O telefone tocou com a voz do meu contato no Agreste de Pernambuco quase sem ar. Ele me jogou o número que a cidade inteira está repetindo entre o espanto e a raiva: R$ 1,353 milhão. Foi exatamente isso que a Prefeitura de Surubim pagou, adiantado, pela apresentação do Embaixador no São João da cidade. Pagou antes da primeira nota, antes do primeiro tchê, antes de qualquer coisa. E ficou olhando para um palco vazio.
Deixa eu traduzir esse cachê para a língua que dói. Surubim tem cerca de 68 mil moradores, o que significa que cada habitante da cidade, do recém-nascido ao aposentado, entrou com quase R$ 20 para bancar uma noite que não aconteceu. Olhando para o caixa do município, que arrecadou R$ 249,7 milhões em 2024, esse cachê sozinho representa mais de meio por cento de tudo que entrou na cidade no ano inteiro, evaporado numa única ausência. Dinheiro de cidade do interior, gente, que faz falta em creche, em posto de saúde, em asfalto.
E aqui está a parte que merece estar em letra garrafal, porque essa não foi a estreia do desencontro. O Embaixador já tinha furado essa mesma Surubim no dia 18 de junho, quando a equipe dele anunciou o cancelamento de cinco apresentações no Nordeste. A cidade engoliu, remarcou, vendeu de novo a esperança para o povo, e o homem simplesmente não subiu pela segunda vez. Duas furadas na mesma cidade em dez dias, com o cachê já depositado, é o tipo de roteiro que nem a novela das nove teria coragem de escrever.
Quem acompanha o setor sabe que esse modelo de cidadezinha pagando cachê de gigante já virou rotina no balanço do cantor. Um levantamento do ICL Notícias mostrou que só em 2024 ele faturou R$ 12,3 milhões em onze shows pagos por prefeituras, quase todas pequenas e médias. Tem caso de fazer chorar de revolta, como Mara Rosa, em Goiás, onde o cachê de R$ 1,1 milhão equivaleu a mais de 10% do orçamento anual de cultura, e Campo Verde, no Mato Grosso, onde a conta bateu na metade de todo o orçamento cultural do ano. Surubim entrou nessa fila achando que comprava festa garantida e saiu com o pátio da prefeitura ocupado por um caminhão.
Porque a resposta do prefeito Cléber Chaparral foi de fazer eco no agreste inteiro. Subiu ao palco vazio, chamou o artista de ladrão diante do público e exigiu a devolução integral do R$ 1,353 milhão, com correção, decretando que o caminhão de equipamentos da equipe não deixa a cidade enquanto o dinheiro não voltar. Do outro lado, o cantor alegou problema de saúde e prometeu remarcar. A mesma promessa de dez dias atrás, meus amores. Enquanto isso, o caminhão segue de refém, o povo segue sem festa, e eu daqui já fico de olho para ver se essa conta milionária termina no tapetão da Justiça ou numa nova data que ninguém mais acredita.