Minha filha, eu estava aqui no Cosme Velho tentando falar com o pastor Silas Malafaia, procurando o pessoal da Assembleia de Deus, quando me aparece um vídeo do próprio homem distribuindo bronca para todos os lados. E não foi bronquinha de culto de domingo, não! Silas resolveu defender a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil e ainda mandou uma pergunta para quem critica a decisão: “Vocês queriam o quê? Que Flávio ficasse aqui para ser preso?”. Gente, eu queria ouvir uma explicação, mas recebi praticamente um sermão político com direito a Alexandre de Moraes, Polícia Federal e até capeta no meio da história.
O pastor saiu em defesa de Flávio após a chegada do senador aos Estados Unidos, registrada pela CNN Brasil nesta quarta-feira (28). No vídeo, Malafaia afirmou que a decisão de deixar o país foi correta e acusou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de perseguir o ex-candidato à Presidência. Segundo o religioso, a Polícia Federal teria solicitado a apreensão do passaporte de Flávio apenas sete minutos depois da confirmação da vitória de Lula. Ele também alegou que Moraes teria determinado a medida ainda na noite de domingo, sem consultar previamente a Procuradoria-Geral da República. São acusações feitas pelo pastor, não fatos comprovados pelo vídeo.

Mas esperem, minhas queridas, porque tem uma parte deliciosa do ponto de vista da contradição política. Silas começou reclamando que adversários estariam compartilhando uma entrevista antiga na qual ele criticava a saída de Jair Bolsonaro para os Estados Unidos. O pastor reconheceu que pensava daquela maneira na época, mas afirmou ter mudado de opinião. Segundo ele, posteriormente concluiu que Jair teria sido preso caso permanecesse no Brasil. Ou seja, minha gente, o discurso mudou, e o próprio Malafaia fez questão de explicar por quê. A justificativa agora é que Flávio teria motivos para temer uma prisão.
E Silas não economizou nas palavras contra Moraes. Chamou o ministro de agente político dentro do STF, questionou sua imparcialidade e afirmou que ele estaria prejudicando a reputação da Corte. O religioso também recuperou o próprio histórico de embates judiciais, mencionando a apreensão de seu passaporte, celular e cadernos teológicos. Malafaia sustentou que foi alvo de perseguição e alegou que não existiriam provas contra ele. Chegou a dizer que ministros do Supremo estariam insatisfeitos com Moraes, mas não apresentou nomes nem elementos que permitissem confirmar essa afirmação.
Agora, prestem atenção no tamanho da defesa. Silas não se limitou a justificar a viagem de Flávio. Ele transformou a saída do senador em mais um capítulo de sua ofensiva contra o Judiciário e o governo Lula. Na avaliação do pastor, a decisão de deixar o Brasil foi acertada diante do que considera uma perseguição política. O vídeo, entretanto, não demonstra que existisse uma ordem de prisão contra Flávio nem comprova que sua permanência no país resultaria em prisão.

E eu continuo aqui no Cosme Velho, com o vídeo aberto e uma pergunta atravessada na garganta. Silas Malafaia admite que já condenou uma saída para os Estados Unidos, mas agora defende outra com unhas, dentes e versículos políticos. Mudou de opinião e explicou sua razão. Só que uma coisa me chamou especialmente a atenção: o pastor não está apenas defendendo a viagem de Flávio Bolsonaro. Está defendendo a ideia de que permanecer no Brasil seria um risco para ele. E isso é uma acusação muito mais grave do que simplesmente justificar uma passagem para Miami.