Eu tinha acabado de tentar retomar a reunião na Vieira Souto, com a água com gás já sem metade da elegância e um homem de planilha falando uma coisa muito séria sobre estratégia, quando o celular acendeu com a palavra que sempre desorganiza qualquer almoço executivo: Fantástico. Abri a mensagem por baixo da mesa e dei de cara com uma brasileira de família tradicional do Paraná, joias milionárias, FBI, penhor na Flórida e um advogado dizendo “rosto bonitinho” e “grand finale”. Pronto. A reunião virou figurante.
A empresária Camila Briote, que também tem nacionalidade estadunidense, é investigada no Brasil e nos Estados Unidos sob suspeita de aplicar golpes envolvendo joias de luxo. Segundo reportagem exibida pelo Fantástico, o prejuízo atribuído ao caso pode chegar a R$ 100 milhões, entre peças de ouro, diamantes, esmeraldas e outros itens de alto valor.

Camila saiu das colunas sociais, onde aparecia em registros de um casamento luxuoso na Espanha, para o centro de inquéritos policiais. A suspeita é que ela atuasse como intermediária na venda de joias consignadas, especialmente entre Brasil e Estados Unidos. No começo, segundo relatos de vítimas, ela conquistava confiança, retirava peças para revenda e fazia pagamentos regulares. Depois, os repasses teriam parado.
“Ela me deve cerca de 1,2 milhão de dólares em joias, mais 400 mil dólares de vendas não repassadas”, afirmou uma das vítimas ao programa. O advogado Arthur Migliari, que representa vítimas, resumiu o método atribuído à investigada com uma frase daquelas que parecem escritas por roteirista de série policial: “É o rosto bonitinho, uma pessoa falante, bem apresentável. Ela consegue a confiança das vítimas e depois vem a segunda parte, que é pegar as joias, que é o grand finale”.
Segundo a investigação, Camila se apresentava como representante de grandes joalherias e prometia lucros altos em revendas internacionais. Depois de ganhar credibilidade, passaria a aplicar golpes maiores Em alguns casos, ela teria usado comprovantes falsos, cheques sem fundo e até vídeos de dinheiro vivo para convencer credores de que honraria os débitos. Minha filha, quando a pessoa começa a mandar vídeo de dinheiro para provar solvência, a coluna já acende todas as luzes vermelhas do lustre. Dinheiro sério cai na conta. O resto é dramaturgia.

A maior parte dos casos teria ocorrido nos Estados Unidos, principalmente no sul da Flórida, em cidades como Miami, Boca Raton e Palm Beach. Com o aumento das denúncias, o FBI passou a investigar o caso. Relatórios citados pela reportagem indicam que muitas joias não devolvidas foram parar em casas de penhor por valores muito abaixo do mercado.
Eu voltei para a reunião tentando fingir normalidade, mas já era tarde. Porque uma história que mistura casamento na Espanha, família tradicional, diamantes, Flórida, FBI e colar de US$ 120 mil penhorado por US$ 6 mil não pede ata. Pede close, trilha de suspense e advogado com frase boa. No português claro da Vieira Souto: o “grand finale” ainda está longe de terminar.