Olha, a Kátia estava aqui no Cosme Velho, de chinelo, de coque, com a manicure pintando a unha do dedão enquanto a Glorinha da cozinha servia um caldo de frango que Deus abençoe, quando o celular deu aquela vibração comprida de grupo fervendo. Era a turma do entretenimento, misturada com produtor de canal, com assessor de famoso e com aquela repórter de São Paulo que sabe de tudo antes de todo mundo. A mensagem dizia: “Kátia, você chorou no final de Half Man?” Minha filha. Chorar não, mas a Kátia ficou parada olhando para a tela por uns três minutos sem piscar, e isso, pra quem me conhece, é o equivalente a um choro de novela das nove.
Na quinta-feira, 29 de maio, a HBO Max encerrou “Half Man”, a minissérie de seis episódios criada e estrelada por Richard Gadd, aquele escocês de talento absurdo que já tinha destruído a cabeça do mundo inteiro com “Baby Reindeer”. A série acompanhou trinta anos de uma irmandade que não é de sangue mas é de alma, entre Ruben, vivido pelo próprio Gadd, e Niall, vivido por Jamie Bell, sim, o Billy Elliot crescido, lindo e perturbado. Dois homens que se constroem, se destroem, se precisam e se odeiam, tudo ao mesmo tempo, durante três décadas inteiras. O último episódio, batizado de “2014”, chegou e jogou tudo isso numa fogueira de um jeito que a internet ainda não terminou de processar.

No episódio final, Niall visita Ruben na prisão e, pela primeira vez em décadas de convivência, decide dizer a verdade. Uma verdade. Depois vem outra. Depois mais uma. E cada verdade que sai da boca de um derruba uma parede no outro. Gadd construiu ali, nos últimos minutos da série, a cena que ele mesmo chamou de “a melhor coisa que já escrevi na vida”, dois homens sentados de lados opostos de um vidro, abrindo segredos que carregaram por décadas, e Jamie Bell entrega uma atuação tão física, tão contida e tão devastadora que a crítica internacional não está sabendo nem como classificar. Quando o corte final chega, o público fica olhando para a tela com aquela cara de quem levou um tapa educado.

O X virou campo de batalha logo depois da exibição. De um lado, quem gritava que é a melhor série de 2026 e que Gadd merece todo prêmio que existe. Do outro, quem achou o desfecho previsível demais e ficou frustrado com as lacunas que a série deliberadamente deixou abertas. O próprio Gadd foi a público logo depois e jogou gasolina na fogueira da forma mais elegante possível: “Sei quais eram minhas intenções artísticas, mas sempre achei importante que as pessoas tirassem suas próprias conclusões. Nunca gostaria de tirar isso delas.” A palavra “shakespeariano” rodou em inglês, português e espanhol até de madrugada, e Gadd confirmou que veio do público, não dele, mas que ele também não vai negar.

A Kátia encerra com o veredito: “Half Man” é daquelas séries que você não assiste, você sobrevive. Gadd pegou masculinidade tóxica, trauma de infância, homossexualidade reprimida e codependência afetiva, colocou tudo dentro de seis episódios densos como bolo de rolo, e entregou uma obra que gruda em você por semanas. Ruben e Niall não conseguiam viver juntos. O que Gadd decidiu fazer com isso é o tipo de coisa que vai render debate em grupo de WhatsApp até dezembro. Vai lá assistir. E depois volta aqui pra contar, porque a Kátia tá ouvindo.