Deolane Bezerra movimentou R$ 140 milhões em apenas dois anos, segundo o promotor Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo, e não apresentou comprovação de serviços prestados que justificasse o volume financeiro. Eu estava saindo de uma ligação atravessada com uma fonte do meio jurídico, daquelas em que a pessoa fala baixo como se o telefone também pudesse depor, quando apareceu o dado que muda o tamanho da história. R$ 140 milhões. Em dois anos. Fechei a porta do carro, pedi silêncio por dez segundos e só consegui pensar que aquilo já não era mais extrato bancário: era um enredo inteiro desfilando na frente da Receita Federal com bateria, comissão de frente e carro alegórico.
Em entrevista à CNN, Gakiya afirmou que a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Deolane nos últimos cinco anos identificou grande volume de renda não declarada e pulverização de recursos em diversas contas de pessoas jurídicas. “Ela não tem absolutamente nenhuma comprovação de serviço prestado, sendo de advocacia ou de outra forma que justifique esse numerário”, disse o promotor.

A influenciadora e advogada foi presa durante a Operação Vérnix, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil, que investiga um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital, o PCC. Após audiência de custódia, a Justiça manteve a prisão preventiva dela.
Segundo Gakiya, Deolane chegou a ter 35 empresas abertas em Martinópolis, na região de Presidente Prudente, com endereços registrados em um conjunto habitacional de baixa renda e apontados como falsos pela investigação. Outras 15 empresas teriam sido abertas em Santo Anastácio, e o mesmo padrão também teria se repetido na região de Ribeirão Preto.
Para o promotor, essa estrutura foi criada para tentar despistar as autoridades, inclusive a Receita Federal, e sustentar a versão de que o dinheiro teria origem em atividades nas redes sociais. A investigação afirma que a influenciadora fazia parte da arquitetura financeira do PCC desde pelo menos 2022.
Gakiya também disse que Deolane mantinha proximidade pessoal com familiares de Marcola e de Alejandro Camacho, irmão do líder da facção. Segundo ele, há fotos da influenciadora em aniversários, viagens e encontros ligados à família de Alejandro.
No meio dessa avalanche, Deolane ainda falou rapidamente com jornalistas ao deixar o DHPP, em São Paulo. Ao ser perguntada se estaria lavando dinheiro para Marcola, rebateu: “Trabalhando”, antes de entrar no carro da polícia.
A frase virou munição imediata nas redes, claro, porque a internet brasileira não perdoa nem vírgula em saída de delegacia. Mas o ponto central agora é outro: R$ 140 milhões movimentados, dezenas de empresas, suspeita de endereços falsos, relação apontada com operadores financeiros e uma investigação que deixou de ser fofoca de famoso faz tempo.

Minha fonte ainda tentou resumir o caso em linguagem técnica, mas eu só conseguia pensar na Receita Federal olhando esse extrato como quem vê um animal mitológico atravessando a sala. Deolane sempre foi personagem de barulho, ostentação e manchete. Agora, segundo o Ministério Público, virou peça de um tabuleiro muito maior. E quando a conta chega em R$ 140 milhões, minha filha, nem legenda com emoji de luxo consegue explicar sozinha.