Saul Muniz, ex-jogador brasileiro de 40 anos, morreu na segunda-feira (13) após sofrer um grave acidente com uma scooter elétrica em Galway, na Irlanda. O ex-zagueiro teve traumatismo cranioencefálico, ficou internado em estado crítico no University Hospital Galway e passou cerca de três dias em coma induzido antes de não resistir aos ferimentos.
Eu já estava separando a roupa da academia, naquele teatro íntimo em que a gente escolhe o legging como se isso garantisse a presença no treino, quando vi a história de Saul. Parei com um tênis em cada mão. Tem notícia que chega e muda o ritmo da manhã, porque por trás do “ex-jogador morre” existe uma vida inteira atravessada por campo, mudança de país, trabalho, comunidade e uma família tentando trazer alguém de volta para casa.

O acidente aconteceu na noite de sexta-feira (10). Segundo informações da polícia irlandesa, Saul sofreu uma queda enquanto pilotava a scooter elétrica e foi levado ao hospital em estado grave. As autoridades ainda investigam as circunstâncias do caso e pediram que possíveis testemunhas ou motoristas com imagens de câmeras veiculares procurem a polícia.
Natural de Ituiutaba, em Minas Gerais, Saul se mudou ainda jovem para Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, onde começou a trajetória no futebol nas categorias de base do Comercial. Em 2006, integrou o elenco vice-campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior, uma campanha marcante para o clube.
Como profissional, defendeu o Comercial nas temporadas de 2007 e 2010. Também passou por Francana, Jaboticabal, Guariba e Morrinhos-GO. O último clube da carreira foi o Morrinhos, em 2012, quando decidiu encerrar a trajetória no futebol profissional.
Depois dos gramados, Saul reconstruiu a vida na Irlanda. Morava no país europeu, trabalhava como barbeiro e empresário, e era conhecido pela atuação na comunidade brasileira. Amigos o descrevem como uma pessoa querida, presente e envolvida com quem vivia ao redor.
Além do trabalho, Saul também se destacou por ações voluntárias na ONG You in Africa, projeto voltado ao combate à fome e ao apoio educacional de crianças e adolescentes no Quênia. Essa parte da história me pegou forte. Porque às vezes a manchete fala da morte, mas o detalhe que fica é o que a pessoa fazia quando ninguém estava medindo gol, contrato ou estatística.
Familiares e amigos abriram uma campanha no GoFundMe para custear o traslado do corpo ao Brasil e o sepultamento. A meta é de 24 mil euros, cerca de R$ 140 mil. Até a manhã desta terça-feira (14), a vaquinha havia arrecadado aproximadamente 19,4 mil euros, pouco mais de R$ 113 mil.

Segundo os organizadores, o desejo da família é cumprir o último pedido de Saul: ser velado e enterrado no Brasil. O Comercial Futebol Clube também divulgou nota lamentando a morte do ex-atleta e prestando solidariedade aos familiares, amigos e ex-companheiros de equipe.
Eu fechei o armário da academia sem pressa depois de ler tudo. A manhã continuou fria, o tênis continuou no chão, mas a cabeça foi para essa família tentando atravessar oceano, burocracia e dor para cumprir um último desejo. Saul foi jogador, barbeiro, empresário, voluntário e brasileiro longe de casa. Agora, quem o amava tenta garantir que ele volte.