rayan, inicialmente fora dos cotados para começar jogando, terminou a Copa como titular.
“Nós tivemos muitos jogadores jovens. Inclusive os que, em muitos momentos, tiveram oportunidade de iniciar”, afirmou.
O problema é que os números não ajudam tanto essa tese. A Seleção Brasileira teve a quinta maior média de idade da Copa, com 29,5 anos. Dos 26 convocados, apenas dois tinham menos de 25 anos: Endrick e Rayan, ambos com 19.
Ou seja, se isso era renovação, era renovação com freio de mão puxado. Tinha promessa jovem orbitando, tinha nome lesionado, tinha gente de fora, mas o grupo que caiu nas oitavas ainda carregava muitos jogadores em fim de ciclo.
A CBF também cita os lesionados como parte do contexto. Wesley, de 22 anos, foi cortado às vésperas da estreia, e Estêvão não foi convocado porque se machucou em abril e não se recuperou a tempo.
Caetano, porém, evitou transformar isso em desculpa. “Se eu falar disso, nós vamos ficar na justificativa. E acho que não é essa a pauta no momento”, disse.
Ele prometeu uma revisão no começo do ciclo e afirmou que refletir sobre erros é obrigação, especialmente após uma queda nas oitavas. “É natural que nós vamos avaliar tudo. Mas não por conta da média de idade”, declarou.
Alguns nomes, no entanto, já parecem naturalmente fora da próxima Copa pelo momento da carreira. Neymar falou em tom de despedida após a eliminação, embora ainda possa participar de jogos no início do novo ciclo. Alisson, Casemiro, Marquinhos, Alex Sandro, Fabinho e Danilo Luiz também aparecem como atletas cuja história com a Amarelinha pode ter chegado ao fim.
Danilo foi direto ao falar sobre a transição. “Eu completo 35 anos e obviamente agora vou estar sempre na primeira fila como mais um torcedor por aqueles que continuam”, disse.
A geração intermediária deve assumir mais responsabilidade. Bruno Guimarães, Gabriel Magalhães, Rodrygo, Raphinha, Lucas Paquetá e Vini Jr. passam a ser vistos como nomes experientes para liderar os mais jovens no ciclo de 2030.
Vini Jr. prometeu seguir tentando. “Eu não vou desistir de tentar botar o Brasil de volta no topo”, afirmou.

Eu entendo que sair demitindo todo mundo no grito não resolve. Mas também não dá para vender continuidade como se o Brasil tivesse caído de pé. Caiu nas oitavas, contra a Noruega, com elenco envelhecido, Neymar em adeus melancólico e a sensação de que o país mais vencedor da Copa virou um projeto em manutenção eterna.
Se não vai ter caça às bruxas, ótimo. Mas precisa ter caça aos erros. Porque sem isso, 2030 começa com o mesmo discurso bonito, a mesma planilha otimista e o mesmo torcedor perguntando por que a Seleção parou de assustar o mundo.