Ao completar 40 anos, a psicanalista Vânia Euzébio escolheu uma forma diferente de celebrar. Em vez de uma festa, dedicou o aniversário a uma viagem missionária ao sertão do Piauí, levando seu tempo e sua profissão a pessoas sem acesso à saúde mental. A escolha transformou uma data pessoal em uma experiência de cuidado, escuta e solidariedade.
A viagem foi realizada pelo Viagem Missão, projeto do médico Jonathan Leoni, e teve o acolhimento do Projeto Água Viva, que há 11 anos desenvolve ações em Acauã. Durante oito dias, 15 profissionais da saúde participaram dos atendimentos em comunidades como Tanque de Cima, Campo Alegre, Bate-Maré, Jacobina e Posto Fiscal. A equipe reuniu diferentes especialidades, entre elas pediatria, ginecologia, fisioterapia, enfermagem, farmácia e saúde mental.

Para a Psicanalista, a decisão de participar da missão também representou uma forma de agradecer pela própria trajetória. O projeto missionário é conduzido por profissionais que acreditam que servir também é uma forma de demonstrar o amor de Deus.
“Eu vim doar o meu tempo, a minha vocação, para cuidar de pessoas em forma de gratidão.”
Foi a primeira vez que a psicanalista participou do projeto. Na área de saúde mental, ela esteve ao lado de outra psicanalista, uma psicóloga e uma neuropsicóloga. A demanda encontrada durante os atendimentos, segundo ela, foi muito maior do que imaginava.
Segundo Vânia, entre os pacientes, havia crianças que nunca tinham passado por terapia e adolescentes enfrentando situações de sofrimento emocional. A psicanalista também encontrou muitos casos de crianças neurodivergentes que nunca haviam recebido acompanhamento especializado.
O contato com os mais jovens acabou sendo um dos aspectos que mais a marcou. Em uma das situações, uma adolescente de 14 anos perguntou algo que surpreendeu a psicanalista. “Tia, o que é sonho?”

Em outro atendimento, uma menina da mesma idade contou que seu maior desejo era aprender a ler. Para Vânia, relatos como esses revelaram uma realidade distante daquela vivida nas grandes cidades.
Mais do que a falta de acesso a tratamentos, a experiência mostrou à profissional uma carência que também passava pelo afeto, pelas oportunidades e pela possibilidade de imaginar um futuro diferente.
“Poder fazê-las se sentirem importantes, ouvidas e capazes de sonhar foi, para mim, uma experiência impossível de traduzir em palavras”, relata.
A passagem pela comunidade de Bate-Maré foi especialmente difícil para Vânia. Segundo o relato da psicanalista, a região enfrenta limitações severas de infraestrutura e acesso a serviços básicos. Um dos principais problemas está relacionado à água.

Sem abastecimento encanado, moradores precisam percorrer longas distâncias para buscar água em uma barragem. Em alguns casos, o transporte é feito com animais ou carrinhos. A mesma água pode ser utilizada para banho, lavagem de roupas e, diante da falta de alternativas, para consumo.
A situação se torna ainda mais preocupante diante da redução do volume da barragem. Segundo os moradores, sem novas chuvas, existe a possibilidade de que a água disponível se esgote nos próximos meses.
Em meio a esse cenário, os atendimentos também revelaram histórias que ultrapassaram o consultório improvisado e permaneceram com Vânia Euzébio. Uma delas foi a de uma adolescente que havia passado por uma tentativa de suicídio poucos dias antes da missão.
Depois de conhecê-la durante uma palestra, a psicanalista teve a oportunidade de ouvi-la individualmente. A jovem carregava uma trajetória marcada por abandono, maus-tratos e sofrimento. Após o atendimento com Vânia e a avaliação de outros profissionais da equipe, ela recebeu o encaminhamento necessário.

Outra jovem, que perdeu a mãe ainda na infância, também marcou a profissional. No início do atendimento, ela se mostrou fechada e desconfiada, mas, aos poucos, foi se permitindo falar e se aproximar. Ao final do encontro, abraçou a profissional e sorriu, revelando uma mudança que também emocionou a psicanalista.
Houve ainda o caso de uma criança que perdeu a mãe de forma traumática quando tinha cinco anos. Anos depois, já na adolescência, carregava dificuldades relacionadas àquela perda. Durante o atendimento, contou que não possuía lembranças da mãe.
Vânia buscou trabalhar a memória afetiva daquela relação, ajudando a adolescente a resgatar lembranças positivas. O momento, segundo ela, terminou com um sorriso que ficou marcado em sua memória.
Para a psicanalista, a experiência mostrou que o cuidado em saúde mental também pode começar pela escuta e pela possibilidade de alguém se sentir visto.

A experiência também provocou uma reflexão sobre o próprio caminho profissional. Depois de anos de atuação, Vânia destaca que percebeu que aquele contato com pessoas que tinham pouco ou nenhum acesso à saúde mental representava uma forma diferente de exercer sua profissão.
“Durante esses dias, cheguei à conclusão de que agora eu cheguei ao meu sucesso profissional.”
Além dos atendimentos individuais, Vânia participou de atividades em duas escolas, onde foram realizadas palestras sobre ansiedade e depressão. Durante uma das ações, os adolescentes foram convidados a escrever, de forma livre, qual era sua maior dor.
Os relatos apontaram para uma realidade de sofrimento emocional, com casos de depressão e experiências de luto pela perda precoce de familiares.
Ao retornar para casa, Vânia diz levar mais do que as lembranças dos atendimentos. A missão também mudou sua percepção sobre aquilo que muitas vezes é tratado como básico.
“Eu sempre procurei ajudar e achava que já fazia o suficiente, mas essa experiência me mostrou que ainda é pouco diante de tanta necessidade.”
A viagem, que começou como uma forma de celebrar os 40 anos, terminou como uma experiência de transformação pessoal e profissional.
Para Vânia, o contato com aquelas comunidades reforçou a ideia de que nem sempre é possível resolver todas as dificuldades, mas que oferecer escuta, cuidado e esperança também pode abrir espaço para novos sonhos.
E foi justamente esse o presente que ela decidiu levar para o sertão, colocando a própria vocação a serviço de quem precisava, muitas vezes pela primeira vez, de alguém disposto a ouvir.