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Kátia Flávia
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Ratinho transforma polêmica com Erika Hilton em ativo político para o campo conservador

Comentário sustenta que Ratinho usou o embate com Erika Hilton não como deslize, mas como cálculo político para mobilizar a base conservadora e fortalecer um projeto de poder.

Kátia Flávia

14/03/2026 9h00

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O apresentador do SBT, se manifestou em suas redes sociais após ser alvo de denúncia de Erika Hilton. (Foto: Reprodução/ Google Imagens)

Ratinho não me parece um homem que tropeça nas próprias palavras. Ele me parece exatamente o contrário. Um sujeito que sabe muito bem onde pisa, em quem pisa e por que pisa. Há gente burra no mundo, claro. Há gente despreparada. Há gente que abre a boca e deixa cair um talher, uma herança, um preconceito mal lavado. Mas Ratinho jamais me convenceu desse papel de homem simples que fala demais porque pensa de menos. Não. Ele pensa. E penso eu que pensa com cálculo.

Quando escolhe Erika Hilton como alvo, ele não está apenas ofendendo uma parlamentar. Está acionando um tipo muito específico de plateia. Aquele público que se organiza pelo medo, pela irritação moral, pela fantasia de que o mundo está sendo sequestrado por tudo o que ele não entende. É um truque antigo, quase mofado, mas ainda funcional. Pega-se uma figura que simboliza mudança, mistura-se com desprezo e serve-se como se fosse defesa dos bons costumes. O nome disso, para mim, não é opinião. É estratégia.

E estratégia de família, diga-se. Porque por trás do apresentador que se vende como espontâneo existe um sobrenome em movimento. Um projeto. Um filho. Uma ambição. Ninguém usa a televisão aberta como quem coça o cotovelo. Muito menos alguém que construiu carreira justamente entendendo o valor comercial e político do escândalo certo, dito no momento certo, para o público certo.

O que se viu ali não foi um senhor confuso tentando entender o século. Foi um comunicador experiente prestando serviço ao conservadorismo. Não necessariamente por fé. O que torna tudo mais deprimente. Talvez por conveniência. Talvez por cálculo eleitoral. Talvez porque, no Brasil, ainda compense transformar gente em espantalho para fortalecer candidatura de homem.

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O apresentador Ratinho, a deputada federal Erika Hilton e Ratinho Júnior, filho do apresentador e governador do Paraná (Foto: Reprodução/ Google Imagens)

A dobradinha é quase vulgar de tão óbvia. Primeiro, ataca-se uma pessoa trans com a brutalidade conveniente de quem sabe que parte do público vai aplaudir. Depois, finge-se que tudo não passou de franqueza, autenticidade, coragem de dizer o que pensa. Como se crueldade fosse virtude cívica. Como se humilhação pública fosse traço de personalidade forte. Como se preconceito, quando bem iluminado por refletores, virasse plataforma política.

O mais aborrecido nisso tudo é que nem se trata de uma grande novidade. O Brasil adora homens que fazem do mau gosto uma espécie de liderança. Homens que confundem grosseria com verdade. Que chamam violência de sinceridade. Que atacam minorias como quem distribui bom senso. E que, no fim, ainda posam de vítimas quando alguém aponta a indecência da cena.

Na minha leitura, ninguém ali estava discutindo identidade de gênero. Isso é o verniz. O assunto real era poder. Era palanque. Era sinalização para uma base conservadora que precisa ser mantida quente, irritada e obediente. Erika Hilton entrou como personagem de conveniência numa encenação política muito maior. E Ratinho, velho profissional da ribalta, fez o que sabe fazer desde sempre: transformou brutalidade em espetáculo e espetáculo em moeda.

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