Eu estava na aula de lamba aeróbica da academia do Leblon, suando para derreter os pastéis de Belém que trouxe de Portugal na cintura, quando o personal parou do meu lado no meio do passinho e perguntou como é que o Flávio tinha conseguido sair do país. Gente, eu congelei com o quadril pro lado. Larguei a coreografia, peguei a garrafinha e falei: senta, que eu te conto parada por parada, porque essa fuga tem mapa, cronômetro e horário de novela das nove.
A primeira parada foi Foz do Iguaçu. Segundo a emissora argentina C5N, Flávio estava numa fazenda na cidade desde a noite anterior. Do outro lado da fronteira, o avião já esperava por ele no aeroporto de Puerto Iguazú desde segunda, vindo de Buenos Aires. E sabe o que os aliados dele espalharam na terça? Que ele já estava nos Estados Unidos. Mentira, querida. O moço ainda estava em solo brasileiro, quietinho, esperando a noite cair.

A segunda parada foi a Argentina. Às 22h50 de terça, segundo a Direção Nacional de Migrações do país vizinho, Flávio, a mulher, Fernanda, e as duas filhas cruzaram a Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz a Puerto Iguazú. A C5N diz que ele passou de van. A imprensa argentina chegou a apontar que ele teria cruzado só com a identidade brasileira, já que Alexandre de Moraes tinha mandado reter os passaportes dele. Do lado de lá, a imigração registrou documentação válida e nenhum impedimento. Pois é, a proibição era daqui, e de lá ninguém tinha nada com isso.
Agora presta atenção no cronômetro. Às 23h30, quarenta minutos depois de pisar na Argentina, a família já estava dentro de um Gulfstream G400 da Baires Fly S.A. Ponte, imigração, aeroporto e embarque em quarenta minutos, gente! Eu demoro isso pra sair do estacionamento do shopping em dia de liquidação. Tinha avião de motor quente esperando, e isso ninguém me tira da cabeça.
A terceira parada foi o Equador. O plano de voo dizia Guayaquil, e o caminho até lá foi de quem não quer ser visto: o jatinho evitou o espaço aéreo brasileiro e passou por cima do Paraguai, da Bolívia e do Peru. Em Guayaquil, segundo a AFP, foi só encher o tanque. Cerca de meia hora depois, às 6h22 no horário de Brasília, decolou de novo. Destino, segundo o FlightAware: o aeroporto executivo de Opa-locka, em Miami, com chegada prevista para por volta das 10h40 desta quarta.
E o tapete lá em cima já estava estendido. O governo Donald Trump prometeu na terça visto para Flávio e a família, e o próprio Trump disse que aprova a ida dele. Os passaportes brasileiros foram cancelados depois da fuga, mas o italiano, que ele tem desde 2023, segue valendo. Tudo isso vindo do mesmo Flávio que gravou vídeo jurando que nunca tinha pensado em sair do país e que ia entregar os passaportes para se defender do que chamou de aberração.

A investigação que travava a saída dele é por lavagem de dinheiro e envolve o amigo e advogado Willer Tomaz, num suposto esquema com empresas de Tomaz e bets. Os dois confirmam a amizade e negam sociedade e qualquer irregularidade. Contei tudo, o personal ficou de boca aberta e eu voltei pra lambada. Pastel de Belém não perdoa, e pelo visto o cronômetro do Flávio também não.