Eu estava enfiada numa reunião de negócios na Gávea, aquelas em que o café vem em xícara fina e o biscoito parece joia, quando meu celular vibrou com um recado que não se ignora, “a família Marinho quer falar com você”. A pessoa aqui já pensou em crise, barraco, demissão em massa, mas era outro tipo de terremoto, a tal DTV+, que a Globo vende como nova era da TV aberta, precisava de uma fofoqueira profissional para circular a novidade. Entre uma apresentação em PowerPoint e outra, o recado foi direto, chegou a vez de a TV aberta brincar de streaming, só que de graça e com o controle remoto mandando no jogo.
Na prática, a Globo está lançando um pacote tecnológico que transforma o velho sinal aberto em TV 3.0, com imagem 4K, som mais encorpado e um monte de função interativa para o público apertar no sofá. Para vender essa ideia, escalaram Sabrina Sato e Nicolas Prattes como rosto oficial do momento “TV aberta, mas com tempero de aplicativo”. Os filmes mostram o casal em situações bem cotidianas, jogo na sala, conversa sobre trânsito, zapping de canal, enquanto a DTV+ oferece estatísticas em tempo real, câmeras alternativas, replay instantâneo e aquele menu cheio de botão convidando o telespectador a se meter em tudo.

O plano de bastidor é usar a Copa como grande vitrine, porque nada movimenta sala de estar brasileira como bola rolando e gritaria de torcida. A família Marinho quer que o público se acostume a interagir com a TV em vez de só assistir passivamente, testando as novas funções primeiro em áreas do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. É uma jogada calculada, começa com regiões estratégicas, público mais conectado e equipamento compatível, e depois o circo todo se expande para o resto do país conforme as fabricantes colocarem mais TVs com DTV+ na praça.
Enquanto isso, no mundo real, a fofoca corre solta nos grupos de WhatsApp, com gente perguntando se precisa trocar a TV, se o tal conversor funciona na casa da tia e se essa história de publicidade segmentada vai adivinhar até o sabor da pizza do fim de semana. Nas redes, fãs de Sabrina e Nicolas já tratam o casal como donos oficiais da nova era da Globo, repostando vídeo de campanha, printando tela e comparando a experiência com plataforma de streaming. Tem também o clube do “não mexe no meu costume”, aquela turma que só quer ver a novela em paz e desconfia de qualquer ícone diferente piscando na tela.
Da cadeira da Gávea, a sensação é simples, a Globo está correndo para não ficar com cara de TV da sala da avó enquanto o mundo se comporta como aplicativo de celular. Se a DTV+ vai pegar de verdade no Brasil inteiro ainda é capítulo dos próximos anos, com conversor, TV nova e tudo mais, mas uma coisa já está garantida, se o telespectador descobrir que pode mudar de câmera para fugir do comentarista chato, não tem algoritmo que segure o espírito fofoqueiro desse país.