Gustavo Clemente, cinegrafista demitido pela Globo após dar uma cabeçada no jornalista Igor Carvalho, do Brasil de Fato, se manifestou sobre a agressão ocorrida antes do debate entre candidatos ao governo de São Paulo, na Band. Em nota publicada nas redes sociais, ele disse estar arrependido, mas afirmou que teria sido provocado antes do episódio.
Eu ainda estava no carro voltando da academia, com o cabelo úmido do banho e a chuva batendo no vidro como se o Rio quisesse narrar tragédia, quando li a tentativa de explicação. O homem deu uma cabeçada em outro profissional de imprensa dentro de um debate eleitoral e agora veio com aquele pacote clássico: “me arrependo, mas veja bem”.

Na nota, Gustavo afirmou ter consciência de que a situação “jamais deveria ter chegado ao ponto a que chegou”. “Me arrependo do desfecho na noite de domingo”, escreveu. Ele também disse que “nenhum tipo de agressão é justificável”.
Só que, logo depois, veio o porém. O cinegrafista alegou ter sido alvo de provocações, ofensas, agressões verbais e contato físico por parte de Igor antes da cabeçada. Disse ainda que outros profissionais teriam presenciado a tensão, mas não informou quais foram as provocações nem identificou as testemunhas.
É aí que a história fica delicada. Porque arrependimento com manual de justificativa embutido sempre chega meio torto. Se agressão não é justificável, não precisa vir com rodapé tentando empurrar o corpo da culpa para o outro lado da sala.
Igor Carvalho contou outra versão. Segundo o jornalista, houve trombadas e uma breve troca de ofensas durante a movimentação da imprensa. Ele disse que abaixou a cabeça para pegar anotações e, ao levantar, foi atingido. “Caí desnorteado. Quando me dei conta, já havia seguranças e paramédicos próximos”, relatou.
O repórter afirmou ainda que a revolta era maior do que a dor física. Para ele, sofrer violência durante um debate eleitoral “dá a dimensão do tempo em que vivemos”. O Brasil de Fato repudiou a agressão e afirmou que ataques a jornalistas atingem a liberdade de imprensa e o direito da sociedade à informação.
A Globo informou que rescindiu o contrato de Gustavo, que atuava como prestador de serviço temporário, e disse repudiar qualquer forma de violência. A Band, responsável pelo debate, também lamentou o caso, afirmou que Igor recebeu atendimento médico imediato e que o agressor foi retirado das dependências da emissora.

Enquanto o carro subia em direção ao Cosme Velho, eu só pensava que debate eleitoral já é uma arena suficientemente nervosa sem cinegrafista transformando disputa por espaço em agressão física. Jornalismo tem empurra-empurra, cabo cruzado, câmera no ombro e gente tentando pegar ângulo. Cabeçada, meu bem, não entra no manual.
Agora Gustavo pede serenidade para que o caso seja analisado “em sua integralidade”. Justo. Que se apure tudo. Mas o vídeo rodou, o jornalista foi atingido, a Globo demitiu e a Band retirou o profissional do local. Arrependimento pode até abrir conversa. Não apaga a pancada.