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Kátia Flávia
Kátia Flávia

Quem foi Carlos Adão, artista que pichou todos os muros de SP que morreu aos 71 anos

Economista, ex-bancário e personagem da cultura urbana paulista, ele transformou a assinatura verde sobre fundo preto em uma das marcas mais reconhecíveis da Grande São Paulo

Kátia Flávia

09/08/2026 10h46

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Carlos Adão morreu aos 71 anos, em Taboão da Serra, após sofrer um infarto

Carlos Alberto Adão morreu aos 71 anos, em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, após sofrer um infarto. Conhecido como Carlos Adão, ele ficou famoso por espalhar o próprio nome em muros, fachadas, pedras, passarelas e espaços públicos, quase sempre com letras verdes sobre fundo preto.

Eu já estava dentro do avião em Madri, tentando encaixar a bolsa embaixo da poltrona sem declarar guerra ao passageiro da frente, quando me chegou a notícia. Carlos Adão morreu. E aí bateu aquela sensação estranha de despedida de alguém que muita gente nunca conheceu pessoalmente, mas viu por anos no caminho, no muro, na avenida, na beira da estrada.

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A assinatura verde sobre fundo preto virou uma das marcas mais reconhecíveis da paisagem urbana paulista

Nascido em 1954 e criado no Butantã, em São Paulo, Carlos Adão era mais do que a assinatura repetida à exaustão. Ele se formou em Economia, trabalhou no setor bancário, atuou como empresário e ainda tentou entrar na política, disputando eleições para deputado estadual e deputado federal, com Taboão da Serra como uma de suas bases.

Mas foi nas ruas que o nome dele ganhou força. A inscrição “Carlos Adão” virou uma espécie de aparição urbana. Quem circulava pela Grande São Paulo provavelmente já deu de cara com a marca em algum muro e se perguntou: afinal, quem é esse homem que escreve o próprio nome em tudo?
A resposta nunca coube numa caixinha simples. Ele não era exatamente grafiteiro, não era apenas pichador e também não era só um excêntrico em busca de atenção. Em 2010, a Folha acompanhou uma de suas incursões e registrou que ele chamava a própria ação de “marketing de guerrilha”.

Na mesma reportagem, Carlos Adão explicou que queria criar uma espécie de “televisão primitiva”, com o nome aparecendo em sequência para quem passava de ônibus pela cidade. Antes de algoritmo, feed, impulsionamento e publi, ele já tinha entendido uma regra brutal da comunicação: aparecer muitas vezes muda o tamanho de um nome.

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A trajetória do artista foi retratada no documentário Os 3 Atos de Carlos Adão

Segundo o próprio artista afirmou em entrevista ao jornal O Taboanense, ele já havia reproduzido seu nome mais de 150 mil vezes. A técnica era quase ritual: primeiro vinha o fundo preto; depois, a escrita verde. Simples, reconhecível e impossível de ignorar.
A marca também ganhou variações ao longo dos anos, com frases como “Carlos Adão é sexy” e “Ame Carlos Adão”. Teve quem achasse graça, teve quem odiasse, teve quem tratasse como vandalismo e teve quem enxergasse ali uma intervenção urbana singular. O fato é que ele virou personagem da cidade.

Sua história foi retratada no documentário Os 3 Atos de Carlos Adão, dirigido por Francisco Franco e Diego Navarro. O filme investigou justamente os motivos do homem que decidiu se fazer presente na maior cidade da América Latina escrevendo o próprio nome até virar mito de calçada.
O documentário circulou por festivais como o LATA Street Culture Festival, em Londres, e o Festival Visões Periféricas, no Rio, além de ter sido licenciado para o Canal Brasil. Ou seja, o nome que nasceu no muro acabou atravessando a tela.

Do meu assento apertado, com a comissária já passando para conferir cinto e mochila, fiquei pensando que Carlos Adão fez uma coisa rara: virou memória coletiva sem pedir autorização ao manual de arte, ao mercado, à academia ou à curadoria. Ele pintou, repetiu, insistiu e deixou a própria assinatura grudada na retina de uma cidade.

A morte encerra a vida do homem, mas não apaga a pergunta que ele espalhou por décadas. Carlos Adão era artista, marca, provocação, vaidade, lenda urbana ou tudo isso ao mesmo tempo? Talvez a resposta esteja justamente nos muros. Ele escreveu o nome tantas vezes que acabou virando paisagem.

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