Ana Thaís Matos voltou ao centro da repercussão da eliminação do Brasil para a Noruega, mas agora por causa dos ataques que recebeu após criticar Neymar ao vivo. A comentarista da Globo expôs uma mensagem machista enviada por um internauta, que tentou desqualificar mulheres no jornalismo esportivo e mandou a jornalista comentar “Copa do Mundo de roupas passadas” e “louças limpas”.
Eu ainda estava no quarto do hotel em Nova York, tentando decidir se enfiava o adaptador de tomada na bolsa de mão ou na mala despachada, quando o print da Ana Thaís apareceu no celular. Parei tudo, porque tem comentário que não é opinião: é recibo de homem que não aguenta ver mulher falando de futebol sem pedir licença para o patriarcado de bermuda.

A nova treta começou depois da fala de Ana Thaís durante a transmissão da Globo. Na reta final da derrota brasileira, Neymar marcou o único gol da Seleção Brasileira, mas também provocou o goleiro da Noruega e se envolveu em confusão dentro de campo. A jornalista criticou a postura do camisa 10 e questionou a utilidade daquele comportamento em um momento decisivo.
“Bela participação do Neymar no jogo. Para quem esperava que ele fosse decidir a Copa do Mundo para o Brasil, tá aí arrumando briga na reta final da partida”, disse Ana Thaís. Everaldo Marques concordou na sequência: “Pra isso que ele veio?”.
A análise dividiu a internet. Parte do público apoiou a crítica, enquanto defensores de Neymar passaram a atacar a comentarista. Só que, como acontece sempre que uma mulher ousa analisar futebol sem pedir benção a comentarista de sofá, a discussão saiu do campo e foi parar no esgoto do machismo.
Em uma das mensagens expostas por Ana Thaís, um internauta escreveu que “cotas não dá certo” e sugeriu que mulheres deveriam organizar uma Copa do Mundo de “roupas passadas” e “louças limpas” para comentar “com propriedade”.
Minha filha, é de uma pobreza intelectual que nem VAR salva. O sujeito vê uma comentarista criticando um jogador em plena Copa, discorda, e em vez de argumentar sobre bola, tática, lance ou postura, corre para o velho armário da misoginia e tira de lá o pano de prato emocional.
Ana Thaís não deixou barato. Nos stories, ela publicou o print e rebateu com ironia: “Pior que homem burro, é homem feio. Imagina: feio e burro?”.
E aqui Kátia aplaude sentada, porque às vezes a resposta técnica já foi dada no ar. O resto é manutenção de autoestima diante de gente que acha que futebol é território masculino por escritura pública. Ana Thaís foi contratada para comentar jogo, não para servir silêncio a quem não suporta crítica ao ídolo.
O ponto principal agora não é mais se Neymar merecia ou não a bronca. Esse debate já aconteceu na transmissão e nas redes. A pauta é outra: a facilidade com que uma crítica esportiva feita por uma mulher vira pretexto para ataque misógino.

Homem pode gritar, xingar técnico, chamar jogador de pipoqueiro, pedir demissão de treinador e questionar escalação até perder a voz. Mas quando uma mulher aponta o dedo para a postura de Neymar, aparece alguém mandando lavar louça. Depois dizem que o futebol mudou. Mudou nada, meus amores. Só trocaram o radinho pelo celular.
Ana Thaís saiu maior dessa história justamente porque expôs o mecanismo. O hater tentou diminuí-la, mas acabou mostrando o tamanho do incômodo que uma mulher competente ainda causa quando ocupa uma cadeira de análise esportiva. E, convenhamos, se a crítica dela doeu tanto, talvez seja porque acertou mais forte do que muito chute da Seleção Brasileira.