O mercado secundário de relógios de luxo passou por uma transformação profunda nas últimas duas décadas. O que durante anos funcionou principalmente por meio de relações privadas entre colecionadores, comerciantes e pequenos grupos de dealers se tornou uma indústria internacional cada vez mais estruturada, tecnológica e profissional.
Nesse processo, diferentes empresas passaram a ocupar posições específicas dentro do ecossistema.

A Chrono24 ampliou a visibilidade global da oferta ao reunir compradores, vendedores e dealers em um marketplace internacional. A WatchBox elevou o nível de institucionalização do mercado de relógios pre-owned e posteriormente passou a integrar a The 1916 Company, grupo que reúne mercado primário, secundário, boutiques, serviços e relacionamento com colecionadores.
Em outra camada desse mesmo mercado, a RC Crown, fundada por Renan Bastos, vem estruturando sua expansão a partir do wholesale internacional, de processos operacionais e do desenvolvimento de tecnologia proprietária criada originalmente para resolver problemas enfrentados pela própria empresa.
Segundo Bastos, a decisão de desenvolver sistemas internos não nasceu de uma tentativa de criar uma empresa de software, mas de uma necessidade operacional.
“Antes de construir qualquer coisa, nós procuramos ferramentas. Existem algumas soluções no mercado, mas nenhuma resolvia aquilo que precisávamos no nosso dia a dia. A tecnologia começou porque nós tínhamos uma dor real e precisávamos resolver essa dor dentro da própria RC Crown”, afirma.
Diferentes empresas resolveram diferentes partes do mercado
A Chrono24 ajudou a organizar uma das etapas mais visíveis do mercado: a exposição global de relógios.
A plataforma tornou possível observar em segundos ofertas de diversos países, aumentando a transparência para consumidores e profissionais.
Outra transformação aconteceu com a expansão da WatchBox.
Criada com foco em relógios pre-owned, a companhia desenvolveu uma estrutura internacional voltada para compra, venda, trade, conteúdo especializado e relacionamento com colecionadores.
Posteriormente, WatchBox, Govberg Jewelers, Radcliffe Jewelers e Hyde Park Jewelers passaram a operar sob a marca The 1916 Company, reunindo diferentes áreas da indústria dentro de uma mesma estrutura.
Para Bastos, movimentos como esses demonstram que o mercado secundário deixou de ocupar uma posição periférica dentro da indústria relojoeira.
“Empresas diferentes foram resolvendo problemas diferentes. Marketplace resolveu uma parte. Grandes grupos profissionalizaram outra parte. Mas existe uma camada enorme nos bastidores que continua extremamente fragmentada, principalmente quando você olha para o mercado entre dealers”, afirma.
É justamente nessa camada que a RC Crown concentrou boa parte de seus investimentos recentes.
Um software criado por um dealer para resolver problemas de dealer
Grande parte do mercado profissional de relógios ainda funciona por meio de relacionamentos privados.
Todos os dias, dealers de diferentes países recebem milhares de ofertas por mensagens, grupos, listas privadas e contatos individuais.
Nesse ambiente, a dificuldade não está apenas em encontrar informação.
Está em entender o que aquela informação realmente representa.
Uma mesma peça pode ser publicada por diferentes intermediários. Uma oferta pode estar desatualizada. Um relógio pode já ter sido vendido e continuar circulando. Determinados anúncios podem vir de fontes pouco confiáveis ou até de scammers.
Isso significa que visualizar cem anúncios não necessariamente significa que existam cem relógios.
Foi justamente esse tipo de situação que levou a RC Crown a desenvolver sua própria infraestrutura.
“O problema nunca foi falta de informação. O problema era informação demais e sem estrutura. Você precisa descobrir o que é real, o que é duplicado, o que já não existe mais, quem realmente tem a peça e qual é a oferta efetiva naquele momento”, explica Bastos.
A tecnologia passou, então, a ser construída de dentro para fora.
Em vez de desenvolver um produto primeiro e depois procurar um problema para resolver, a equipe da RC Crown passou a criar ferramentas a partir das dificuldades encontradas diariamente na própria operação.
A RC Crown virou o primeiro case de sucesso da própria tecnologia
Para Bastos, esse ponto é uma das principais diferenças do projeto.
A RC Crown não desenvolveu uma plataforma baseada apenas em uma hipótese sobre como o mercado funciona.
A empresa utiliza diariamente a própria tecnologia em uma operação real de compra, venda e sourcing de relógios.
Cada funcionalidade nasce de uma necessidade operacional e é testada dentro da própria companhia.
“Nosso case de sucesso somos nós mesmos. Se uma ferramenta não melhora nossa produtividade, não reduz tempo ou não nos ajuda a tomar uma decisão melhor, ela não resolveu o problema”, afirma.
Esse processo permitiu que a empresa desenvolvesse gradualmente sistemas capazes de organizar grandes volumes de ofertas, identificar duplicidades, filtrar informações pouco confiáveis e apresentar uma leitura mais próxima da disponibilidade efetiva de determinadas referências.
O objetivo é reduzir uma das maiores nebulosidades do mercado secundário: a diferença entre aquilo que parece estar disponível e aquilo que realmente está disponível.
Quantos relógios realmente existem no mercado?
A pergunta parece simples, mas é difícil de responder.
Imagine uma referência específica da Patek Philippe sendo oferecida em dezenas de canais diferentes durante alguns dias.
A leitura superficial mostraria dezenas de relógios disponíveis.
Na prática, parte dessas ofertas pode representar exatamente as mesmas peças.
Um dealer publica o relógio. Outro participante recebe aquela informação e republica. Um terceiro compartilha novamente. Em pouco tempo, uma única unidade pode gerar diversas ofertas independentes visualmente.
Para uma empresa operando em escala, interpretar essa duplicação é fundamental.
“Queremos chegar cada vez mais perto de responder perguntas simples que o mercado historicamente teve dificuldade de responder. Quantas peças daquela referência estão realmente disponíveis? Quantas ofertas são duplicadas? Quantas vêm de fontes confiáveis? Qual é a oferta verdadeira naquele momento?”, explica Bastos.
A tecnologia da RC Crown trabalha justamente na tentativa de reduzir esse ruído.
Isso envolve limpar duplicidades, filtrar publicações incorretas, identificar padrões entre ofertas e excluir informações provenientes de fontes consideradas pouco confiáveis pela operação.
O resultado é uma visão mais estruturada do mercado.
Da quantidade de dados à qualidade da informação
Para Bastos, o grande desafio da próxima fase do mercado secundário não será simplesmente produzir mais dados.
O setor já produz dados em quantidade enorme.
O desafio será transformar volume em informação utilizável.
Essa distinção pode parecer pequena, mas tem impacto direto sobre preço, liquidez, sourcing e tomada de decisão.
Uma referência que aparece 50 vezes pode parecer altamente disponível. Depois de remover duplicidades, ofertas vencidas e publicações de baixa confiabilidade, talvez o número real seja muito menor.
Essa diferença muda a percepção de escassez.
Também muda a análise de preço.
E pode mudar a própria decisão de comprar ou vender.
“Nosso objetivo é tirar cada vez mais a nebulosidade do mercado. Quanto mais conseguimos limpar a informação, mais claramente conseguimos enxergar o que realmente está acontecendo”, afirma.
Tecnologia não substitui relacionamento
Apesar da crescente importância dos dados, Bastos rejeita a ideia de que tecnologia eliminará o papel dos dealers ou dos relacionamentos pessoais.
Na avaliação do empresário, ocorre justamente o contrário.
A tecnologia tende a aumentar a produtividade de redes construídas ao longo de anos.
Um relacionamento internacional continua sendo necessário para ter acesso a determinadas peças, condições comerciais e oportunidades.
O software apenas ajuda a organizar a quantidade de informação gerada por essa rede.
“O relacionamento continua sendo um dos maiores ativos desse mercado. A tecnologia não substitui isso. Ela permite que você utilize melhor a rede que construiu”, explica.
Essa característica diferencia a RC Crown de um marketplace tradicional.
A empresa não desenvolveu seu sistema primordialmente para que consumidores anunciem ou pesquisem relógios.
O foco inicial foi tornar sua própria operação de wholesale mais eficiente.
A nova infraestrutura do mercado secundário
A evolução recente do setor mostra que o mercado de relógios de luxo está criando diferentes camadas de infraestrutura.
A Chrono24 construiu uma estrutura global de marketplace.
A WatchBox ajudou a institucionalizar a compra e venda de relógios pre-owned e, posteriormente, a The 1916 Company ampliou essa estrutura ao integrar mercado primário, secundário e relacionamento com colecionadores.
A RC Crown está construindo uma proposta diferente.
Sua tecnologia nasceu de problemas encontrados na operação de wholesale e busca organizar o fluxo de informação entre participantes profissionais do mercado.
Para Bastos, essa camada tende a ganhar importância conforme a indústria cresce.
“Chega um momento em que crescer simplesmente adicionando pessoas deixa de ser eficiente. Você precisa de sistemas que multipliquem a capacidade das pessoas que já estão na operação”, afirma.
É exatamente nesse ponto que dados passam a representar produtividade.
Uma busca que antes exigia dezenas de mensagens e consultas pode ser reduzida. Uma análise de disponibilidade pode ser feita com mais informação. Um vendedor consegue compreender melhor o contexto de determinada referência antes de negociar.
Não significa eliminar julgamento humano.
Significa oferecer melhores informações para que esse julgamento aconteça.
Diferentes modelos para uma indústria global
Não existe uma única empresa ou modelo responsável pela transformação do mercado secundário.
O amadurecimento aconteceu por diversas frentes.
Marketplaces aumentaram visibilidade.
Grandes grupos trouxeram escala institucional.
Criadores de conteúdo ampliaram o interesse público pelo mercado.
Empresas especializadas profissionalizaram autenticação, logística, financiamento e serviços.
E uma nova geração de tecnologia começa a atacar a infraestrutura de dados existente nos bastidores.
É nessa última categoria que Renan Bastos pretende posicionar a RC Crown.
Não como uma empresa que decidiu criar tecnologia porque tecnologia se tornou tendência, mas como uma operação que precisou construir suas próprias ferramentas porque as alternativas existentes não solucionavam suas necessidades.
“Tudo começou com problemas que nós vivíamos todos os dias. Hoje conseguimos olhar para trás e perceber que várias dessas dores não eram só nossas. São problemas estruturais de um mercado que cresceu muito mais rápido do que a infraestrutura de informação disponível para quem opera nele”, afirma Bastos.

A própria RC Crown tornou-se, assim, o ambiente onde essas soluções são desenvolvidas, utilizadas e testadas diariamente.
Para Bastos, é esse ciclo entre problema real, tecnologia e resultado operacional que poderá tornar os dados uma das próximas grandes infraestruturas do mercado global de relógios de luxo.