A eliminação da Coreia do Sul na Copa do Mundo virou crise de governo. Depois de ver a seleção cair ainda na fase de grupos, o presidente Lee Jae-myung afirmou que ficou “completamente perplexo” com o fracasso, criticou a gestão do futebol do país e pediu que o Ministério da Cultura, Esportes e Turismo investigue o que deu errado.
Eu ainda estava no Cosme Velho, com a manhã nublada entrando pela janela, café forte na xícara e suco de melancia tentando fingir que ontem não teve gritaria de Copa do Mundo dentro da minha sala, quando li que o presidente da Coreia do Sul mandou investigar a própria seleção. Meu amor, eu parei de passar manteiga na torrada. Porque no Brasil a gente xinga técnico no grupo da família. Na Coreia do Sul, pelo visto, o negócio sobe direto para o governo.

A seleção sul-coreana foi eliminada na última quarta-feira (24), após perder para a África do Sul. O resultado deixou o time fora do mata-mata e ainda marcou uma classificação histórica para os sul-africanos, que avançaram pela primeira vez a essa fase em uma Copa do Mundo.
A campanha até começou com esperança. A Coreia do Sul venceu a República Tcheca na estreia, mas depois perdeu para México e África do Sul. Com isso, terminou em terceiro lugar no Grupo A e nem conseguiu vaga entre os melhores terceiros colocados.
Lee usou as redes sociais para cobrar explicações. “Não estou apenas surpreso com esse resultado inesperado, estou completamente perplexo”, escreveu o presidente no X.
E ele não parou na indignação de torcedor. Na publicação, Lee disse que o problema não estaria apenas dentro de campo, mas também nas decisões tomadas fora dele. O presidente criticou escolhas de liderança no futebol sul-coreano, apontou possíveis falhas de organização e gestão e questionou a permanência de Hong Myung-bo como técnico da seleção.
“O fracasso em se classificar deixou a população desanimada e parece ser resultado de problemas de organização e gestão”, afirmou.
A volta de Hong ao comando da equipe, em 2024, já havia provocado polêmica na Coreia do Sul. A imprensa local questionou o processo de escolha do treinador e levantou dúvidas sobre os critérios usados para reconduzi-lo ao cargo.
Agora, com a eliminação, o assunto explodiu. Lee pediu que o Ministério dos Esportes investigue o que aconteceu, identifique os problemas e apresente soluções para evitar repetição do vexame.
A pressão também cresceu entre torcedores. Uma petição pedindo mudanças no comando da seleção ganhou força, enquanto críticas ao treinador e à federação passaram a circular com mais intensidade nas redes sociais.
E aqui está o detalhe delicioso: a Coreia do Sul transformou aquilo que no Brasil seria mesa-redonda, meme, áudio indignado de tio e debate sobre “falta de raça” em pauta institucional. Imagina se por aqui cada eliminação virasse investigação oficial? Brasília teria uma CPI do 7 a 1, uma subcomissão do pênalti perdido e audiência pública para saber quem autorizou lateral recuado em Copa do Mundo.

Só que, por trás da piada, existe uma diferença importante. Lee não está só berrando como torcedor de sofá. Ele está usando a eliminação para mirar a estrutura do futebol sul-coreano: gestão, liderança, critérios de escolha e decisões internas. É menos “por que perdeu?” e mais “quem deixou chegar nisso?”.
Enquanto isso, no meu Cosme Velho, eu olho para a louça de ontem, penso na classificação sofrida do Brasil contra o Japão e agradeço por aqui o drama ter terminado em Martinelli nos acréscimos. Porque se a moda pega, meu amor, cada gol perdido vira assunto de ministério. E olha que no Brasil ministro para isso não falta.