Estava aqui no Cosme Velho nesta tarde, esperando o técnico do ar-condicionado que prometeu chegar às duas e chegou agora com a cara de quem chegou adiantado, quando minha fonte dentro da Globo me ligou com aquela voz de quem guarda um presente há dias. O assunto era “Quem Ama Cuida”, a nova novela das nove, e o que a emissora acabava de revelar sobre a construção visual do folhetim.
A cenógrafa Cris Bisaglia recebeu um briefing claríssimo da diretora artística Amora Mautner: universos visuais bem marcados, com personalidade forte, capazes de contar a história antes de qualquer linha de diálogo. A novela parte de um conceito que atravessa tudo, da direção ao figurino: uma São Paulo contemporânea tocada por uma estética dos anos 90, menos naturalista, mais desenhada. Uma escolha autoral, e raramente televisão de grande escala se dá ao luxo de ser assim tão deliberada.


As escolhas, minha filha, são reveladoras. O apartamento de Arthur Brandão, vivido por Antonio Fagundes, fala de dinheiro antigo sem precisar gritar: mármores, veludos, jardins internos, papéis que remetem a tapeçarias. A joalheria da família vai além e aposta em cortinas de correntes douradas e joias reais em momentos-chave. Do outro lado da cidade cenográfica, a casa de Pilar, de Isabel Teixeira, performa luxo com estampas e brilho, mas se entrega no ventilador onde deveria estar o ar-condicionado e na comida escassa que aparece sorrateira nos cantos do cenário.
Minha leitura maldosa é que a Globo fez em cenografia o que em outros tempos levaria semanas de capítulo para resolver em diálogo. Você entende em trinta segundos de plano quem tem dinheiro de verdade, quem vive fingindo ter e quem já desistiu de fingir. Carolina Pierazzo afirma que nada no cenário é gratuito: cada objeto, textura e tonalidade serve ao estado emocional e à posição social do personagem. Isso é dramaturgia espacial, e é exatamente o que a televisão brasileira anda precisando.
Meu destaque pessoal, declarado sem nenhuma cerimônia, é o apartamento de Pedro, o jovem advogado idealista de Chay Suede: discos de bandas brasileiras alternativas, pôster de Sade e caneca do MASP sobre a mesa. Um currículo cultural completo emoldurado como cenário. Se o personagem decepcionar na trama, pelo menos a decoração vai continuar impecável.