Amores, eu estava entre um café aqui na Itália e um retoque de cabelo que custou o PIB de uma cidade pequena, quando o Brasil, sempre ele, resolveu me entregar Rodrigo Manga em estado bruto. O prefeito biscoiteiro de Sorocaba apareceu caminhando 27 quilômetros até Mairinque e, no meio do trajeto, jogou fezes de vaca na própria cabeça. Eu sei. Você piscou, releu, respirou e pensou que eu estivesse exagerando. Queria eu. Mas a realidade brasileira está trabalhando sem revisor e com acesso total ao Wi-Fi.
Rodrigo Manga, do Republicanos, fez a caminhada na madrugada desta segunda-feira, com saída à meia-noite e chegada por volta das nove da manhã, rumo à Fazenda Renascer. No vídeo, ele aparece despejando fezes de vaca sobre a cabeça e dizendo que o gesto representa humildade, fragilidade humana e soberania de Deus. A cena vem logo depois de ele reassumir a Prefeitura por decisão do STF, após cinco meses afastado. Então ninguém me venha vender isso como um momento íntimo de recolhimento espiritual, porque momento íntimo, minha filha, geralmente não vem com registro, frase de efeito e cara de conteúdo pronto para circular em grupo de WhatsApp às 7h12.


E o bastidor digital é uma farofa premium, do jeito que eu gosto. Porque esse tipo de vídeo não nasce para ficar quieto, nasce para render espanto, aplauso, piada, corte, legenda de pseudo reflexão e uma fila de gente fingindo naturalidade diante do completo delírio imagético. Tem o fiel que compartilha como prova de entrega. Tem o adversário que compartilha em choque moral. Tem o isentão que comenta “forte” porque não sabe se ri, se critica ou se abre uma Bíblia. E tem o mais interessante, aquele povo que adora um prefeito biscoiteiro justamente porque ele entende a regra mais importante da política atual, aparecer vale quase tanto quanto governar, às vezes vale mais.
Rodrigo Manga sabe perfeitamente que já virou personagem. Ele opera na lógica do impacto fácil, da cena que prende, do gesto que parece espontâneo, mas pousa com precisão no colo do algoritmo. Esse apelido de prefeito biscoiteiro não caiu do céu, caiu do feed. E agora ele mistura fé, performance e autopromoção com a desenvoltura de quem entendeu que a política virou um grande palco de reels com trilha de redenção e filtro de humildade. A questão não é a crença dele, que é assunto dele com Deus. A questão é o talento quase industrial para transformar qualquer movimento em peça de consumo público. E isso, convenhamos, ele faz com uma desenvoltura que faria muito influencer desempregado pedir mentoria.
No fim, eu fiquei olhando para essa cena aqui da Europa com aquela expressão de quem já viu muita coisa errada de salto alto, mas ainda assim consegue se surpreender. Porque existe o político, existe o influencer, existe o devoto, e existe Rodrigo Manga, essa entidade rara do Brasil contemporâneo que entra na timeline como gestor e sai como episódio especial de surto nacional. O prefeito biscoiteiro não quer só governar, ele quer engajar. E, pelo visto, se precisar passar esterco na cabeça para manter o alcance, ele vai com fé, com câmera e com legenda pronta.